29 de mar de 2017

VAMOS FALAR DO QUE ACONTECEU ONTEM

Mais ou menos assim:
Passei uma boa parte do dia terminando uma logo. Pode parecer fácil, mas não é. Desenha, redesenha, muda, colore, altera, redesenha de novo e, só quem usa o bom e valente Corel sabe dos bugs quando ele não está rodando num slave ou numa máquina com placa dedicada. 
Terminei pouco antes das 18 horas. Feliz, abro o e-mail para enviar ao cliente e ouço um barulho tipo de um curto circuito, sabe quando a fiação da rua estala? Faltou luz e a bateria do note deu pra salvar o trabalho de dias. Quando estou trabalhando sou calma e pouco curiosa. Então ouvi um grito. Era a vizinha (moro numa vila) me berrando para eu abrir o portão, que sem energia elétrica não aciona o porteiro eletrônico. Um caminhão derrubara os fios da luz, do telefone, da internet. A vizinha queria anotar a placa e dar esporro no motorista, que ao ouvir os gritos de ca@%$ ra *&lhos@@@@ se pirulitou com caminhão e tudo. Abrimos o portão mas o objetivo não foi alcançado.
Cai uma chuva torrencial. Sem a luz e seus benefícios, sem internet . A palavra de ordem era ligar para a Light e o povo não tinha crédito. Menos eu que sou uma infeliz proprietária de um LG modelo sei lá qual que usei muito lá pelos idos 2008 ou 9. Não posso precisar a data mas posso comprovar que o aparelho é do tempo do Orkut, tem 3 letras em cada tecla e funciona com aquela canetinha, lembram? Hahahahaha
Assim, com celular sem internet, do tempo que poucos sabiam o que era wi-fi, inclusive o próprio (celular), claro que eu tenho créditos, franquia intacta! 
Liguei pra Light, a atendente com um forte sotaque nordestino e sem nenhuma paciência me pede código do cliente, CPF do titular da conta. Gente, não tinha a luz, a conta de luz não era minha, chovia pra caramba como assim, código do cliente?! Fiquei como ela sem paciência, claro! Informo a ela que o fio está fagulhando na calçada e ela insiste em código do cliente, CPF e cacete A4. Fico como ela sem paciência. Consigo achar e ela me tranquiliza prometendo prioridade.
Entro em casa a pensar . Duas horas depois, a chuva havia parado e voltado a cair várias vezes. Ligo pra Light de novo e uma atendente gentil me informa que não vai demorar. Fico satisfeita por saber que ninguém vai ser eletrocutado ali ao lado do meu portão, agradeço, desligo e ouço um barulho seco, abafado. Pensei: Pronto! A vizinha caiu e bateu com a cabeça... Antes que chegasse à porta, ouço gritos (sim, de novo) só que muitos mais, bem mais altos e diferente:
- Fogo! Tá pegando fogo! Rozziiiiiiiiiiiiiiiiiiiii !!!!!
Paro à porta pensando rapidamente o que vou levar de casa antes que o fogo chegue nela e, antes de me decidir pelo notebook, câmera e a Nina, descubro que o fogo é na rua. Um bonito Renault Logan, novo, prata tinha chamas dentro. Pensei que era do vizinho, pensei que com um extintor poderia-se debelar as chamas. Mas o pessoal achou melhor ligar para o bombeiro e ficar olhando. Pergunto:
- Será que vai explodir o tanque de gasolina?
Alguém responde:
-Vai.
Vou pra casa, o calor está vindo aqui. Claro que eu lembrei daquelas cenas de filmes e novelas e já me via voando pelos ares.
Chega o bombeiro e seus dois caminhões, apagam o fogo, tiram fotos. Chega a PM e duas viaturas, tiram fotos. Chega mais PM em dois camburões, conversam. Chega a Civil e quatro viaturas e a Light não chegou. A Civil também tira fotos, escreve, pergunta. A foto já sai no facebook numa página de notícias de Jacarepaguá. Chega um reboque e o motorista não tira fotos. Dentro do carro incendiado tem um corpo. Chega o rabecão, com dificuldade, tira do carro e leva embora o corpo. O reboque leva o que restou do carro. São quase duas da manhã, rápido para remoção mas acho demorado para uma emergência da Light. 
Na calçada o fio fagulhava. A chuva para e dessa vez parece que de vez.
Todos decidem dormir entre chocados com a violência (não é fácil ter um corpo carbonizado numa rua tão pacata de gente tão simples e comum que já está com medo do local virar ponto de desova) mais a decepção por não poder xeretar por mais notícias na internet....
Mandei um torpedo pro cliente da logo, lembram? Torpedo gente... Vamos combinar, né? Quem que manda torpedo hoje em dia? Eu, com o meu celular do tempo do Orkut porque o cliente não atendia. Bem feito pra ele, então. Vai ter que responder por torpedo! hahahaha
Na calçada, borra produzida pelo incêndio. Cada um pra suas casas cheios de histórias pra contar.
Cadê a Light? Então como numa cena bem produzida, vem subindo olimpicamente o carrinho da Light! Quase que a gente aplaudiu! O senhorio me dá a boa notícia que ao restabelecer-se a energia, a internet vai funcionar imediatamente. Ele também descarta a idéia do funcionário de remover as telhas de flandres da marquise para fazer o reparo, providencia uma escada imensa, colabora e finalmente, fez-se a luz! Mas a internet não veio. Como vou enviar o trabalho pro cliente? Na lan house. Gente eu nunca pisei numa lan house.

Nina agitada, não está acostumada à tanta confusão nem a me ver tanto tempo fora de casa. Ouve minha voz e mia, vou lá converso com ela faço um carinho ela dorme, eu saio e na volta encontro cocô fora da areia higiênica. Recado entendido. Entro e não saio mais. O sono não chega, a imagem da retirada do corpo não vai. Fico com medo, penso que o fantasma daquela pessoa vai morar ali no gramado. Vou demorar um bom tempo para passar naquele trecho da rua. Descubro que finalmente envelheci, pois que estou com essas coisas de um medo que só criança ou velho têm. Mas antes disso, vamos enviar o trabalho para o cliente que ele tem pressa.

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