30 de abr de 2017

BELCHIOR - NADA É MAIS CRUEL QUE PERDER AS ESPERANÇAS

Belchior foi o cara que deu nome aos sentimentos da nossa geração. Pôs melodia nos nossos sentimentos. Escreveu com clareza nossos amores, dores, frustrações. "Apenas um rapaz latino-americano. Gritou com verdade nossa realidade.- "Fazia tempo que ele não fazia nada".
Disse um amigo meu num papo num barzinho onde cantávamos MPB das antigas, num protesto íntimo contra a sofrência cachaceira e repetitiva toda animadinha. Respondi com uma pergunta: 
- E precisa?
No tempo dos super-heróis, ele era o nosso herói mais destemido porque tinha medo e o cantava desbragadamente. No meio da torcida não cantou a comemoração do gol do atacante, apenas citou a angústia do goleiro na hora do gol, porque a dele era maior. Para angústia grande um sol num quintal é remédio.
Lembro da minha mãe falando do bigode horrível, alguem que dizia que ele parecia banguelo e eu pré-adolescente o achava lindo, cabelos mais bonitos do que do Tarcísio Meira, mãe...
Com o primeiro salário do primeiro emprego comprei o primeiro LP dele que entrou na minha coleção que passei anos fazendo. Alucinação chegou tarde na minha estante, mas não com menos delírio das amigas colegas de trabalho num supermercado. Seus LPs eram expulsos da vitrola lá de casa, o povo preferia Pedrinho Rodrigues, mas as músicas não saíam da cabeça, compuseram minha vida, sedimentaram minha trajetória. Quando todo mundo cantou medo de avião eu ainda preferia aquelas musicas pelo meio do disco que não tocava no rádio.
- Uma música que não dá pra dançar, alguns me diziam. Aprenda a dançar conforme a musica eu respondia e esquecia, deixava pra lá. "Nem leve flores para a cova do inimigo".
E aí o bigodão se vai aos 70 anos e a gente fica aqui com cara de que? Com cara do que deveria ser, mas não foi.
"Tudo poderia ter mudado, sim,
pelo trabalho que fizemos - tu e eu.
Mas o dinheiro é cruel
e um vento forte levou os amigos
para longe das conversas, dos cafés e dos abrigos,
e nossa esperança de jovens não aconteceu, não, não".
Acho que acabou. Que pena. Nada é mais cruel do que perder as esperanças porque não se tem o que fazer nem como esperar.
Vai na paz Belchior, aquela que parece a gente nunca conseguiu ter.

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