9 de abr de 2011

O Berço de ouro

 ENTÃO QUE ÀS VEZES UM BOM DESPREZO, RESOLVE MAIS QUE QUALQUER BRIGA.
Vi isso no filme A rede Social
Aliás, neste filme pareceu que eu reencontrava pessoas que já passaram pela minha vida. Uma ou outra até permanecem, por uma questão de tempo, pessoas assim eu tiro de cartaz logo que possível, no geral nem dou a elas o prazer de uma exibição.

Eu conheci certa vez uma pessoa que queria de qualquer maneira entrar para uma irmandade dessas ditas secretas, que outrora detinham grande prestígio ainda que envoltas em clima de mistério, e maldições. Ele tanto fez que conseguiu, imagino que tenha "pelado saco", "babado ovo", coisas assim com significados tão horríveis quanto péssimo nos soam esses termos. Percebi que embora demonstrasse orgulho por ter conseguido, ela (a pessoa) tinha uma certa amargura... Por não ter chegado ali por vias naturais em razão de sua "linhagem" provocavam ligeiras diferenças de tratamento...

Eu conheci certa vez um cara que entrou numa empresa num cargo digamos, subalterno. Ele queria tanto crescer, subir na vida que conseguiu. Quando o conheci ele já era uma pessoa importante na corporação. Eu achava seus ternos esquisitos, não entendia bem porque... Até que um dia os vi (ele e o terno) diante de vários outros ternos que vestiam aqueles nos quais ele se espelhou para "subir na vida". Aí eu entendi (qual era a esquisitice do terno):
Era a maneira como ele portava a vestimenta. 
Era a própria vestimenta. 

O terno não tinha o corte impecável dos outros. Uma pessoa sensível conseguia perceber que o caimento não era tão perfeito pela própria natureza do tecido. O terno era uma cópia. Embora ele fosse um vencedor e sentasse numa grande cadeira e utilizasse uma imensa mesa com placa metálica polida diariamente  de diretor, ele parecia uma cópia...

O fato de ele não ter histórias de aventuras e venturas similares às dos seus amigos líderes corporativos, davam-lhe o sentimento de ser uma cópia.

O fato de ele não ter histórias similares para contar, davam aos seus amigos líderes da corporação, sempre o prazer de contar como ele era um vencedor, esforçado, por ter entrado como entrou e por estar onde estava...

Ele contava com orgulho, para os do baixo escalão,  sua trajetória de vencedor, orgulho que não tinha diante dos seus colegas de trabalho do altíssimo escalão...

Havia sempre uma sombra, uma nódoa, uma certa amargura nos seus discursos. A vitória não lhe trouxera o que ele no fundo mais queria, ter origens segundo o seu julgamento, nobres. A vitória não proporcionou a ele, sentir-se olhado pelos "grandes" como um igual. Eu via no fundo dos seus olhos que ele se ressentia, por não conseguir deixar de se sentir, uma cópia.

Economizou durante uma vida inteira e não conseguia perceber que agora podia investir na sua imagem ou no seu prazer. Economizou a vida sem perceber que ela se gasta por si só. A vida pode não ser um bem durável e talvez quem viva para vencer não tenha tempo para essas filosofias. Achava que um terno era apenas uma roupa e que um cabelo bem cortado seria apenas uma cabelo cortado, de comprimento curto daquele que se consegue em qualquer barbearia.

Ele mudou de padrão de vida, mas sua alma não mudou de padrão.

O presidente da empresa que o ajudou a subir tantos degraus, não perdia a oportunidade de dizer o quanto o ajudou e isso, para mim demonstrava que para este presidente,  somente a sua ajuda o teria  proporcionado chegar lá...

Ele tinha trabalhado tanto para vencer na vida, que assim continuava. Tirava férias curtas e achava que ir para  as Bahamas era uma bobagem dispendiosa, afinal o Brasil tem muitas praias...

Às vezes eu tinha pena, muito poucas vezes e muito pouca piedade... Acho que em algum momento ele percebeu, que mesmo eu sem origem abastada ou nobre, tinha por ele algum desprezo, que foi se aprofundando. Que foi se alargando. Até não ter espaço para mais nada.

Um dia fizemos um belíssimo trabalho de repercussão local. A nata de um segmento respeitado e muitas celebridades lá estavam. Ele também.

Ele e aquele terno.

Ambos (ele e o terno) acompanhados daquele cabelo de um certo barbeiro, certamente o melhor cliente de uma fábrica de cuias... Estavam lá. Ele estava lá. Seria melhor que ele tivesse sucumbido ao seu próprio julgamento e naquele ter decidido levar a família ao cinema com direito a Combo, Mentos, chocolate e milkshake. Mentir para si mesmo de que aquele evento não lhe despertava o menor interesse, repetir para si mesmo o refrão do cazuza, " aburguesia fede". Enviaria um telegrama, quem sabe um buquê de flores e porque não ambos acompanhados de um cheque ou vale postal como contribuição filantrópica. Poderia ter sido assim e tantos não teriam visto aquele terno que  vestia aqueles olhos embaçados de mágoa na expectativa de um reconhecimento em forma de um tratamento exatamente igual.

Nesse dia, não tive pena, o desprezo tornou-se oceano, uma água fria na qual não aprecio nadar.

Eu amo ver o mar. 

Eu temo entrar no mar. 
Eu amo o som das ondas 
Eu tenho medo de encarar ondas.

Fui cumprimentada. 
Outros o foram. 

Ele ganhou uma peça de reconhecimento, oferecida por nós funcionários na ânsia de polir o seu ego e manter nossa paz no emprego. A peça entregue por uma celebridade, uma placa linda de design exclusivo, gosto apurado e valor duvidoso, posto que a verba liberada por ele não acompanhava o espírito da ação.

Mas ele sabia... Talvez imaginasse que a homenagem era uma fraude, uma artifício de funcionários nascidos para trilhar o caminho do marketing...

Quem viu o terno, também soube.

Se ele ao menos pudesse contar uma história sobre o dia em que a sua babá poliu o seu berço de ouro...

2 comentários:

  1. vejo isso no meu trabalho,Conheço gente assim (cópia) faz tudo pra chegar ao topo e qd chega se ve na porta de saída, qq deslize agora é pé na bunda certeiro, ele (copia) se colocou assim e o patrao tá prontinho pra dar o empurrão, se ele não cair é pq é muito baba mesmo. não sei qual o pior , ...

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  2. Curiosa... O homem-cópia continua ou caiu?

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