23 de nov de 2016

Tia Surica Da Portela é o luxo da nossa cidade


Estava olhando agora essa foto linda da Tia Surica Da Portela (sambista, pastora, tia de ponta) por Bob Wolfenson, fotógrafo internacional de ponta, para o projeto (social) da Amsterdam Sauer, joalheria de ponta e me vieram tantas reflexões acerca de valorização.
Nosso país tem muita dificuldade para valorizar suas gemas, seus ouros, suas riquezas. Fora aquelas que fomos acostumados a ver batendo asas para as arcas dos colonizadores, sendo particularizadas para os bolsos privados. Mais as riquezas culturais que achamos normal por de lado em detrimento de outras línguas modos e costumes estrangeiros e também nossas pessoas, personalidades. Crescemos, nos desenvolvemos encarando com normalidade copiar culturas mais pobres, menos talentosas que a nossa e aplaudir talentos alheios e ou transitórios.

Seria necessário dizer a cada brasileiro que não é ruim ser brasileiro. Não é feio ser brasileiro, nem negro, nem índio, nem miscigenados que é o que somos. Que a origem humilde é honrosa. 

Um dia nos vestimos com roupas  européias, colocamos perucas bizarras, empoamos a cara para parecermos menos morenos, usamos termos estrangeiros sob um sol escaldante e calor senegalesco, copiando os que julgamos superiores por acharmos chiques seus maneirismos que assim pareciam apenas por serem diferentes, sem nos darmos conta que, falidos vinham os donos desses costumes, abastecerem-se com as nossas riquezas. Os ricos éramos nós. Ainda somos e culturalmente ficamos ainda mais a partir dessa mistura. 

Quando aqui chegaram os gringos e galegos, encontraram um modo de viver, uma cultura, uma medicina, várias pessoas, alguns povos da mesma etnia e tudo foi desprezado. 
Pois bem, as crianças costumam vestir as roupas e calçados dos pais num processo de identificação, logo elas crescem e discutem com os pais para impor seu próprio estilo. Captaram o que desejo transmitir? O país se desenvolveu dentro de uma fôrma (acento proposital) que não permitiu a ele cresce e a nós nos desenvolvermos.

Recentemente num grupo do whatsapp que eu gostava muito, vi-me envolvida numa conversa a princípio irônica e que eu nunca poderia supor que fosse séria e assim levei na brincadeira. Um membro ironizava ou desconfiava ou questionava a qualidade vocal e competência musical da nossa pastora. No decorrer da conversa percebi que ele levava para o lado do usufruto financeiro a oportunidade que Tia Surica teve de gravar CD e DVD. Tratava-se de alguém muito jovem e apaixonado por carnaval e talvez até por samba. Ele não se dava conta que samba e carnaval são coisas diferentes, que o carnaval sem samba é festa pagã vinda sei lá de onde vinculada às colheitas. Carnaval com samba, é filho da nossa cultura, expressão libertadora de pessoas que construíram esse país a peso de chibata e humilhação. Samba é valor agregado por um povo sequestrado de sua terra e tudo o que era seu. 

É preciso lembrar cada momento essa origem para que meninos entendam ou aprendam a não trocar o ouro do nosso samba pelos espelhos da avenida, ainda que assim ele possa enriquecer feito um nobre cavalheiro, daquele pertencente à corte dos títulos comprados, defendendo uma arte descartável ao custo do 
menosprezo por arrogância e ignorância do seio que o amamentou e das entranhas que o fez nascer.
Não me zanguei nessa contenda, tentei esclarecer, mas retirei-me do grupo porque na minha idade, sabendo o que eu sei - muito mais por saber o que sei do que pela minha idade, não aceito ouvir sandices de quem mesmo vivendo de Brasil, não valoriza brasilidades genuínas.

Tia Surica Da Portela é o luxo da nossa cidade, do Brasil e o é porque é autêntica como muitos dos poucos que nos restam. Ela traz as portas da sua casa abertas, fala da nossa cultura porque a viveu e a defende, é a representatividade de um Rio de Janeiro que está acabando. Vê-la tão linda com as belas jóias da conhecida joalheria que completa 75 anos mostra tanto sobre isso! Esse projeto que escolhe 75 mulheres magníficas a comemorar com apoio à juventude fala muito sobre tantas coisas do Brasil que se perde de si mesmo a cada minuto quando a juventude não recebeu na escola a educação que a valorizasse pelas suas raízes. 

Cultuam-se celebridades, até mesmo com incursões no samba, mas quantas delas estarão disponíveis para algo a mais que fotos e selfies? Quantas delas estariam disponíveis para alavancar os sonhos da juventude que "curte" samba, se interessa por ele, estuda jornalismo, quer beber na minguada fonte dos baluartes sobreviventes, quer conhecer o Rio além dos pontos turísticos que ficam ali onde os colonizadores chegaram, como faz Tia Surica?

Cheguei à essa entidade viva não porque ela fosse famosa, mas porque ela era talentosa e fiquei porque ela é uma grande pessoa e continua talentosa. Passei a me relacionar com ela como ser humano e segui admirando quando ela abre aquela boca e canta como as pastoras antigas que não cantam mais e segui aparvalhada quando ela dá de contar os "causos" da época que não vivi e sigo amando muito e agradecendo à Vida (meu deus pessoal) pela oportunidade que tenho de conviver com ela e mais alguns poucos desse tempo que passando não evolui as mentes dos que só vislumbram fama, algum poder e muita grana.

Para mim, é o auge a sambista de sucesso que criou fama, que a mídia séria procura para beijar a mão e a imprensa sem nível se aproveita para criar escândalos toscos objetivando apenas uns cliques. 
Se Tia Surica tivesse se mudado para a Barra muita gente por aí a respeitaria muito mais, no entanto, a gente sabe que para o respeito não é imprescindível morar à beira do amar e que bom, que a Amsterdam Sauer sabe disso também e muitos que nos valorizam., disso estão conscientes.

Será ótimo no dia que cada pessoa souber. Chique é ser verdadeiro. Nossos negros expulsos da região central do Rio foram muito chiques construindo esse império cultural lá pras bandas de Madureira, Oswaldo Cruz, freguesia de Irajá. É muito triste ver nosso povo, tão alheio repetindo as ações daqueles que nos roubaram, escravizaram e insistem em manter as patas subjugando nossas oportunidades invenções e criações, dizendo "sim" para que nossos ouros se vão em troca de espelhos por mais que eles pareçam brilhar nas avenidas.

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