27 de mai de 2018

SERENO















Não temo magia, feitiçaria
Passo longe da patifaria
Briga comigo, não tem escarcéu
Mas ó, quem me guarda tá no céu

Não sou bam-bam-bam
Tenho alma livre,mente sã
Falo sempre:
Com licença, por favor e obrigada
Fui feita de madrugada
Passa o sol, passa a chuva
O calor, o tempo ameno
Mas quem se livra do sereno?

Nota:
Sereno, orvalho ou rocio é um fenômeno físico no qual a água presente no ar se condensa na forma de gotas, ou seja, é o processo inverso da evaporação.

MAR DOCE
















Amo quem me ama
Trago a fumaça
Bebo a chama
Sou de ferro
Sou de fogo
Sou do vento
Venho no tempo
Vivo no ar
Penso noite
Sou energia
Sou um dia
A batucar
Canto ponto
Sem desconto
Vejo o mal se danar
O mar salgado
Pra mim é doce
Uma canção de ninar

ORAÇÃO BRASILEIRA












ORAÇÃO BRASILEIRA
Não tenho medo de nada.
Não me pega a armadilha
Trago aqui, Maria Padilha
Saí por aí
Não me faltou teto nem mocambo
Amadrinhada por Tata Molambo
Ando pra lá e pra cá
Não me enfio em antro
Com a proteção do malandro
Meu amargo é doce
Danço tudo, samba e ie-ie-iê
Sou guardada por Erê
Vivi muito. Errei, sim
Não me estrepei ainda
Tenho muita fé em Vovó Cambinda
Tô aí, ano após ano
Na força de Pai Cipriano
Mal e bem é questão de opinião
Não carrego mal nenhum
Sou protegida por Ogum
Tô aí
Ninguém me pega como posse
Sou filha de Oxósse
Comigo não tem vaia, não tem uuuuu
Tô aqui, guardada por Exu
Não fico dura, tenho sempre algum
Sou amiga de Oxum
Não reclamo, tudo tem um porquê
Tenho meu esquema com Obaluaê
Pensa que me engana?
Já me disse tudo a Cigana
Minha noite é clara como o dia
Sou fiel à Virgem Maria
A ambição não me seduz
Meu exemplo é Jesus

POEMA DO MEU MALANDRO DA CAMISA PRETA














Existe um malandro,
Caminha no meandro
não me bate nem me explora
Cara maneiro, bonito
Me chama de senhora

Elegante, de boas maneiras
Homem de fino trato
Voz rouca, olhar grave
Temos um contrato

Me deu a pena pra escrever o verso
E esse olho que brilha meio disperso
Me deu olhos de poesia
Vem comigo seja noite, seja dia.

Diz que eu mando,
que sou dona da sua vida
Deixa meus dedos amarelos de nicotina
Tá voltando quando tem gente na ida
Me faz feliz como ninguém imagina!

Me botou no samba, me jogou no carnaval
Me trata bem como ninguém faria igual

Ele vai quando tudo está bem
Ele vem quando tudo está mal
Me protege no escuro da madrugada
Me diz: Olha bem mas não diga nada

Ele é sério e educado
Me empresta seu gingado
Diz que não é Zé
Mas posso chamá-lo do que quiser

Seu nome não dá rima perfeita
É o Malandro da Camisa Preta
Onde ele está, não tem "treta"

Fala difícil, complicado
Faltou pouco pra ser advogado
Injustiçado, acabou numa cadeia
Por isso desembaraça qualquer teia

14 de mai de 2018

SAMBA NO PÉ, MELODIA NAS MÃOS COM CHEIRINHO BOM DE COMIDA NO AR



No retorno da Feira das Yabás após 6 meses, foi a gota de orvalho na suavidade da pétala da flor, pela suavidade das homenagens e também o encontro do fogo com a gasolina, no calor dos sambas e pagodes mais sacudidos, uma poesia bucólica? Antiga? Suburbana? Sei lá... Uma poesia cheia de poesia! Nas cores de uma tarde linda.
Marquinhos de Oswaldo Cruz transmite suavidade e uma certa força orientadora nas suas explicações breves na voz mansa que transmite em gotas bem dosadas o esclarecimento de uma política cotidiana, a importância da ocupação pelo povo do espaço que é seu (do povo). 
Hoje Marquinhos tinha o público nas mãos, era a saudade de estar ali e, finalmente, estávamos de volta. 
A Feira das Yabás é mais que um evento, é mágica, fé, calos, cansaço, samba no pé, melodia nas mãos com o cheirinho bom de comida de mãe no ar. Que Deus proteja esse espaço de alegria, harmonia e paz! Amém.

RETORNO DA FEIRA DAS YABÁS: COUBE TUDO NA PRAÇA, N.Sa., Preto-Velho, Dia das Mães,130 Anos da Abolição

Tem vídeo.
No retorno da Feira das Yabás após 6 meses, foi a gota de orvalho na suavidade da pétala da flor, pela leveza das homenagens; e também o encontro do fogo com a gasolina, no calor dos sambas e pagodes mais sacudidos. Uma poesia bucólica? Antiga? Suburbana? Sei lá... Uma poesia cheia de poesia! Nas cores de uma tarde linda. Marquinhos de Oswaldo Cruz transmite suavidade e uma certa força orientadora nas suas explicações breves na voz mansa que transmite em gotas bem dosadas o esclarecimento de uma política cotidiana, a importância da ocupação pelo povo do espaço que é seu (do povo). Hoje Marquinhos tinha o público nas mãos, era a saudade de estar ali e, finalmente, estávamos de volta. A Feira das Yabás é mais que um evento, é mágica, fé, calos, cansaço, samba no pé, melodia nas mãos com o cheirinho bom de comida de mãe no ar. Que Deus proteja esse espaço de alegria, harmonia e paz! Amém.

6 de mai de 2018

O PRIMEIRO SAMBA A GENTE NÃO ESUECE

Vanderlei Santana, Catia Guimarães, Rozzi Brasil, 

Uma experiência inigualável! Olho pra mim e me vejo satisfeita por ter tido a oportunidade de participar de mais esse trecho de tudo o que compõe o samba do Rio de Janeiro. Vai ter textão, esse é só o primeiro. No momento só posso dizer algumas das muitas coisas que aprendi recentemente:
- Não existe escola pequena.
- Nossa Cultura é grande, grande, muito maior que qualquer competição. Inclusive, ela só une. Se alguém se divide, precisa aprender um pouco mais sobre a cultura do samba carioca
- Um enredo bem escolhido chama, aglutina, dá volume ao trabalho da agremiação. Jeronymo Patrocinioo foi uma excelente escolha, sua trajetória rendeu sambas inspirados e lindos. Botou o GRES Arame de Ricardo diante de muitos que o tinha esquecido ou não o conheciam.
- Uma boa sinopse é fundamental para dar brilho à trajetória do homenageado, colorir a história que se vai contar e transmitir o conhecimento "pra geral".
Parabéns, Samir Trindade você fez isso muitíssimo bem!
- Participamos desse concurso levados pelo respeito às cores azul e branca, pelo reconhecimento ao tema do enredo - Jeronymo Patrocinio, para quem fama e sucesso não são equivalentes e cabem em Madureira, sem precisar de AP nos bairros badalados.
- Nossa parceria é nova em trabalho junto, mas certamente vem de uma amizade de outras vidas, tal a sintonia que desenvolvemos. Não somos os mais ricos e por isso mesmo tentamos preencher com talento, carinho e experiência de vida, amizade, respeito e sentimento de equipe todas as lacunas que a falta de grana produz. Agradeço sinceramente a quem vem com a gente!
- Seja qual for o resultado de hoje, só ter aprendido esses itens acima, já nos faz campeões apaixonados pelo samba e pela vida. Claro que eu quero muito cantar esse samba na final, em Oswaldo Cruz, na Portelinha! Mas os fatos da vida não ensinam só pra mim e felizmente tem gente e coisa boas correndo atrás, como nós. Por isso o coração bate na boca mas ele tá tranquilo porque fizemos com alma e nos dedicamos com todo amor que temos!
SEGURA POVO, QUE O ARAME VAI PASSAR!
O MENINO SONHADOR VAI BRILHAR NA PASSARELA!
E ele sintetiza o sonho e a luta de todos nós!
Salve Jeronymo! Dodô! Patrocínio!
Salve o azul e branco do Arame e da Portela!


30 de abr de 2018

A NOSSA HISTÓRIA NÃO VAI COM A GENTE














Breve.
Meu PC ta ferrado,
Todo desmontado
Em cima do armário.
Tenho planos de vendê-lo.
Sei lá como fazê-lo
Minha mãe sempre dizia:
A pior coisa do mundo
É fazer freguesia.
Mas nunca atendia
Vendedor de porta-em-porta
Mensagem decorada
Hoje não sei vender nada.

Estou indo morar na minha antiga casa.
Lá não tem telefone e nem TV.
Imprimi nas coisas, coisas nada a ver.
São quase 3 anos fora de casa
Batendo asa
Tentando fazer o coração dar certo.
Sem família por perto
Tentando ficar ereta,
Tentando a coisa certa,
Tentando fincar o pé,
Catando onde deixei minha fé
Caçando algum chão depois da ventania.
Mania de insistir no que nem se queria
Teimosia
Acabar o que comecei

Não tenho pena de mim,
até acho que é bem feito, sim
Quem mandou eu ser intensa?
No amor tem gente que sente
E tem gente que só pensa.
Só vai na boa:
Dinheiro, carro e um bom endereço
Gente assim que no amor bota preço
Que se amarra numa sedução
E amar de verdade? Ama. não.

Sou diferente,
Sou igual a quem é igual a mim
Mas na vida a gente
Não encontra só gente assim
A gente que ama,
quase sempre se engana
A vida é muito sacana

Quem mandou não ter segredo?
Se jogar num sentimento sem medo?
O amor  que pra uns é fogo
Pra outros é só mais um jogo.

Um dia e a gente se sente perdida.
A genteentende que perdeu
A gente percebe que se perdeu.
Tentou mas não deu.

Já me senti fracassada,
errada,
culpada,
feliz,
irada,
E isso não tem nada de mal
mas estar perdido é perda total.
Não tem seguro que pague
Não tem borracha que apague.

Tenho medo de me achar,
O que preciso fazer não quero,
Queria mesmo era ficar
Preciso ser bem ser sincero:
Não tenho coragem.
Devo ser meio masoquista:
Estou sofrendo e acho que vai passar
Não consigo ir, porque quero ficar
Tenho medo de me arrepender
Fazendo o que não quero fazer
Nunca tenha me arrependi das minhas partidas.
Mas vamos combinar? Odeio despedidas
Fico assim nesse vai, não vai
Tenho alma de criança pobre,
qualquer coisinha me distrai.

É uma ferida que me abriu na cabeça
E dói rasgando o coração.
A boca sorri, de tristeza sou avessa
Minha alma pateta diz não, não, não

Há muitos anos fiz um poema de rimas doídas:
A noite chicoteia e o sol trata com sal as feridas.
De lá pra cá nada mudou. Tudo continua sendo
O sal é sal, o sol continua queimando, tudo segue ardendo

Passamos a vida inteira nos deparando
com os mesmos fatos
Aprendendo a ir com eles lidando
Até que consigamos mudar nossos atos
Se não muda, não "rola"
Nãos saímos da escola

Já comprovei, provei.
A vida é repleta de rituais,
(Tem manual, nada demais)
mesmo para os descrentes,
(principalmente para os valentes)

Preciso criar o meu ritual de dar no pé sem despedida
Porque é assim que é na vida
Não tem olá quando se chegamos
Não tem tchau quando nos vamos

Rituais que marcam de forma solene as trajetórias
de modo que nos lembremos depois, com orgulho ou não,
Sem saber uma vírgula, temos que escrever nossas histórias
Nossa história  não vai com a gente,
Ela fica com quem nos guarda na mente.

E a história só é sua porque você a viveu
Mas e o argumento? Quem foi que te deu?

16/11/2007

27 de abr de 2018

FELIZ PORQUE NÃO TEM OUTRO JEITO












Hoje amanheci feliz.
Apesar de não ter o que quis.
Apesar de não chegar onde precisava.
Uma parte de mim me acalentava.

Amanheci feliz apesar da violência,
da tendência,
sofrência,
negligência.
Sorri pra tolice,
burrice,
breguice...
Resignada disse amém,
Tudo isso, quem sabe,
esteja em mim também.
Hoje amanheci feliz,
Tão-somente,
sem motivo.
Sem felicidade não vivo.
Ela não é de verdade
( Talvez ansiedade )
Mas não é mentira.
Só um artifício -
sem sacrfício.
Sem isso a cabeça pira.
A tal da resiliência
que a mente fabrica
no auge da carência.
Tem que ser assim,
Pegar esse monte de bosta,
tentar fabricar estrume pra'quele jardim,
que sei resiste, dentro de mim.

9 de abr de 2018

TODO MUNDO TEM DIREITO ÀS VITÓRIAS, À FELICIDADE E AO PÃO QUE SÓ MATA A FOME

O cara posta a vitória do Fogão, aí outro aparece desqualificando o campeonato, o time e a torcida. O campeonato só é válido pro time dele. Uma dificuldade de saber perder. Uma incapacidade de ver comemoração alheia. "Igualzin" na política...
Aí me dá um orgulho de ser o que sou, de crer no que creio, de vir da onde venho. Esse comportamento que não sei como classificar - nem tento, só desaprovo para minha conduta e que não me venham muito pra perto com ele - dá um efeito contrário em mim. Sentia-me, como muitos contemporâneos meus, traída pelo PT, tinha deixado de votar (já contei aqui essa história), estava de mal com o Lula. Ardia num arrependimento umbralino por nunca ter sido brizolista, já que pelas minhas condições e história de vida, pertencer à direita - mesmo direita, é pra mim tão impossível quanto torcer para outro time. De modo que, tudo como está acontecendo, torto, para um lado só, claramente sombreando a democracia que eu ja achava que era franzina e meio fingida, me faz fazer as pazes com Lula, sim.
Então, eu que não sou evangélica, apenas procuro viver de acordo com o Evangelho porque sou muito fã de Cristo, tenho o costume, hábito ou mania de abrir esse livro (já muito roto porque vem de outras gerações) aleatoriamente para tentar ao longo do dia praticar o ensinamento que "cair".
Hoje foi aquela passagem que Cristo triste com a condenação e morte de João Batista (que ele dizia, era maior profeta que ele) foi "dar um tempo" num local deserto.
Só que aí, a multidão foi atras dele e ele curou quem estava doente ali. Então, os amigos falaram que era pra ele mandar o povo vazar porque estava tarde, o local era deserto e não tinha comida pra galera, só 5 pães e uns peixinhos merreca.
Jesus falou tipo:
- traz aí essa mixaria.

E multiplicou de um jeito que umas 5000 pessoas comeram de boa.

Não satisfeito, Cristo mandou os amigos entrarem no barco e dar uma volta, só que ele não foi (lembram que ele se retirou pra um lugar ermo a fim de ficar sossegado? Pois é) . Despediu a multidão já de pança cheia e finalmente ficou sozinho pra rezar, meditar, agradecer, enfim, entrar num chat com Deus, o pai dele.
Tempão depois, o barco com os amigos estava lá no meio da água e ele vai, a pé, encontrar com a turma. Todo mundo amigo mas quando viram o Cara andando sobre as águas, se borraram todos achando que era fantasma😲😂😂
- Calmaí, gente! Sou eu!
Aí, Pedro metidinho que só, já quis também surfar sem prancha... Affff
- Vem, Pedro!
Pedro foi. Quando sacou a parada, sentiu que estava mó ventania e ele em cima da água, amarelou e começou a afundar 😩 Jesus deu a mão a ele e claro, um esporro:
- Homem de pouca fé, duvidou por que?
Ah, gente, como eu queria ver a cara do Pedro nessa hora! 😆😅
É muito ensinamento em 10 versículos e sempre que leio surge uma coisa nova.
... Confiar na vida, correr atrás (povo que seguiu ele pelos cafundós);
... Ter fé e ser paciente (Ele precisando de sossego por causa da morte do JB e ainda mais do jeito que foi) atendendo aquela multidão necessitada e, olhe bem que não era só pobre que procurava Cristo porque desde aqueles tempos "a gente não quer só comida" e as outras tantas necessidades, como saúde por exemplo, nos igualam ou inferiorizam por mais grana que agente pode ter, felizmente tem muita coisa que o dinheiro não pode comprar;
... A generosidade de multiplicar e repartir o pão (porque os" apóstolos iam "segurar" o que tinham e ainda Cristo que deveria mandar o povo ir embora);
... Compartilhar o prazer, a diversão (andar sobre as águas deve ser bom pra caramba e ele compartilhou essa onda com Pedro e nem precisaria se não fosse pra ensinar algo);
Tudo isso ⬆️⬆️⬆️⬆️⬆️ eu já tinha percebido em outras leituras porque essa passagem sempre "cai" pra mim. Hoje meditei que:
Cristo andou sobre as águas e isso pode ser uma dica pra gente entender que tem que andar sobre a água pura ou sobre a lama e sem dúvida dessa capacidade de flutuar sob pena de afundar nela;
A gente tem que passar pelas perdas doloridas e graves sem perder a paciência com os egoístas, insanos e toscos porque talvez eles não saibam ser diferentes disso ou quem sabe, o nosso momento difícil pode ser o único em que ele vai ter oportunidade pra se livrar de algo que o aflija. Sim eu sei, a gente não faz milagre, mas tem que ter paciência, viu? E fé, muita fé.
Então, sejamos generosos e pacientes e não percamos a fé, se entendemos que devemos repartir o pão e a Vida, o Saber e a Alegria, estamos muito mais próximos do Bem do que imaginamos
É isso.
#botafogocampeão
#Lulalivre

8 de abr de 2018

AQUELES QUE DESEQUILIBRAM O UNIVERSO


Sexta-feira, 06 de abril de 2018, eu vinha de Madureira a bordo de um 99POP, tendo 4 latões mais meia garrafa de 600ml de cerveja correndo pela corrente sanguínea.

Pedi para o motorista dar uma paradinha no posto de gasolina, aquele ali perto da Leroy Merlin porque eu sentia que ia precisar de uma barra de chocolate.

Entro na loja de conveniência, dirijo-me ao caixa no balcão onde já tinha uma pessoa à minha frente.

Tenho a atenção despertada por um grito ao estilo bêbado conversando com o mundo sem megafone vindo da outra extremidade do ambiente:

- Por mim, tudo que é sapatão, tinha que morrer! Viado também! MORRER QUEIMADO! Me dá o fogo que eu queimo esses FDP!!!
Como eu, todos olharam.
Como eu, imediatamente após o final da frase, todos "desolhamos".
Todos que olharam no mesmo momento que eu, voltaram os olhares para o que estavam fazendo antes.

Uma concretização do desprezo absoluto.
Imediatamente pensei que se ele em vez de gritar na asséptica lojinha, postasse no Facebook, receberia curtidas, comentários e quem sabe, com um tanto de sorte, encontraria até quem brigasse com ele com posts tão agressivos quanto a sua fala. Mas era apenas mais um ignorante, sem condições de usar um smart phone.
Peguei, paguei, esqueci.
Lembrei  desse ocorrido agora, domingo, dia 08, dia que Lula foi para a república de Curitiba. Quando li uma postagem que dizia:

-  "um acidente aéreo seria a glória".

Deletei, bloqueei, esqueci. Taí um boçal em condições de usar smart phone.
Não quero que pensem como eu, mas certos pensamentos (como o desejo de morte e pra piorar, sofrida e dolorida para alguém ou ainda que fosse um animal) faço questão de ignorar que possam existir, são miasmas que desequilibram o Universo.



2 de abr de 2018

ME DEIXE CHORAR EM PAZ


As pessoas compram discursos conforme suas tendências. Há anos o extermínio da população jovem-negra-pobre-das-e-nas-comunidades vem sendo denunciado e quem apoia ou se comove?
Agora se a denúncia ou reclamação envolver gente preta é "mimimi", como a luta dos LGBTs para terem os mesmos direitos (porque pagavam e pagam impostos) foi chamada de "ditadura gay" por uma rede de imbecis que lucram muito espalhando boatos e inventando teorias que distorcem a realidade com um único objetivo: Manter a Casa Grande e Senzala.
Se você, após 15 dias da morte de Marielle e tantos debates, não foi capaz de perceber as diferenças entre crime violento e atentado político e quer que eu me comova mais pela morte do policial ou da moça-loira-heterossexual-mãe-de-família, isso me faz pensar que você está incomodado com o "sucesso póstumo" de uma negra.
No fundo você acha que ela não é merecedora das homenagens e comoção porque você não está ou não se acha incluído nos grupos que Marielle lutava para defender da morte, do desrespeito, da indigência, essa mesma indigência que você quer impor à ela (sua memória e seu legado) ao trocar a foto de Marielle por outra qualquer mais ao seu gosto, ignorando as milhares de vidas perdidas anteriormente, principalmente as negras por serem em maior número.
Me faz um favor, me convide pra suas campanhas e me deixa chorar em paz.

1 de abr de 2018

Série Encontros

Um cara que eu admiro pra caramba: Milton Cunha, exemplo de que a dor não mata nem aleja e às vezes nos faz mais fortes e podemos ter um tanto de pimenta e vinagre sem amargar os dias dos outros.

31 de mar de 2018

PAPOS DE SAMBA

No Sábado de Aleluia, não malhei ninguém, como sempre. 

JESUS NÃO ESTAVA NAS LOJAS AMERICANAS

Sexta-feira santa caminhando pela Estrada do Portela, reparei a Lojas Americanas aberta e já passavam das 18 horas. Acreditam que fiquei chateada?

Lembrei de um professor de OSPB que tive na sexta série. Moreno, alto forte, barbudo, de cabelos cacheados, lindo, lindo, encantador feito um cigano, Professor Pedro. Foi dele que ouvi pela primeira vez os conceitos de capitalismo e direita mas foi só uma lembrança rápida e vaga. Depois pensei que é assim que se soterra uma tradição, que se "descredibiliza" 😲    | uma fé.


Vi aos montes nas minhas redes sociais, pessoas mencionando memórias de uma Sexta-Feira Santa que era muito mais que um mero feriado. Nos relatos havia vivência em família, costumes respeitosos às coisas que de verdade ninguém sabia direito, como as consequências de se falar um palavrão, fazer bagunça, brigar com o irmão, mas como quase toda sexta da Paixão chovia, a gente não insistia...

A gente ia à missa pra pegar o raminho do Domingo de Ramos, minha avó colocava na porta e quando tinha tempestade ela queimava um tantinho das folhas. Meus irmãos passavam a madrugada de sexta pra sábado montando judas com roupas velhas do pai e escrevendo os nomes dos cornos, dos fofoqueiros, dos políticos; até lembro que o Negrão de Lima sempre entrava no pasquim do judas. Nessas sextas, o café era preto, sem leite e o pão só com um pouquinho de manteiga. O som não podia ser alto, minha mãe colocava chorinho, um LP do Waldyr Azevedo que era a música erudita lá de casa. Até meio dia tentávamos ser calmos, discretos, silenciosos, contemplativos. Eu gostava da parte de não precisar varrer a casa e o quintal pela manhã. Minha avó contava histórias de crianças que responderam mal aos mais velhos e o chão se abriu engolindo elas e suas falta de modos. A ansiedade pelos ovos de Páscoa, a gente disfarçava na sexta-feira santa e esquecia no sábado de aleluia mediante a euforia da malhação de judas e a expectativa da reação das pessoas que tinham os nomes citados no boneco. 

Uma vez, minha mãe que teve uma infância difícil contou-me que já trabalhava aos nove anos de idade e na casa dos patrões, "esqueceram" dos ovinhos de páscoa para ela, vendo como ela ficou triste ao ver os filhos dos patrões recebendo seus ovos, alguém lá da casa (grande) cozinhou uns ovos de galinha, tingiu-os com anilina, escondeu no quintal e mandou que ela procurasse. Ela sempre falava da alegria de ganhar esses ovos coloridos, eu ouvia como mais uma das histórias, mas hoje choro quando a lembrança me traz sua voz e seu rosto contando essa barbaridade.


O Cristo que andou com "galera", mudou água em vinho, perdoou as prostitutas e delas foi amigo, expulsou os vendilhões do templo, deixou um único mandamento de amor, não estava na Lojas Americanas de Madureira, ontem sexta-feira, dia 30 de março de 2018 e dificilmente estará nas nossas vidas dessa forma amiga e de paz. Não haverá alguém sensível o suficiente para consolar uma criança com ovos de galinha tintos de anilina.

O patrão e provavelmente na história de minha mãe, a patroa - como no filme "Que horas ela volta" transmigrou pro atacado e varejo e anuncia com orgulho que no feriado destinado à reflexão e quem sabe oração, funcionará em horário normal, afastando tantas pessoas da família, da possibilidade de reflexão, oração....

O judas que não se malha mais, se alojou numa sombra de alma arrependido com o que fez de nós e os patrões nos põem a trair a nós mesmos em troca de umas moedas prateadas e poucas notas azuis, que mal confortam o estômago muito menos o coração.

É, Professor Pedro esse capitalismo vai acabar com a nossa humanidade, sim.

F E L I Z   P Á S C O A, queridos amigos!

QUANDO CAMINHAMOS POR MONTANHAS














Fiz silêncio, muito silêncio. 
Jejuei, pensei. Fui à missa.
"Essa é sua casa Senhor,
Nela viveremos com alegria".

Tomei banho de ervas.
Manjericão, louro, alecrim, macaçá
Fazem a tristeza passar
Tudo verde bem quinado
um banho bem gelado.

Conversei com Vovó Cambinda, 
queria saber onde ela estava no tempo que Cristo vivia, ainda
Defumei a casa depois de meio-dia, porque aí, podia.

Rezei um terço inteiro.
Fazia silêncio dentro de mim.
Ouvi Kitaro todo tempo, 
ele me deixa assim.

Lembrei da infância e descobri que não foi feliz, mas nela havia pessoas boas, então não foi de todo ruim.
As pessoas boas nem sempre têm tempo para bondades.
Olhei para trás e só vi montanhas. 
Em algum lugar, lá muito longe, 
distante com certeza, 
tinha uma janela.
Passei foi por ela,
Eu, e a minha coroa de princesa
A menina que corria pela casa, andava aos saltos rindo de nada e para tudo e se achava feroz, jamais teve uma porta por onde passar ou se teve as ignorou, porque ouvia música. Trazia sempre o dedão do pé, sem a pele, esfolado de topadas.
Tinha sempre um bicho pra conversar e nenhum adulto pra ouvi-la. Era um tempo que os adultos comandavam, ordenavam, ditavam o que nem sempre era fácil entender ou fazer.
O quadro de São Jorge, de gesso, esculpido em alto relevo, lá alto, muito alto, quase chegando ao teto da sala,
de frente pra porta, como deve ser, com a lampadinha vermelha eternamente acesa jogando no fio de contas brancas e verdes sua cor de sangue... 

Pedra de raio, pedra de rio, pedra de mar.
São João e seu carneirinho olhando pra baixo a me vigiar.

O cheiro de defumador atravessou minha mente,
defumou minha infância inteira, esclareceu meu coração, me elevou. Assim, percorri todas as montanhas que eu nunca percebi que eram os meus caminhos.
Não se sobe uma montanha sem descer de outra. 

Altos e baixos como a água que um dia 
mora na poça, no rio, no mar;
No outro, é nuvem pra anjo brincar;
Mais tarde é louca, é vida é chuva 
e em cima de nós vai se jogar. 

Tudo o que fazemos, recebemos.

Mirra, alecrim, assafete, arruda, patuá
Quando Cristo andava pelo mundo
Vovó já estava por lá.

Foi um dia intenso, não tenho mais sono
No entanto tenho muito, muito, muito sonho.
A menina ainda tem um andar estranho
Sorri pra tudo e todos de qualquer maneira
Mas traz no pé a cabeça do seu dedão inteira.

E quando Cristo morreu, por onde andava, Vovó?
Ela era jovem não tinha toco, 
não tinha tronco, me olhava, não me deixava só.


24 de dez de 2017

MENSAGEM DE ANO NOVO

Um amigo mando por whats, eu disse que faria um vídeo pra não ficar só por ali. Depois recebi de outro e de  outro e de outro. Até que encheu mas continua sendo uma boa mensagem.
FELIZ 2018!

UM DIA A GENTE ENXERGA QUE ERA FELIZ

Um dia a gente abre os olhos e enxerga que era feliz,
Ter sido feliz já é um bom motivo pra não se entristecer. 
Ah, a alegria de quem foi tolo o suficiente pra ser feliz sem saber!
Doce sabor de festa
Aquela ressaca daquele pileque que veio sem querer

TODO AMOR TEM VERDADE ATÉ SE NÃO FOR VERDADEIRO





















De amores e desencontros fizemos nossa vida.
De desencontros viveu o nosso amor. 
Ainda assim, sempre responderei seu aceno, 

evitarei despedidas, 
Todo amor tem verdade
mesmo se não é verdadeiro,
vou te ler alguns poemas,
serão eles, não eu, que lhe falarão de amar.
Amor de desencontro dói demais,
Fiquemos no chope, nas conversas triviais

14 de dez de 2017

EU VI: DO COMEÇO AO INFINITO


Papo de fã. Você vai a um show do Roberto Carlos sabendo que vai gostar, sabendo o que vai ouvir com poucas variações no que vai ver e aqui nenhuma crítica ao Rei que amo de paixão.  Prosseguindo com o raciocínio: Eu vou a um show de lançamento da Ana Costa sabendo que vou gostar mesmo sem saber exatamente o que vou ouvir ou ver. Simples assim.

Dia 08 de dezembro desse ano que insistentemente demora a acabar, fui assistir uma das edições dos show de lançamento do novo trabalho da cantora, compositora e violonista, Ana Costa.


Um show com menos músicos e mais música, com menos instrumentos e mais som. 
A leveza contínua, flutuante que repousa na delicadeza de uma sintonia muito perfeita entre voz, bandolim. Fui ouvindo em casa o CD e vejo que a perfeição continua. 
A inserção de "Último Desejo" (Noel Rosa) deu-me a sensação de que eu deveria ter ido nos lançamentos anteriores (no Municipal de Niterói e C.R da Música na Tijuca) porque fiquei com a sensação que cada apresentação jamais será repetida.

E eu acho que Ana Costa é bem isso: Uma artista que jamais se repete, busca mais que inovar, mas um refazimento. numa recriação infinita como se cada dia vivido e cada aprendizado entrasse como filigranas no que ela nos traz. Como não sou crítica digo apenas o que vejo e o que sinto do que ouço. É um show belíssimo e o CD, sim, eu sou do time que baixou as músicas de uma das muitas plataformas onde etão disponíveis mas gosto de pegar, mostrar, acompanhar, seguir com o dedo o que está escrito e que a tia lá da escolinha no século passado dizia que não era legal fazer; Pois bem o CD tem um dos designers mais bonitos que já vi. É o tipo de trabalho que não tem o que se criticar, só curtir e muito!

3 de nov de 2017

PEDIDO QUE SE FAZ

Todos os dias eu peço a vida, que jamais aconteça de eu pensar pequeno, que jamais tenha "crises" de mesquinhez, porque é apenas isso o que não permite que sejamos grandes.
03/11/2017

AS PESSOAS NO BRASIL PENSAM QUE SÃO BRANCAS -

Não só mas também por isso, sou apaixonada por esse cara. Nessa vida, marcamos mas eu me atrasei um pouco, saltei na família errada, vim mais tímida do que ele e quando nos esbarramos por duas vezes, uma no calçadão da ZS, outra, em Vargem Grande/Recreio, eu fiquei mais gaga que o Gaguinho do Perna Longa, mais muda que uma girafa e aí, nem ele não me reconheceu, nem eu me apresentei. Acabou assim sem começar, a maior historia de amor de todos os tempos. Mas to marcando para a próxima reencarnação quando voltarei hétero, escrevendo um pouco melhor e completamente desinibida!

Me realizei vendo esse vídeo e praticamente gozo quando vejo a inveja que os bobos tem desse homem, como se ele
fosse meu! Vejam o vídeo, o final é ainda melhor!
(Rozzi Brasil)



"Nosso valor é miscigenação. As pessoas pensam que não são mulatas, mas estão fazendo muita coisa boa porque são mulatas. A miscigenação é o futuro da humanidade e o Brasil está adiantado nisso", declara o compositor e escritor nesse vídeo.

Numa entrevista rara, o cantor, compositor e escritor fala sobre racismo e a sua visão de Brasil. Segundo o artista, não existe branco no Brasil e é uma ilusão o brasileiro querer negar a mestiçagem nacional. Chico relata casos de racismo sofridos pela família. Ele conta que já foi vítima de piadas racistas por conta do genro, Carlinhos Brown, ser casado com sua filha Helena Buarque.
( Conexão Jornalismo)


2 de nov de 2017

AOS NOSSOS MORTOS, A VIDA!

Chorei as perdas, sofri pelas ausências. Um dia a ficha caiu: 
O que vamos visitar no túmulo é uma parte de nós porque nos sentimos sós.
Quantas visitas posso ter recebido dos meus finados amados e não os percebi?

E assim sendo, será que eles ficariam por lá pra me receber?
Não sei se os meus mortos gostariam de me ver chorosa, triste, mastigada pela saudade que eles deixaram pelo abandono involuntário.
Lá em casa, sempre, todos os encontros eram muito barulhentos com música alta, dança desengonçada, muita birita e algum bullying, farra de família.

Não, não vejo muito o sentido em fazer essas visitas silenciosas e tristes de morte ao morto quando deveríamos fazer uma festa, tocando a música que nosso morto gostava, vestindo suas cores prediletas, sacudindo a bandeira do seu time, cantando pra ele o samba de enredo da escola dele para o carnaval que virá ou aproveitar a chance e cantar o da nossa escola dizendo que ela vai ganhar pra devolver o bullying só um pouquinho pra senti-lo sorrindo. Qualquer coisa que pudesse dar um pouco de alegria pra eles e pra mim também.

Não foi um bom negócio essa exploração portuguesa, pegou tanto da nossa riqueza e deixou essa herança de tristeza, tudo tão triste, choroso e roupa preta que eu nem tenho, que fico feliz por saber que, na minha filosofia, os que dissemos mortos, apenas partiram livres, de pesos de ossos, carne, nervos, cabelos, sangue, dores, levando seus amores e humores, enquanto eu aqui, levando flores, mortinha, com a minha vida soterrada nos pesos que carrego e tudo o mais que só serve pra impedir a minha alma de voar em vida.


4 de out de 2017

O RISCO DO QUE É INESQUECÍVEL

No carnaval de 1964 eu não havia nascido mas eu sei que "Aquarela Brasileira" de Silas de Oliveira do Império Serrano tido como um dos 3 melhores sambas de enredo de todos os tempos  não atingiu a nota máxima, perdendo 2 pontos na avaliação do julgador do quesito letra. Teve nota máxima no quesito melodia. Jornalistas publicaram sua indignação em veículos de grande expressão na época como a revista Manchete, Jornal Última Hora e O Globo. Lideranças de outras escolas de samba manifestaram-se contra o absurdo da falta de sensibilidade de um jurado especializado que não sabia reconhecer uma obra-prima. Silas de Oliveira ainda era pouco conhecido, não tinha o nome na mídia e o Império Serrano ficou, se não me falha a memória do que eu não vivi, com um quarto lugar muito desmerecido.

Em 2004, eu não só já tinha nascido, como presenciei a reedição do samba que fazia como eu, 40 anos. A LIESA comemorava 20 anos de fundação e o Sambódromo completava seu vigésimo carnaval,  permitindo que a escola da Serrinha reeditasse o samba de Silas que Martinho da Vila colocou à luz da mídia quando o gravou no seu LP Maravilha de Cenário 29 anos antes.

Eu não só me empolguei com a possibilidade de estar na avenida ao som desse hino brasileiro como fiquei louca de alegria ao ver que o Império Serrano apresentava ali um formato de desfile  como era lá antigamente. Sem as filas ao estilo militar, componentes soltos, átomos de alegria, energia e emoção disparados por toda a Sapucaí que eu nunca vi cantar tanto um samba como daquela vez e ainda com coreografia de braços elevados e mãos indicando "este céu azul de anil, emolduram em aquarela meu Brasil"...

Daí, que foi feita a justiça ao samba-letra-e-melodia de Silas mas ficou  faltando emoção, compreensão nas notas à Serrinha que não voltou nas campeãs amargando um nono lugar. Se tem uma escola que é diferente das outras é o Império Serrano. Ela tem jeito de povo, garra de povo, sua história é costurada pela garra, determinação comuns às gentes do povo. Nos desfiles mais recentes, no Acesso, lá, antes da Sapucaí fazer a curva, eu olhava as arquibancadas vazias e me dava um frio no estômago. Como assim, o Império vai passar com tão pouca gente pra ver? Gente de fora, agarrada nas grades, berravam na minha orelha:
- Canta, porra! Isso é império serrano
- Vai Império!
- Eu amo o Império!
- Minha escola
- Sou escola X mas adoro o Império!
E por aí, ia.
Quando finalmente eu botava a cara na entrada do Setor 1, as lágrimas desciam e o sorriso brotava abundante, as arquibancadas estavam cheias de gente pra curtir a escola da Serrinha. Ah, isso é  mais inesquecível que qualquer foto que tenha saído em algum site, revista ou jornal!

Aquele povo vestido com simplicidade, lata de cerveja na mão a gritar Impéééério, os que ficam na "arquibancada do fedor", os que transitam à margem do sambódromo nas barracas e botecos que nos cumprimentam quando saímos da Avenida e perguntam como foi o desfile ou simplesmente dizem que foi maravilhoso. Esse povo que se junta à frente das TVs com recepção péssima de imagens de uma transmissão duvidosa, comentários aleatórios de profissionais que não conhecem o riscado, cortesia dos barraqueiros e condescendência da Casa Grande para a Senzala, é muito, em parte, boa parte do povo que só tem direito a isso mesmo da nossa cultura que é deles, isso e poder assistir aos ensaios técnicos gratuitos porque o desfile há muito tem preços para eles inacessíveis.

NÃO ROUBEM DO POVO O DIREITO DE VER SUAS ESCOLAS! ENSAIO TÉCNICO JÁ!

30 de set de 2017

LEMBRANÇAS LÁ DE CASA

Quando eu era menina me atracava com um livro e só conseguia deixá-lo quando chegava ao final. Alguns livros ainda me tomavam algum tempo após a leitura porque eu ficava parada de olhos no ar lembrando de algumas passagens e com saudades das personagens. Louco, não? Mas era como se aquelas "pessoas" me tivessem feito companhia e sentia alguma tristeza por não poder conhecê-las ou "reencontrá-las". De certa forma era um luto.

Do outro lado da casa minha avó resmungava, arrastava os chinelos, fazia reclamações, xingava. Não entendia como eu tinha a "cachimônia de passar tantas horas sem fazer nada". Sim, ela entendia que a leitura era todo o nada que eu, alma geneticamente preguiçosa fazia.  Minha avó não sabia ler, embora fosse boa nas contas e, jamais errava ou deixava que errassem num troco. Ela queria que minha mãe arrancasse-me o livro das mãos, me desse uma boa bronca, quem sabe uma surra e me obrigasse a fazer aquilo, que na concepção dela, era a minha obrigação.

Minha mãe depois que passou a trabalhar fora, viciou-se em palavras cruzadas e caça-palavras depois, passou a ler aquelas publicações em brochuras que tinham nomes de mulher. Era Karina, Sabrina, Júlia e coisas assim. Eram romances que muitos diziam não ter valor literário algum. Jamais abandonou as revistinhas de palavras cruzadas e ainda trazia pra mim as de nível fácil e uma direcionada às crianças que tinha o nome de "Picolé". Eu procurava  sempre ficar por perto fazendo a minha palavra cruzada enquanto ela fazia a sua. Com o tempo dividíamos as brochuras e trocávamos impressões sobre essas publicações. Mesmo quando eu crescida já sabia da reputação da ausência de valor literário (ora, bolas!)

Acho que minha mãe sempre teve gosto pela leitura mas a vida dura não lhe dava tempo, tempo para ler e tempo para conhecer o que gostaria de ler. Trabalhando fora, tinha na ocasião, pelo menos duas  horas de condução, intervalo na hora do almoço e claro, passava pelas bancas onde pôde conhecer algo pra ler e fazer isso nas folgas.

Meu tio era filho da minha avó, irmão da minha mãe. Ele sempre tinha um livro no bolso traseiro da calça jeans. Trabalhava próximo da nossa casa onde ia almoçar e tirar um cochilo de sesta. Nunca soube se ele se deitava para ler e cochilava ou se cochilava porque se deitava para ler depois da primeira parte  do seu expediente num trabalho cansativo para o qual acordava muito, muito cedo. Ele era gari e naquela época a carrocinha de lixo, de madeira e pesada, trazia a sigla DLU - Departamento de Limpeza Urbana. Mesmo quando as carrocinhas se tornaram mais leves e ele deixou de empurrá-las porque fora promovido a inspetor, ainda quando a sigla da carrocinha mudou para Comlurb, ele continuava indo almoçar lá em casa e fazendo sua sesta sem jamais abandonar seus livrinhos. Eram pequenos almanaques, 1/4 de uma folha A 4 quase sempre com histórias de faroeste.

Minha avó não implicava com a leitura do meu tio, nem com a sua deitadinha para ler. Muito pelo contrário, esquentava-lhe a comida, colocava no prato e ia servi-lo onde ele estivesse - porque ele às vezes lia na poltrona da sala e ali mesmo, livro sobre o rosto para quebrar a luminosidade, roncava um pouco.

Hoje, uma tarde chuvosinha e preguiçosa dei de lembrar isso e pela primeira vez "atinei" que diferentemente do que pensei a vida toda,  não era por não saber ler que minha avó implicava com a minha leitura. Com a leitura da minha mãe, eu sei, ela não implicava porque era ela a provedora da casa. Trabalhava numa escala pesada de 12 x 36, às vezes 24 x 48, longe, muito longe da nossa casa num serviço muito cansativo. Talvez implicasse comigo porque eu era criança e não podia me defender, pois estávamos no tempo "cala a boca".  Talvez repreendesse meu hábito de ler pelos mesmos motivos que pessoas letradas criticam obras  e desprezam a leitura alheia. Talvez ela tentasse me dar a educação que recebeu e nela não estava incluído ler e escrever. Minha avó era do tempo que se aprendeu a andar e falar já tinha que trabalhar. O povo lá de casa vinha das lavouras e criações. Pra comer tinha que plantar e criar porque as opções de comércio eram raras e caras. Os críticos da leitura dos de poucas posses não sabem o que é isso, se soubessem louvariam todo tipo de leitor e não se oporiam à brochuras dos jornaleiros.

Mesmo quando a minha mãe ainda não havia desenvolvido o hábito da leitura, comprava-me revistas em quadrinhos e eu tinha preferência por aquelas publicações com apelidos de meninas. Eram Bolota, Brotoeja, Tininha. Gostava também do Riquinho, Horácio, Turma da Mônica. Menos do Chico Bento. Implicava com o sotaque caipira, achava feio e às vezes não entendia. Achava chato o Chico Bento pela forma de ele falar e não apreendia as mensagens que seu gibi passava.


Acho que a gente tenta pegar o que não entende e aprisionar na rigidez dos limites  da nossa ignorância.