17 de fev de 2012

O Artista (The Artist. 2011)


Não é um filme, é uma viagem. Portanto, prepare-se!
Todos que já fizeram uma viagem algum dia, por mais simples que seja, sabem da necessdidade dos preparativos. Roupas, acessórios, utensílios, bagagem! Dicas, informações, roteiro, pesquisa prévia para que se possa aproveitar ao máximo uma estadia que poderá ser mínima. O prazer não é medido em tempo, mas em qualidade e essência. Assim, ao se decidir por assistir ao filme “O Artista”, prepare-se, pois é uma viagem, onde o trajeto não se dissocia da estadia.
Não sou uma pessoa do ramo, não sou crítica de cinema, não posso ser considerada uma cinéfila, sou uma consumidora habitual de cinema e propagadora das obras que assisto e gosto, posso dizer ainda que, qualquer ida a um cinema já é um prazer por si mesma fazendo com que qualquer ida a uma sala de projeção com filme que consideremos ruim, é melhor que não ir. Conferir com os próprios olhos, exercer a própria opinião, desfrutar dos prazeres adjacentes do passeio.
Surpresa potencializada:
Vivo no Rio de Janeiro, cidade que há 10 dias já respira confete e serpentina, batucadas, animação, excitação, com extensa programação musical onde confusão, ritmo, batucada e barulho dão o tom acelerado dos nossos dias. Vivemos um mundo tecnológico, plugado de imagens, sons e animação. Dados periféricos que podem ter influência neste filme que não se assiste, se degusta! Agregado a isso, não li uma única linha sequer de qualquer resenha sobre o filme, afinal nessas épocas sou uma criatura totalmente submersa no mundo da música. Ver o filme começando, foi como ser içada das profundezas do mundo sonoro e isto a princípio não foi confortável.  Ler no cartaz que o filme tem 10 indicações para o Oscar, emprestou-me uma animação que empalideceu, logo ao fim dos créditos iniciais na tela.

O Cinema:

O primeiro impacto, o rosto extremamente agradável do protagonista, sim ele é lindo! Mesmo caracterizado como astro dos anos 20. Fraque cartola, elegância, bigodinho fininho, cabelo engomadinho tudo impecavelmente asseado, bem passado, lustroso. Depois o contato com a maneira como se assistia filmes nessa época tão remota. Orquestra ao vivo, elenco atrás da cortina e sua aparição para saudar o público. Demorou um pouco pra ficha cair e entender esse cinema de época.

O Filme:
Mostrar o contexto da exibição das obras, foi o gancho que me “içou”, trazendo a minha atenção para o que a telona mostrava, muito mais que as expressões exageradas, onde os gestos precisavam mostrar  aquilo que o cinema não oferecia: voz.
George Valentin (Jean Dujardin) é “o astro”, que leva milhares de fãs ao cinema, para ver filmes onde divide a cena com a sua esposa e o seu cão. Ele, George, é talentoso, bem humorado, vaidoso, autoconfiante, ególatra, orgulhoso, artista numa época em que os astros, se destacavam do restante da humanidade, ah, e tem as sombrancelhas mais expressivas do planeta! Conhece Peppy Miller (Bérénice Bejo), rende-se ao talento da moça e facilita-lhe a oportunidade. Quando o som começa a chegar ao cinema, ele é um dos que não acreditam na novidade.
A forma como o filme apresenta o paradigma de que uma artista de filme mudo não poderia adaptar-se à nova forma do cinema é sensível. A nova tecnologia convence ao próprio artista da sua incapacidade de se adaptar, de que ele faz parte de um passado que nem lembranças lhe deixaria.
A oposição entre novo e velho, a apresentação do artista como um utensílio descartável dessa forma de arte, baseada no comércio, na industrialização. É realmente o início da cultura onde os estúdios ditam aquilo que o público gostará de ver.
Peppy, deslancha, contratada pelo mesmo produtor de George, Al Zimmer (John Goodman). Ela tem a sorte de estar sempre no lugar certo, na hora certa. De ser tão nova quanto à novidade. Chega a ser poética a trajetória da estrela que sobe e do astro que decai. Peppy e George estão na mesma pista, em trajetórias opostas e não colidem, se encontram a a partir do respeito que jovem estrela tem para com o renomado astro. O filme tem personagens pungentes como o motorista, James Cromwell e o incrível cãozinho Uggie. Também tem humor e a decadência de George, nos toca  mas não prenuncia tragédia. George certo do seu talento e da inviabilidade dos filmes com voz, investe  pesado numa produção de contra ataque ao inimigo novo, é abandonado pela mulher  Dóris (Penelope Ann Miller) com ciúme exagerado na mesma medida que as representações da época, é surpreendido pelo Crack da bolsa que deu origem à Depressão de 1929. Mas para não sucumbirmos a esses  tantos dramas temos Uggie, o cão e a diversão da mulher de George em enfeiar suas fotos.
Mas como curtir um filme tão na contra-mão de tudo o que a indústria cinematográfica vem impondo como aquilo que queremos ver? Preparando-se para uma viagem no tempo, onde os sentimentos tem trilha sonora instrumental, poucas legendas e muita emoção, não a emoção dos filmes de ação, mas a ação das emoções. Ambientação perfeita e um andamento mais lento que mostra a perfeição nos cortes.  As cenas são límpidas e há recursos digitais nas cenas com o cãzinho, a tecnologia prestando o seu tributo à origem da arte que mais lhe “dá cartaz”  Tenha em mente que preto-e-branco também sem cores, porque o filme é de um colorido intenso, mas não para os olhos.

Quem é do tempo em que a global Sessão da Tarde valia a pena, vai ter a doce lembrança dos musicais em preto e branco com Fredie Staire sua simpatia, alegria e claro, sapateados. O filme traz muitas referências de priscas eras, e até mesmo de Cidadão Kane (a cena do café da manhã), que desembarcou nas telas muito depois da chegada do cinema falado,  nossa sensibilidade a um tempo que não volta.

Nota: 10,5 ...


   Ao sair do cinema, na minha ignorância de quem ama o que conhece pouco – no caso, cinema, perguntei aos amigos que me acompanhavam se havia um Oscar para os animais que atuam e para quem ainda na leu na notícias sobre o filme o cãozinho Uggie recebeu o prêmio Golden Collar – uma coleira de cristais Swarovski com um pingente em forma de osso. O cão de 10 anos de idade tem uma impressionante carreira no cinema e na TV e irá se aposentar

CURIOSIDADES:
  • CANTANDO NA CHUVA: Talvez seja a referência mais óbvia, com Gene Kelly e Jean Hagen como astros do cinema mudo que precisam se adaptar ao filme falado. Como em "Cantando" (1952), Jean Dujardin e Bérénice abusam do sapateado e os atores ensaiaram no mesmo estúdio usado por Kelly
  • JACK, O CÃOTrês cães se revezaram no papel de Jack, o fiel companheiro de George Valentin. Mas o principal foi Uggie, que já entra para a galeria de adoráveis animais do cinema e deve participar do Oscar. Um cão também era comum em filmes de Charles Chaplin, como "Vida de Cachorro" (1918)
  •  VALENTINO/FAIRBANKS:  George Valentin, personagem de Jean Dujardin, é uma mistura de dois ícones do período mudo: o galã Rodolfo Valentino e astro de filmes de aventura Douglas Fairbanks, especialista em heróis mascarados. Quando, em um dos momentos de depressão, Valentin assiste a seus filmes em casa, um deles é, na verdade, "The Mark of Zorro" (foto), de 1920, com Fairbanks
  • CIDADÃO KANE: A fabulosa sequência do café da manhã de "Cidadão Kane" (1941) também recebe uma homenagem. No filme de Orson Welles, a interação do casal muda de apaixonado para indiferente com o passar das refeições matinais. Em "O Artista" a sequência ganha um ar mais cômico, graças ao cachorro
  • MARY PICKFORD : A mansão de Peppy Miller pertenceu na verdade a Mary Pickford, cofundadora da United Artists, ao lado de Douglas Fairbanks e Charles Chaplin. Mary construiu sua carreira no cinema mudo, mas conquistou um Oscar com "Coquete" (1929), seu primeiro longa sonoro
  • O CASAL
    A trama do filme faz referência à dupla John Gilbert e Greta Garbo, que foram um casal na vida real. Nos tempos do cinema mudo, ele era a estrela. Na transição sonora, Garbo se deu bem, Gilbert, não. Os dois podem ser vistos no mudo "O Diabo e a Carne" (foto), de 1926, e no sonoro "Rainha Christina" (1933), no qual Garbo exigiu a escalação de Gilbert
  • "Além do galã Valentino, o protagonista de Jean Dujardin carrega a comicidade de Charlie Chaplin, o espírito aventureiro de Douglas Fairbanks e o sorriso e sapateado de Gene Kelly. A cena em que Valentin interpreta um espadachim com uma peruca comprida lembra o Dartagnan de Kelly em “Os Três Mosqueteiros”.
  • Bérénice Bejo é esposa de Hazanavicius fora das telas e filha  diretor argentino Miguel Bejo, a argentina vive desde os 3 anos na França.

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