11 de mar de 2014

ADMINISTRAÇÃO que NÃO AMA O CIDADÃO


Na noite do dia 10 de fevereiro de 2014, quase madrugada, recebi um telefonema da minha irmã mais nova. Só podia ser merda e das grandes e era. Ela avisava que minha mãe biológica estava internada na UPA da Taquara (Jacarepaguá).Chegou inconsciente após ter sido encontrada por vizinhos desmaiada em casa, na cama.

Os médicos da UPA diziam não saber e nem ter como saber o que ela tinha. Parecia ser AVC, mas poderia ser meningite. Diziam apresentava uma infecção grave, mas não não tinham como saber onde se localizava  foco infeccioso. Diziam que ela precisava de uma UTI, para fazer exames, descobrir isso tudo e ter tratamento adequado. Diziam que buscavam uma vaga num hospital com UTI e diziam também que vaga não havia.
No dia seguinte, fiz esta postagem no facebook: (e aqui galera do facebook, se achar melhor,  pode pular e ler direto no negrito abaixo)
Os médicos da UPA diziam não saber e nem ter como saber o que ela tinha. Parecia ser AVC, mas poderia ser meningite. Diziam apresentava uma infecção grave, mas não não tinham como saber onde se localizava  foco infeccioso. Diziam que ela precisava de uma UTI, para fazer exames, descobrir isso tudo e ter tratamento adequado. Diziam que buscavam uma vaga num hospital com UTI e diziam também que vaga não havia. No dia seguinte, fiz esta postagem no facebook: (e aqui galera do facebook, se achar melhor,  pode pular e ler direto no negrito abaixo)

Esse é o mundo dos "nãos".
Esse texto provavelmente não irá comover ninguém, nem causar a organização de uma manifestação. Mas deveria. Imagino que ela seja um caso num universo de milhares de pessoas na mesma situação.

Esse texto não vai comover sequer a vizinhança. Ela tem 73 anos, só hoje eu soube. Não está nas redes sociais, teve uma vida para enriquecer, mas não ficou rica. Não é influente. É apenas "gente boa", foi morar com um negão aos 19 anos de idade e perdeu sua credibilidade social.

Teve 4 filhos, obviamente mulatos, chamados até hoje de morenos. Por sua condição de não ter casado no civil e religioso como era exigido das mulheres na sua época de juventude, perdeu espaço. Por ter se "amigado" com um negro numa época que romances interraciais eram raros e praticamente proibidos, ela perdeu o emprego, consequencias de um "delito" numa época que a repressão e o preconceito eram menos hipócritas e mostravam a cara, não por isso sendo menos duros e mais justos.

Ela não me criou. Doente, prematura, subdesenvolvida que eu era aos nove meses de idade, ela precisou me "dar de papel passado" para uma família respeitável, estável que pudesse fazer isso. Felizmente eles fizeram. E minha mãe biológica tornou-se a mãe dos meus irmãos, aquela que em visitava de vez em quando.

Falei com ela pela última vez no domingo e no domingo anterior a esse, num intervalo de trabalho, falei também e a coloquei para conversar no meu celular com a minha irmã de criação. Imagino que tenham estourado todos os bônus do meu celular, mas estava tão lindo vê-las conversando que afinal pra que serve o dinheiro se não for para nos dar alegria e conforto, principalmente para quem tem tão pouco?

Marcamos de nos ver domingo próximo. Mas parece que a visita será antecipada. Quando nos encontrávamos ríamos bastante, mas ela está inconsciente, entubada, com uma infecção não se sabe onde, com um diagnóstico que os médicos da UPA não tem condições de fazer.

Não haverá manifestação por isso, aquilo tudo foi por mais de R$0,20 e hoje temos 2 mortos, alguns presos muita confusão e um aumento de R$0,25 nas passagens de coletivos indecentes, que param quando querem, nos servem quando bem entendem. Nada a ver com a saúde de uma mulher brasileira que por conta de racismo, sexismo, preconceito não conseguiu concluir sua história de amor. Minha mãe poderia ser qualquer uma, mas foi essa que me deu à luz e viu suas oportunidades serem podadas por um mundo que interfere na vida das pessoas e não lhes dá a menor condição de viver com decência.

Esse é o texto dos "nãos" e o único sim que gostaria de ter é a remota possibilidade de ajuda, para que ela pelo menos em um fato da sua vida tenha compreensão e algum direito a alguma dignidade sem mais uma vez ter de abrir mão daquilo que todo ser humano deveria ter: direito de viver o que acredita, amar aquele que ama e ponto.


Não, ela não tem plano de saúde - esse é o mundo dos "nãos" e quem puder me ajudar a ajudá-la que me diga um sim, in box , por mais remoto que possa ser, por favor. Obrigada.
Tentamos  encontrar essa vaga através de amigos e tudo o que ouvíamos era "não".
Amigos pelas redes sociais, informavam que o melhor seria ira para o "Plantão judiciário", conseguir uma liminar que obrigasse o Estado a encontrar rapidamente uma vaga para sua internação.
Fomos, conseguimos e faltando uns poucos minutos para o prazo estipulado na liminar se esgotar, a vaga surgiu no Hospital da Lagoa, onde obtivemos para ela, finalmente, um ratamento digno, com médicos competentes, comprometidos informando o seu quadro, dando notícias sobre os procedimentos que estavam sendo feitos e avisando da sua gravidade e da dificuldade de reversão aumentada muita coisa devido a demora no atendimento adequado. No entanto, já era tarde, a vida disse não.
Portanto se algum dia você se encontrar nessa situação, não hesite um minuto que seja, vá ao Plantão Judicário - nós fomos lá no Fórum, na Praça XV, tivemos acolhimento perfeito, informações precisas, atendimento rápido na medida do possível pois que é imensa a fila dos que lá se vão pelo mesmo motivo.
Na UPA, há assistentes sociais dia e noite, no entanto nenhuma delas nos informou sobre a necessidade da liminar o que significa que para a grande maioria dos familiares de doentes que ali dão entrada, a vida se torna um jogo de sorte ou azar. A saúde pública carioca é hoje uma espécie de "peneira", de programa de calouros onde os mais preparados e experientes  obtem uma ligeira vantagem correndo imediatamente para o setor jurídico a fim de conseguir aquilo que conforme a Constituição do nosso país é obrigatoriedade do Estado.
Não será surpresa para ninguém eu dizer que a grande massa da nossa população padece de um sentimento de subserviência seja pelas autoridades aparentes ou verdadeiras, seja pelo status social que as pessoas  em geral possam apresentar, acatando ordens absurdas, acreditando em possibilidades ou impossibilidades mentirosas. "O doutor disse", "o doutor falou", "o doutor mandou". Muita gente boa da nossa cidade acredita que por estarem os funcionários num cargo público, falarão sempre a verdade e estarão sempre trabalhando dentro das suas funções orientando da melhor forma. Falar de juízo, justiça,liminares para uma população dessas principalmente num momento como esse é meio que oferecer aos responsáveis pelo doente mais um desafio a vencer. Eles recearão estarem desafiando uma estrutura poderosa e com isso piorar o atendimento. Sem contar que, pessoas mais humildes, trabalhadoras operacionais tem uma relação séria com transporte- acesso-ao-trabalho-relógio-de-ponto-descontos-e-demissões. não passa pela cabeça de muita gente que num momento dramático onde a vida ainda poderá ser preservada, lidar com aspectos de justiça, uma brecha ou oportunidade  que o Estado oferece e que vem sendo utilizada como um desafio quase esportivo por uma administração estatal canalha, sem comprometimento com o povo.  
Assim como nas manifestações muitos críticos comentavam a "ausência do povo" nas ruas, dizendo que essas manifestações eram engrossadas por "mauricinhos de classe média", como se esse segmento da população não fosse povo, não fosse brasileiro e a sua condição econômica melhorada lhes privasse do direito de reivindicar nas ruas...
Essas são as novas ferramentas "senzalescas" dos néo-capatazes mantenedores de uma escravidão baseada no preconceito, na indiferença humana na total desobrigação de cumprir suas promessas de campanha da  arrogância e prepotência por se julgarem seres superiores por terem às mãos instrumentos de manipulação ou contas bancárias mais polpudas sabe-se lá como.
A principal doença da nossa sociedade é essa subserviência remanescente do colonialismo, esse abaixar de cabeça - que acompanha os humildes desde o tempo da escravidão, para esses podres do podre poder com a agravante do pensamento da possibilidade unir-se e participar, ainda que trabalhando, para esses "donos de engenho"  investindo na máxima que o dinheiro não tem endereço e não é da responsabilidade do trabalhador preocupar-se com a sua origem.
Temos de um lado os cegos pelas escamas da ignorância que lhes cobrem os olhos. Temos de outro lado os cegos que não querem ver. Todos lutando a seu modo pela vida ou sobrevivência regida pelo pensamento geral da individualidade. Nenhum problema é capaz de nos afligir ou indignar além dos comentários enquanto efetivamente nos atinja verdadeiramente.
Se tem solução, claro que sim, romper esse ciclo torto de deseducação geradora de preconceito, essa ignorância e sua pílula dourada pelo sol, curtida pela hipocrisia de que somos miscigenados e preconceitos por aqui não há.
Estamos vivendo um processo obscuro antinatural e a saúde pública parece ter virado um instrumento de eugenia social, não por valorizar a supremacia biológica do público a ser atendido mas por estar galvanizada ao sofrimento daqueles que só são interessantes no momento de apertar o botão da urna eletrônica.


Para quem não está ligado no termo "eugenia" abaixo alguns exemplos dessa forma de pensar, pessoas cultas, estudadas com pensamentos favoráveis à eliminar do planeta tudo aquilo que não seja perfeito segundo os seus critérios, usando para isso o exemplo da natureza...

Analise e perceba se a forma como a população de baixa renda é tratada, sem escolas decentes, hospitais dignos, oportunidades de "virarem o jogo não é um processo "seletivo" visando no mínimo esmigalhar aqueles em vulnerabilidade social.

O patrulhamento que investe contra os projetos de leis que visam punir/ inibir a violência contra as minorias, os justiceiros que punem por conta própria.

Os funcionários das delegacias quando se negam a registrar o B.O. de furtos por considerarem os mesmos de pequena monta. Que ridicularizam, minimizam, mascaram, as ocorrências contra os homossexuais. Tudo isso é uma boa ajuda aqueles hipócritas com o seu preconceito encubado muitas vezes diluído em frases clichês do tipo "tenho amigo gay", "tenho amigo negro" e oferecem florzinhas no Dia da Mulher, da secretária, mães mas não dispensam uma piadinha machista e antes de xingar o desafeto é mãe que vai na frente etc...

Aqueles políticos simpáticos que investem milhões em obras para agradar ao público e investem numa política de investimento de higienização onde basta expulsar "os baixa-renda para uma periferia distante, longe dos olhos dos turistas,  aqueles projetos bonitos e bem bolados captadores da simpatia popular que após as eleições ficam abandonados à própria sorte como por exemplos a UPA para atendimento emergencial e que se tornou uma ante-sala da morte sem dignidade porque hospitais quando equipados não tem vaga, não tem contingente...

Enfim, temos uma cidade maravilhosa repleta de belezas naturais, falta ter um pensamento condigno ao que a natureza nos presenteou.

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