18 de abr de 2008

E DAÍ?

Música Déjà Vu - Pitty
Os índios viviam em grande número no Brasil, este país era a terra deles.
Um dia um barco, uma caravela, um vento, uma rota equivocada, uma mentira histórica, não importa; o fato é que um monte de gente estranha e muito vestida, possivelmente mal-cheirosa chegou e isso mudou todo o curso do universo indígena.
Minha professora de história na 6ª série fez um comentário que jamais esqueci: Que "os portugueses pelo menos pouparam nossos índios enquanto os espanhóis dizimaram todos os que encontraram"...
E daí?
Que diferença pode fazer, ser dizimado ou ser subjugado?
Engolir espírito abaixo um Deus desconhecido, vingativo e assustador que não nos deixa andar pelado, como se tivesse vergonha da sua criação.
Ter que pagar pelo fruto da sua própria terra.
Ter que chamar alguém de senhor quando se pensava que todos eram irmãos...
Ter que acreditar que todas as imposições feitas pelos brancos barbados emanavam desse deus desconhecido...
Índios espanhóis eram mais evoluídos, trabalhavam os metais, sabiam do ouro que tinham, faziam sacrifícios e a riqueza era para os seus deuses. Tinham construções perenes que hoje nos contam da sua trágica história e agonia.
E daí?
A gente não lembra desse contexto histórico todos os dias, mas a gente sabe que o ouro e o poder trazem sempre a agonia de alguém, a gente vê isso todos os dias, ou pelo menos a cada dia esse fato se mostra e nos expõe.
Os negros estavam na África, vivendo a vida deles e um dia chega um navio e das suas entranhas saem homens pálidos e doentios, caçadores de homens negros (que viraram fortuna mas não valem nada),laçadores de homens negros que jamais poderão ser felizes de novo. São bravos e valentes mas quem resistiria a tanta tortura?
Eles não sabiam mas o poder que antes era ouro e título de nobreza(acho que aí perdemos toda e qualquer nobreza), naquele momento era a lei do mais esperto, do mais interessado em aumentar o seu tamanho subindo em cima dos outros.
Uma nova nação brasileira havia se formado e o seu sangue azul era adquirido no mercado em grandes transações, eram preciso encontrar novas formas de amealhar respeito.
A riqueza que um dia fora ouro, antes de se tornar papel-moeda e níquel, seria ainda sangue e hoje é apenas palavra e vestimenta. Nunca o dinheiro foi tão impalpável, nunca fomos tão levados pela aparência.
Isso é história e história até aqui tem sido o caminho da nossa civilização...
Essa história que passa feito inundação, como um rio caudaloso e violento arrastando o que acha pela frente, ou melhor não acha, leva tudo sem ver...
Derrubaram-se florestas, matas inteiras e espetam no seu lugar construções de gosto duvidoso. Não basta construir para viver e abrigar, tem que ostentar.
Criamos nossos filhos preocupados com o que terceiros dirão a eles, não queremos idéias estranhas na cabeça dos nossos rebentos mas será, que avaliamos se nossas idéias são dignas de serem transmitidas?
Há no centro de tudo uma certa resignação: é o mundo moderno, o que se há de fazer?
Mas essa resignação fabricada só é concreta quando nos favorece...
O direito humano é tão mais humano quanto aponta pro nosso lado.
O chicote, lamentavelmente, só dói numa das sua pontas. O grande lance da nossa grandiosa civilização, é manter o seu cabo virado sempre para o nosso lado, minha professora da 6ª série, foi a primeira a me dar a lição do que é o poder, que ser poderoso não é uma questão de opinião, é um ato de concordância, anuência com o que? Qualquer coisa que proteja, única e exclusivamente a você mesmo.
Continuamos tripulação de caravelas, conquistadores que não se importam com o valor da conquista nem com o ônus do conquistado...
Embarcamos num ônibus sonhando com o carro. Compramos o carro, sonhando com o carro zero. Compramos o carro zero sonhando com o turbinado, o flex, o importado, o maior, o de luxo o mais bonito.
Não gostamos do patrão mas sorrimos pra ele.
Não gostamos do chefe, mas elogiamos a roupa dele.
Admiramos sua posição, seu lap top, seu blue tooth, suas viagens seus fins de semana.
Sua mulher. Sua vida que estamos morrendo pra tentar um dia ter.
Seus filhos que comem o que os nossos talvez jamais venham a conhecer.
Admiramos próximo ou dentro da inveja numa divisa com a apoplexia.
Conspiramos em espírito ou pensamento, ofendemos a nós mesmos...
Concordamos em silêncio participando do que não queremos:
"é o mundo moderno, o que se há de fazer?"
Nos matamos para por o filho na melhor faculdade e sequer percebemos quando ele começa a matar aula.
O seu aproveitamento não é tão importante quanto o orgulho de dizermos o que estamos oferecendo a ele.
Contar pro amigo que o filho vai pra Harvard, que ele é inteligente, que ele é demais e ele volta de lá como um rio caudaloso que envolve e encharca tudo o que encontra pela frente.
Tenho uma ligeira impressão de que quando Deus e Lúcifer partiram pro duelo, Deus não foi feliz na escolha das armas...
Deus escolheu o amor e Satã preferiu o orgulho.
Realmente temos esse traço genético trágico do Criador: consideramos muito mais a nossa posição que o real temperamento de nossos filhos.





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