9 de jan de 2012

Fique de Olho e Vá ao Cinema



Entre os dias 06 e 18 de outubro tivemos 12 dias de festa para os  cinéfilos e apreciadores de cinema. O festival do Rio apresentou mais de 350 filmes de todos os tipos, para todo os gostos. Iniciou com o longa “A pele que habito (Almodóvar) e encerrou com   “Raul”, documentário de Walter Carvalho e  cerimônia de premiação com entrega do Troféu Redentor nas diversas categorias .

Várias personalidades , incluindo atores visitam a cidade o que aumenta o burburinho em torno do evento. E quem gosta de filme nacional deve ficar ligado na  Première Brasil que  funciona como vitrine do cinema brasileiro ao público e ao mercado internacional, oferecendo uma mostra competitiva para ficção e outra para documentários, de curta e longa metragem, apresentando ainda alguns títulos em sessões especiais hors concours. Esse ano, a mostra competitiva teve  9 filmes de ficção e 9 documentários.

Isso é o que todo mundo fica sabendo de um jeito ou de outro, mas, que muito me impressiona neste festival é a paixão! Paixão dos que investem em cinema, dos que vivem de cinema, dos que participam da instituição cinema, sobretudo dos que assistem cinema. Vejo Pessoas comprando cards  para muitos filmes e passam dias a correr atrás das exibições.  O barato de ver um filme que todo mundo só poderá ver alguns dias, meses, semanas depois! A aventura de conseguir uma poltrona, o prazer de falar  e discutir aquilo  que alguns sabem, o orgulho de ser antenado, confere a esse público uma certa  aura de celebridade, diante dos mortais que se conformam com a TV/DVD... Como paixão, não se explica alguns ficam sem entender porque tanta correria, eu mesma diante da dificuldade declinei o Almodóvar, que verei como sempre qundo ele se mostrar para os mortais cariocas... Preferi tentar ver aquilo que não será mostrado pelo menos em tempo suficiente  para a minha rotina. 

Mas houve um tempo em que eu não transitava tanto pelo mundo – eu morava longe e tinha aquela postura do “tenho mais o que fazer”. Surpreso? Quem de nós em algum momento não foi assim? Dessa época  guardo a lembrança de ver alguns cinemas com filas sem saber o que acontecia, do mesmo jeito que algumas pessoas se surpreendem com engarrafamentos no caminho de um estádio de futebol e se satisfazem em saber qual o time joga.  Com isso quero dizer que não é vergonha estar “por fora” de coisas tão badaladas, mas que é interessante e compensador ficar por dentro, principalmente porque de certa forma o cinema e o gay sempre namoraram no escurinho, muito embora seja  grande o número de filmes onde personagens assumidos são condenados à decandência. Mesmo no Cinema, com sua capacidade de abrangência do  reino de fantasia e ficção, a homossexualidade sempre representou um mal estar... Tanto que,  entre 1961 e 1976, “em 32 filmes que abordaram o tema, 13 personagens homossexuais matavam-se, 18 eram mortos por seus amantes e um era castrado”!
Em 1972, Lamont Johnson realizava  “That certain summer” primeiro filme a contar uma história de amor entre dois homens  recebendo a seguinte :  os amantes “não deveriam jamais se tocar e seus olhos jamais se cruzar”.  Não é de se espantar que durante muitos anos os que se propunham quebrar esse tabu, precisavam lançar mão do recurso do ridículo, criando personagens afetados, caricatos e exagerados, o que veio a se tornar uma escola, afinal como toda forma de arte,depende-se de financiadores e os de Hollywood,  durante muito tempo recusaram-se a viabilizar filmes que tivesse a Aids como tema. “Meu querido companheiro” (1990) de Norman René, primeiro filme de grande orçamento sobre a Aids teve 6 anos  de respostas negativas dos produtores, além de  inúmeras recusas  de atores  que temiam comprometer suas carreiras. Foi com Filadélfia, de Jonathan  Demme, 1993 que este panorama começou a mudar, trazendo algo de simpatia ainda que por piedade, ainda que as cenas homoeróticas ficassem para depois... Gay no cinema, ainda  tinha que ter uma história infeliz!
Talvez por isso eu tenha ficado tão positivamente surpresa quando vi Bubble (Eytan Fox, 2006), uma surpresa israelense.
 Pra finalizar, segundo os meus amigos que viram quase tudo do Festival do Rio 2011, o melhor filme do festival é “Inquietos” (Restless, Gus Van Sant) e ainda segundo eles, embora esteja classificado como filme gay, garantem que não é!  Por falar em filme gay, Almodóvar  quando rotulado como diretor Gaye incisivo:  “Ninguém diz ‘um filme de gordo por Orson Welles’. Você nunca diz ‘a monarquia heterossexual do Reino Unido’. Algo que eu absolutamente odeio é ‘o diretor gay assumido Pedro Almodóvar’. Não sou nada assumido! Assumo  a chateação com isso e  fúria com isso.  As pessoas pensam que é algo atraente. Não. Não sou gay abertamente e é claro que não sou um diretor gay. Sou um diretor do sexo masculino. Essa é a mais homófoba das expressões. Acho que é muito norte-americana. Estou certo de que eles gostariam de colocar isso em seu passaporte – sua orientação sexual.”
Errado ou certo, os diretores evitam o rótulo que lhes restringe a bilheteria, Gus Van Sant  também  foge ao perfil do “cineasta gay”.  Constantine  Giannaris não se importa em ser rotulado de “cineasta gay” , tenta escapar do gueto e ser reconhecido num mercado mais amplo , a mesma posição de  Gregg Araki, ex-militante dos direitos homossexuais, que deseja  ser visto como apenas  cineasta: “Não gostaria de ser etiquetado como um cineasta gay. Se eu aceitasse isso, estaria condenado ao gueto. Quero ser considerado um cineasta e ponto. Talvez um bom cineasta, um grande cineasta: são os adjetivos que me interessam.”

Os festivais hoje aceitam as temáticas homossexuais, que deixam de ser vistas como subcultura, na década de 90  surge a Strand Releasing, produção e distribuição de filmes homoeróticos e a produção de filmes do tema vem aumentando, certamente por haver público. Portanto fique de olho e vá ao cinema!

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