24 de mai de 2009

Nem Homem, Nem Mulher: - Apenas Gente.


No bairro de Botafogo existe um conjunto de salas de cinema que tem um foyer agradabilíssimo, com uma livraria, uma cafeteria com um balcão onde são servidos lanches rápidos, além da indispensável pipoca. A frequência é muito eclética, em todos os sentidos, e conseguimos ver sem esforço os mais recentes lançamentos cinematográficos. Um espaço indispensável na agenda de quem curte cinema, aprecia elegância e dispensa o barulho e o tumulto dos shoppings. Não chega a ser cult como o Odeon (nenhum lugar seria, sem as famosas badaladas), nem mata a saudade do Palácio, por ser moderno e ter uma aura vip. Na cafeteria o tratamento é de primeira, garçons de camisas pretas atendem com paciência e calma colocando em risco a hora da sessão... Assim, às vezes, é preferível ir até o caixa e pagar a conta para se ir rapidinho para sala de projeção. E daí?

Um dia percebi que uma das atendentes/caixa é travesti! Ora, tantas vezes fui lá e não tinha percebido! Não necessariamente por tratar-se de uma figura 100% idêntica a de uma mulher. Qualquer cego perceberia que se trata de um travesti. O fato é que ela é tão inserida em todo o contexto do ambiente, que chama atenção pelo seu bom atendimento e cordialidade e não por sua sexualidade evidente. Isso foi uma surpresa agradável! Até então o comum era travestis estarem restritos às áreas de shows e adjacências, e também prostituição, numa espécie de “gueto profissional”.

Hoje, domingo, 19/04 , o jornal O Globo, logo abaixo da coluna do Elio Gaspari, traz a matéria “Doutorada em preconceito”, onde Luma de Andrade que é João Filho Nogueira de Andrade, cearense, filha e neta de analfabetos em poucas linhas, dá uma pequena aula de como conseguiu vencer preconceitos. Ela conta, entre outras coisitas, que foi a 1ª colocada num concurso e o diretor recusou-se a empossá-la. Que quando menina, já com aparência feminina, apanhou de colegas por estar brincando com garotas e ao ir chorando até a professora, ouviu a pérola: “Bem feito, quem manda ser assim?” Mais: Um diretor de escola numa cidade do interior do Ceará, “ouvia suas aulas atrás da porta, por receio da sua influência”. Luma acaba de ingressar no doutorado da Universidade Federal do Ceará e sua tese é sobre a exclusão de homossexuais nas escolas. Recusou propostas para fazer programas sexuais em Fortaleza: “Tento mostrar às pessoas que existe outra forma de vencer”. Sim, tenta e está conseguindo, tanto ela quanto à nossa amiga da cafeteria. Claro que estamos muito longe do ideal de igualdade, mas já é uma mostra de que, tanto quanto as passeatas e grupos organizados, é o nosso próprio comportamento que pode mudar todo um pensamento de uma cultura.

Não é fácil para ninguém, mas aceitar as migalhas, optando pelo caminho que pode parecer o mais fácil somente por ser o permitido, restringindo-se às áreas de sombras, só faz aumentar a empáfia daqueles que se dizem donos da razão, que condenam publicamente, mas permitem-se fazer uso em segredo dos corpos que massacram em público. Uma prática que nós brasileiros já vimos acontecer desde sempre, quando o senhor de engenho tinha dezenas de filhos bastardos com suas escravas e gastava fortunas em bordéis com prostitutas “importadas” da Europa ou não, tirando dessas pessoas sua característica de seres humanos, impondo-lhes o status de objetos descartáveis que, uma vez fora do armário, só teriam como destino o lixo e a sarjeta. Tudo mais que eu poderia falar sobre essas duas pessoas guerreiras, cada uma à sua maneira, posso resumir numa frase da minissérie “Queridos Amigos”, quando duas crianças perguntam para um travesti:
“Você é homem ou mulher?” e ela responde: “Eu? Eu sou gente.”

Penso que num mundo onde tudo compete com todos, repleto de violências, corrupções, abusos e absurdos, essa seja a nossa melhor opção, seja lá o que for, nosso DNA é humano. Somos gente. Optemos por isso!

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