30 de ago de 2013

NO BARCO | MANAUS

Água, balanço, árvores, mais água, escuridão.
Muita, tanta, em tal proporção, que a mente não pense mais nada.
Invadida que está de água, escuro e estrelas.
Estrelas num volume impensável.
Tão próximas que poderia tocar com as mãos.
O facho de luz do barco  parece iluminar  a mesma paisagem que se repetirá sem nunca ser a mesma e em dado momento deciframos toda a sua sutil diferença.

Saímos do Rio Negro, pegamos um trecho do Amazonas, passamos pelo Bastio (ou seria Baxio?) e passaremos uma eternidade navegando no Solimões. Já me disseram que o Solimões não tem fim, não se sabe onde se chega navegando por ele. Deve ser muito próxximo da realidade essa crença. Rio abusado, vertiginoso, fosse azul e seria o mar!
E eu notívaga, pela primeira vez desejei que não houvesse noite, a minha curiosidade necessita de luz, Meus olhos estão ávidos por essa luz e minha câmera tem fome dessas cores.
No entanto, a calma que invadiu minha mente sugeriu-me tranquilidade, que eu me acalmasse e deixasse simplesmente as coisas acontecerem, permitir a  noite expirar em paz até que tivesse direito a um novo dia.
NO BARCO 2 | MANAUS
31/08/2013

Estamos com mais ou menos umas 14 ou 15 horas de viagem e ainda faltam umas 6 Pra chegar num destino, conhecido por todos,menos por mim, marinheira de primeira viagem. Penso que seja exatamente assim a vida: A experiência faz de uns sabedores de seus destinos, enquanto outros navegam, boiam, caminham sem saber exatamente para onde serão levados. Nesse mundo quem não planeja, se dirige, e se conduz,  é conduzido
Tantos sabem onde os caminhos darão menos nós...

Tudo o que sei é que estou indo pra uma cidade, que fica teoricamente há umas 24 horas de navegação partindo

 do Rio Negro. Um pequeno fim de mundo, mas nada nessa área comete o sacrilégio de ser pequeno...
Já vi trechos sem menor vestígio humano. Mostraram-me árvores com caules escuros da raiz até um pouco acima da metade e na parte superior completamente brancos, marcas da altura que as águas chegaram na última cheia do rio. Passei por partes mais movimentadas, literalmente com trânsito de embarcações...
Imagina em vez de ter no endereço nome de rua, ter nome de rio!!!

Cidadezinhas, lugarejos ribeirinhos não sei exatamente que nome tem aquelas fileiras de casas 
 empoleiradas em palafitas, ainda que plantadas em terra firme. Ficam ali no alto como crianças em cima de árvores, como aves em cima de poleiros  aguardarem a época em que as águas subirão. Casas, casinhas, casebres à moda de vilas antigas de pioneiros e sempre com uma igreja  qualquer em evidência.
Algumas dessas casinhas são lindas, parecendo casinhas de bonecas com cores vivas e  avarandadas.

Às 3 da manhã errei a porta e fui parar no convés, dei de cara com uma lua daquelas que se escolhe a forma pra fazer tatoo. Fazia tempo que não via uma lua amarela. A melhor foto de lua da minha vida, ficou gravada nas minhas retinas, essa foto, só eu vi.

Eu tinha idéia de acordar pra ver o sol nascer, mas independente como um gato, não pedi a alguém que me acordasse, tenho sono leve e fui pra cama cedo, antes das duas. O que eu não sabia é que talvez meu sono tenha esperado a vida inteira pelo balanço das águas para ser ninado, porque acordei tarde e na base do vocativo!

A INTERNET
De repente alguém chega com a notícia que tem internet e geral cata seus celulares e tablets menos eu, que sequer trouxe o meu... Mas diante do gosto em tirarem fotos, tirei algumas e consegui postar algumas no meu facebook.
Sei lá em que altura estou do Solimões, mas tem internet!!!
Tão admirada com isso que nem me estresso se a internet é intermitente. e acaba por cair antes da postagem de todas as fotos.
Crime é viver no Centro de uma  grande capital e não ter serviço que funcione, mas estar a caminho do nada, em plena coisa nenhuma e ter internet é luxo!! Penso o mesmo quando o vejo o barco onde caminhamos de pé com cabeça erguida, com ar condicionado e TV.

Esse projeto que estou "participando" é uma das coisas mais bonitas que já vi. Pelas poucas horas de convivência, percebo que tem as pessoas as mais comprometidas que já pude ver em situação de trabalho mas isso é outra conversa.



NO BARCO 3 | MANAUS
 E  a vigem continua. 
São 22:49 horário local, mas aqui essa palavra "local"começa a não fazer muito sentido.
A gente não sabe exatamente o que diz a expressão o "Brasil é grande"... A galera do barco sabe onde está, conhece cada comunidade ribeirinha nesse trajeto em que o instinto e a memória visual são imprescindíveis

Saber-se subindo um rio faz muita diferença numa vida...
Eu fico com uma vontade incrível de arranjar uma cabana, duas panelas e não voltar nunca mais. Passar o resto da minha vida conversando com pessoas que eu nunca vi e que certamente não vão exercer a pressão que conviver com seres urbanos exerce ainda que não falemos a mesma língua, esse povo tem o dom da comunicação pelo silêncio. Seus rostos são mapas sinalizadores, tipo de gente que não nos põe a perder.

Hoje lamentei não ter nenhum dom para ser no mínimo uma cuidadora de idosos. Infelizmente os meus talentos não são assim tão úteis pros necessitados ou isolados ou desolados... Tenho uma escrita razoável, uma paixão por fotografia e música, dons culinários razoáveis que embora estejam se desenvolvendo com o giro do mundo, não me credenciam a fazer algo de últil por uma humanidade satélite que nem nas nossas divagações entram no rol de brasileiros...

O Brasil do litoral, do sudeste, o "sul maravilha"  tinha que conhecer essas regiões para pensar duas vezes antes de citar o povo brasileiro como responsável pela sua própria desgraça social, políica e econômica. As pessoas que citam o "brasileiro que não saber votar", o "brasileiro que não tem educação" e mais N colocações e definições nada amáveis para "povo brasileiro" deveriam fazer um cursinho para conhecer um pouco mais desse povo do qual todos fazemos  parte e se exclui no momento da crítica. Assim, talvez se sentissem tão inúteis e ignorantes como eu estou me sentindo agora.
É fato que essas mais de 24 horas rios acima, com ruído de motor, algum cheiro de querosene e vistas tão deslumbrante quanto desconcertantes, estão abrindo a tampa de um ser que eu deixei de ser há muito tempo atrás.

Tirei essa foto do avião quando vim, em vôo noturno. Artística, a foto da minha ignorância inicial
Tirei essa foto do avião quando vim, em vôo noturno. Artística, a foto da minha ignorância inicial
Essa é a Manaus que convive com uma outra de realidade tão diversa.
Essa foi a Manaus que eu vi como turista recém-chegada.
Essa foi a Manaus que eu vi como turista recém-chegada.

Essa é a Manaus que convive com uma outra de realidade tão diversa.

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