17 de fev de 2014

É Folia Nesse Dia Ninguém Chora







Revista S! | Fevereiro - 2014 | coluna Vida Urbana Rozzi Brasil            

 O Carnaval originou-se na Grécia em agradecimento aos deuses da fertilidade pela produção do solo. No século XI, surge a festa carnavalesca um  “deleite dos prazeres” em contraponto aos 40 dias de jejum e abstinência da Quaresma, prática da Igreja Católica.  “Carnis Valle”, expressão que deu origem à palavra carnaval onde, “carnis”= carne e “valles” = prazeres. Aqui no Brasil, o carnaval teve sua origem no “Entrudo” português  uma brincadeira na qual as pessoas jogavam água, ovos e farinha umas nas outras e que  acontecia antes da quaresma, "tendo o significado de liberdade, sentido que permanece até hoje".
No carnaval as mulheres exibem os seios na avenida sem o constrangimento de a polícia  obrigá-las vestirem suas blusas, como aconteceu no ato na Zona Sul do Rio nesse mês. Homem vestido de mulher é divertido, travesti e transsexual tem espaço para toda a sua exuberância.

No carnaval o gay se torna quase uma referência,  seu lado profissional é exaltado e aclamado e a sociedade consegue  separar sua vida pessoal do seu valor profissional - “Pra tudo se acabar na quarta-feira”, com o respaldo da  pergunta  que já vi muitos fazerem: “Onde ficam todas essas mulheres lindas e peladas o ano inteiro?”

Provavelmente guardadas dentro do armário da hipocrisia, acusadora de dedo em riste durante o restante do ano. Dentro dos punhos fechados com discursos de ódio que beneficiam grandemente aqueles que tem coragem para proferi-los, protegendo sob seu guarda-chuva de ignorância todos os demais que não tem a coragem de assumir seus preconceitos, mas respiram aliviados cada vez que uma lei a favor dos gays é vetada, cada vez que um garoto morto por espancamento tem como registro de causa mortis o suicídio, sentem-se vitoriosos quando a legalização do aborto é impedida, ainda que a sua proibição cause milhares de mortes de mulheres pressionadas e sem escolha enriquecendo donos de clínicas clandestinas. O carnaval é o único período do ano onde se tem escolha.
Não, meus amigos, a vida não é um carnaval, carnaval é quando todos liberam seus anseios e fantasias de modo a extravasar seus desejos sem que isso interfira na vida alheia. Talvez por isso tenhamos o melhor carnaval do mundo.  Pela nossa origem mestiça,  colonial  e a vergonha enrustida de quem só a assume em regime de fantasia. Milhares de índios, negas-malucas, pretos-velhos, blocos fantasiados de garis, ciganos,  e empregadas domésticas....


Temos o maior carnaval do mundo e nele algumas escolhas. Para quem gosta uma delícia! Para quem não gosta, uma tortura!
Temos trânsito desviado e pouca orientação para deleite dos ladrões. Multidões nas ruas e a TV castigando os avessos à folia com incessantes  transmissões dessa festa. Quem não sai da cidade torna-se prisioneiro com poucas opções de lazer e cultura e quem tenta fugir da folia talvez não ganhe em prazer o que perde se estressando nos longos engarrafamentos, ainda assim pode-se escolher adaptar-se e tentar aproveitar ainda que seja fundando um bloco dos “inimigos do carnaval” fazendo uma orgia gastronômica, invadindo a casa com piscina do amigo mais próxima ou quem sabe, colocando a leitura em dia, fazendo o seu festival particular de cinema ou mesmo saindo para um retiro espiritual oferecido pelas instituições religiosas nessa ocasião. As escolhas talvez não sejam tantas quanto durante o ano todo, mas sempre há uma que tenha afinidade com o nosso nível de amor e ódio pela solidão ou multidão.
  Para quem gosta de samba, batucada e folia  o “deleite” implícito na etimologia da palavra “carnaval”, amplia-se  com as escolhas dos sambas que começam por volta do mês de agosto,  os ensaios das escolas nas quadras, nas ruas e  ensaios técnicos no sambódromo, ou seja, a folia começa muito antes da festa!

As personalidades do carnaval surgem como que por encanto, como se saíssem de um sonho para existirem por aqueles breves momentos. Assim, percebi quando muitos dos meus amigos heterossexuais, que só conhecem “Drag Queen” como adereço de carnaval ou personagens de piadas homofóbicas da TV e do teatro,  revelam-me não conhecer o trabalho de Lola Batalhão, nascida Arthur Araújo de Moura Filho que faleceu dia  17 de janeiro aos 58 anos, reconhecida pelos jornais da grande mídia como um dos “ maiores símbolos do Carnaval de rua”. Lola fundou a “Banda da  Carmem Miranda”, era destaque  da Banda de Ipanema e de escolas do grupo Especial, ator e produtor de matérias especializadas em carnaval veiculadas em  várias revistas conhecidas. Ator, diretor, produtor de moda, aderecista, criadora de um troféu que levava seu nome que reconhecia o trabalho de artistas e personalidades da vida noturna carioca.
Por 30 anos Arthur incorporou a personagem que se apresentou na maioria das casas noturnas do Rio e São Paulo, acontece que fora do carnaval “toda será nudez castigada” e por conseqüência,e o talento e liberdade também.
Bom carnaval!
Não importa a fantasia, jamais dispense a camisinha

(Título: verso do samba "bumbum praticumbum prugurundum - de Aluisio Machado e Beto Sem Braço)

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