24 de set de 2016

AQUARIUS - FILME: O OUTRO NUNCA TEM RAZÃO


Acho que quase todo mundo já viu “Aquarius” (Kleber Mendonça Filho). Eu esperei porque não queria tanto ruído político, influenciando a minha percepção. Optei por tentar ver o que os meus olhos enxergariam e o que vi? Que se pode ser qualquer coisa desde que não sejamos exemplo do que somos. Aquele mosquito que assobia na orelha de quem planejou dormir e descansar.

Tivemos revolução sexual? Sim, tivemos, mas como foi incompleta! Se ela trouxe  à mulher o direito aos novos comportamentos, não permitiu a naturalidade  para exercitá-los.  A família vê as suas senhorinhas, tias tias mães, como seres assexuados e mais sobre isso não se fala. Só Tia Lucia  não deixa passar a omissão da revolução sexual dos anos 60, 70 no texto lido pelas crianças, mesmo estando nos anos 80, não se colocava na lista de feitos de vida de uma mulher o seu grande amor casado com outra, afinal tem crianças Amar um homem casado, não é um grande feito  e aquele aparador  rústico, cheio de histórias pra contar segue mudo pelo tempo. Poder pode, mas que fique no armário e como Tia Lúcia soube usar o tal armário!.

 Aquarius dá uma lavada na alma das mulheres maduras ou amadurecidas, mostra alguns (ou muitos) tipos de câncer que se tem de superar se não quiser ter uma etiqueta com um preço, bem ali o lugar do coração e dignidade e também o quanto está em desvantagem perante o mundo quem faz escolhas em desacordo com o poder:

 * A hesitação da mulher madura para utilizar um amante profissional -  um reflexo da cobrança da aura de santidade que a sociedade ainda espera que as mulheres apresentem.    
* Difícil exercer a sexualidade plenamente depois que o tempo passa e se há facilidade para conquistar uma mulher,
 há uma dificuldade para lidar com ela;

* A filha pentelha, onde a mulher é a maior crítica da mulher;

* A força da opinião de grupo que restringe a liberdade de escolha e descamba para as ameaças, dizendo com clareza
 que nem sempre a maioria significa democracia, que guiada pelos interesses pode ser muito autoritária;

* A expectativa de que sejamos sempre e integralmente aquilo que não descartamos por corresponder a uma parte – as jovens jornalistas não teriam como entender uma garrafa no mar sem a experiência de naufrágio, do mesmo modo que é difícil para a geração digital, amealhar as sentimentalidades que a parte material dos discos agrega às músicas.




Talvez eu esteja encontrando sutilezas demais,  no entanto nem acho tão sutis assim, apenas listei o  que não li em outros comentários.

Clara (Sonia Braga) é uma aposentada querendo curtir seus discos e livros no local onde construiu e viveu com eles sua história e isso não pode, porque aqueles que não tem tantas histórias, decidem por novas paredes. É complicado não encontrar conforto em nós mesmos, mais ainda quando todo o coletivo está a serviço das suas próprias individualidades. Se me perguntassem na saída do cinema sobre o quê é esse filme, creio que eu diria ser sobre o egoísmo em conjunto ou em separado, sobre o mundo nada ideal onde não há perguntas ou diálogo, apenas a necessidade de que se cumpra aquilo que vai favorecer ao jogador do lance imediato.

É interessante como a maioria ao seu redor é de homens. Não à toa o filme acaba com “pau sobre a mesa”. Pau ruído, mas dando trabalho.

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