25 de fev de 2010

Uma Cama de Amor


  Dalva e Herivélto – Uma Canção de Amor, minissérie recente fez muita gente voltar cedo pra casa para ver TV, coisa que não vejo há muito tempo. A missérie agradando ou não despertou interesse, não se restringiu ao contexto histórico, mostrou um casal de ídolos que eram antes de tudo pessoas simples e muito complexas como qualquer mortal, com talento que poucos mortais possuem. Com a educação maniqueísta que a TV nos oferece na sua programação, ficou difícil não tomar partido... No entanto se analisarmos bem, o programa foi uma aula de educação sentimental, inteligência emocional e de como a mídia já em seus primórdios começava a desenvolver a arte de transformar pessoas em ídolos e ídolos em notícias escandalosas.
Todos possuímos dons, mas alguns dons são garantia certa de sucesso se temperados com uma pitada de sorte, muita insistência, alguma disciplina. Dalva é aclamada até hoje como uma das maiores cantoras do Brasil, mas isso não bastava, ela precisava de um bom empresário e um bom compositor. Herivélton era um excelente compositor, além de empreendedor articulado. Criativo, mudou a forma de se fazer e tocar samba no país do samba. Eles se encontraram e onde os contos de fadas acabam, minhas reflexões começam...
Há amor onde não há admiração? Uma vez em estado de amor ou paixão nossa primeira providência é idealizar e isso tira aquela pessoa da lista de seres comuns. Não, nenhum ser amado é um ser comum!
Amor demais é prejudicial à relação amorosa. Aquele amor que se abate sobre nós deixando-nos feito barata tonta, nos levando a viver não só a nossa vida mas também a do ser que amamos... Esse amor caudaloso que nos faz decidir pensando no que agradaria à outra pessoa. Que nos faz abrir mão de tantas coisas que para nós ficam sem importância sem a aprovação do outro. Ah, sim... Quem ama quer ser reconhecido e aprovado. E uma vez investidos desse amor, não aceitamos a rejeição nem a recusa!
O homem ama diferente da mulher, sim, quase sempre! A mulher na sua ânsia de amar prioriza e sente-se amada na proporção que é priorizada também. Para o homem a opção já é um grande sinal de amor, pois ele não coloca para si como opção, aquilo que não lhe interessa nem atrai.  Questão de subjetividade, objetividade e otimização do tempo. Herança das cavernas, quando o homem ia à caça e a mulher ficava com os afazeres da casa. Em contraponto, o amor físico é tão importante para a mulher quanto o é para o homem, diferenciando-se aí que para um a qualidade depende de afeto e/ou romance;  para outro a qualidade depende do funcionamento e/ou disponibilidade e facilidade do objeto...
Em algumas cenas, Dalva não estava feliz. Parecia que ele não a amava como antes, mas quando caíam na cama depois de uma intensa e calorosa briga nada disso importava. Sou obrigada a concluir que se a cama é boa, a paciência aumenta e o amor se reinventa. Se a cama existe, insiste e alimenta, a recuperação de um coração ferido por um amor oscilante é viável!

Herivélto parece desistir de Dalva quando ela começa a beber e ela bebe por ver-se sem recursos para tê-lo só para si e  sem coragem para procurar outros. E aquela cama que era como a música, unindo suas almas, exigia exclusividade de ambas as partes. Dalva não suportava ver-se traída e quando ele provou do veneno de sabê-la com outro, ainda que afirmasse que não a queria, expôs sua mágoa e dor nos jornais e revistas. Machista? Sim, mas os homens se imaginam justos ao dividirem-se para os amores que querem sempre inteiros. Mulheres dão tudo o que têm e aguardam a volta de tudo também. A traição para o homem é o seu trapézio: vôo e aventura, sua porção super-herói, com riscos supostamente calculados. A traição para as mulheres também é um trapézio, mas é na rede de proteção que reside a sua coragem. Está implícito na natureza feminina, longas quedas de pequenos vôos. Aos olhos de uma mulher, voar de corda em corda pode ser muito menos interessante do que se estatelar e sentir-se feliz quando amparada pelas redes de proteção! Deve ser daí a origem do mito que “homens héteros são galinhas”, “homens gays são promíscuos”; “mulheres héteros buscam amarrar os homens”, “mulheres gays se apaixonam por qualquer uma e casam-se no terceiro encontro”...Voltando aos trapézios, lembro de circo, um universo mágico colorido de fantasia que nos remete ao carnaval, o universo da nossa Estrela Dalva de história de amor complicada, que diluía suas tristezas na identificação com os seus fãs e no amor à sua música que até hoje embala nossos carnavais.
Levante a mão quem nunca ouviu: “Bandeira branca, amor. Não posso mais/ Pela saudade que me invade eu peço paz!”

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