24 de mar de 2009

PRO MUNDO NÃO CAIR


Dizia Nelson Rodrigues que a convivência dilacera o conviver. Ele falava isso como se a convivência fosse um cão que cava os dias, rói as noites, uiva à tarde, enrola os tapetes, faz xixi na nossa alegria. Hoje é cult gostar de Nélson Rodrigues, mas também é chique dizer que não se gosta dele e, por se tratar de gosto, todos tem razão e a polêmica alimenta uma rodada de chope. Pai do Céu! Como deve ser chique tomar um chope discutindo o Mau Velhinho! Eu ainda não encontrei essa turma tão seleta... Meus amigos discutem sobre ‘Caminho das Índias’ e Big Brother Brasil e devo confessar que isso me agrada, se não os comentários, a companhia desses amigos. Falando sobre TV e amenidades eu esqueço meu inferno astral, este badalado ano de Oxossi, que continua Caçador de uma Flecha Só que até agora não viu nada ainda para atirar.


Então falemos das celebridades, suas roupas, suas rugas e cabelos! Seus romances aos montes e o jeito que tantos têm de parecer que não sabem gastar o tanto dinheiro que ganham com nossa curiosidade, com nossa admiração e até com o nosso desprezo! Foi assim com Maysa, uma mulher que não teve medo de ser o que era e que não temeu parecer quem era. Quando estava insegura, ia em frente e chutava todos os baldes que encontrava pelo caminho. Eu acredito que em cada decisão, ela imaginava estar acertando e pessoas assim, acertam mesmo quando erram. A aprovação popular independe da correção dos nossos atos. No final de tudo, somos lembranças que vivem na cabeça das pessoas que nos amaram, admiraram ou não... Duvida? 

Quantas vezes fizemos alguma coisa, muito mais pela expectativa dos outros do que por nosso próprio querer? 
Quantas vezes agimos por conta do incentivo alheio? 
Deve ser duro ser famoso e ver aumentado infinitamente o número de expectadores e juízes dos nossos atos... Acho que isso é tão desconfortável quanto sonhar com um tênis e subir num salto alto... 


É fato que admiramos aqueles que põem a cara para bater, mas esta nossa admiração não os isenta de críticas. Às vezes parece que vivemos numa janela onde só vemos a vida do outro e vivemos a nossa como se fossemos perfeitos. Deve ser por isso que os reality-shows fazem tanto sucesso. Deve ser por isso que colocamo-nos diante da TV para avaliar um mundo que quando se torna muito parecido com a realidade, tem crises com o Ibope. Hoje a bem falada ética e a mal falada esperteza, estão ali tecnicamente empatadas, consumindo algumas centenas dos nossos neurônios na hora de uma decisão ou opinião. Mais do que tomar a decisão certa, hoje precisamos saber como tomá-la. Quanto mais os fins justificarem os meios, mais complicado o mundo a se viver...



O mundo anda assim, duas pontas de uma única corda e no meio nenhuma sanidade. A gente anda julgando o que não nos compete, pela mais absoluta incapacidade de avaliar com olhos da verdade nossa própria vida. ‘Eram os deuses astronautas’? Ronaldo afinal saiu ou não com o travesti? Maysa foi ou não uma boa mãe? São questões de quem se esquiva de pensar que a parte que nos cabe é que de deuses nada sabemos, que Ronaldo é ou foi e poderá voltar a ser um jogador excepcional e Maysa é uma tremenda cantora, uma mulher que viveu à frente do seu tempo, com dores daquele tempo que permanecem em nós até hoje, sem que percebamos que, tendo realizado o sonho do casamento de conto de fadas, ela não desistiu de alcançar novos sonhos e não satisfeita de realizar cada um dos seus sonhos ela ainda almejava ser feliz. Maysa queria tudo e o muito não lhe era o suficiente. 

Em que ela difere daqueles, que querem se divertir/ser levado a sério/ter um grande amor/uma carreira bem sucedida/ser gay/ter filhos/ir à praia/passar num concurso público? Ela não é diferente de nenhum de nós na sua sede infinita e ânsia de viver, a diferença se nota no momento das ações. Mãe ruim ou não, ela deu um pai com pedigree para seu filho, de quebra proporcionou a ele uma educação que lhe permitiu ter o emprego que tem e fazer o sucesso que faz, ainda que seu julgamento não beneficie a verdadeira patrocinadora de tudo isso. Portanto, pensemos duas vezes antes de criticar ou defender. Entre se jogar e ficar. Afinal, isso não vai fazer muita diferença para o mundo, mas muda sua configuração nele.

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