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24 de jan. de 2022

JOGO É JOGO, SONHO É SONHO E TEM O MEDO | Crônica de Domingo

 

Talvez haja na maioria do seres humanos um inevitável apego à maldade, pelo menos naqueles que não são maioria mas se iludem que são donos do mundo. Aqueles que curtem o fast, o superficial, o que já vem pronto pra consumir, no máximo uma esquentadinha no microondas porque calor não é a vibe desse povo.

São umas gentes que se aproveitam de qualquer detalhe para eliminar outras gentes da categoria de gente. O mais perigoso e cruel negacionismo é esse que tira do outro o direito de ser uma pessoa e isso é explorado pra virar dinheiro, porque onde não há respeito humano, só existe valoração do poder e muitas vezes dinheiro não representa necessariamente poder, então é preciso desumanizar, desqualificar aqueles que têm algum tipo de poder ( carisma, influência, competência). Muitas vezes o que se chama entretenimento nada mais é do que uma repaginada de guerras e competições como as do circo de Roma; o humor derivado do constrangimento de terceiros.

Essa suposta superioridade que o mundo estimula tantos para que tenham pode dar errado, quando realmente se acredita nela, eu penso ser o caso da Naraia e pasmem, penso que ela nem tenha culpa. Nesse meio descerebrado que é essa nova música neo sertaneja que o mercado tenta transformar a qualquer custo em identidade nacional, Naiara que vem do interior, de uma cidade minúscula, segundo ela mesma diz, chega na casa com o grito ou melhor, berro: AVISA QUE EU CHEGUEI, P0RR4AAAAAA!!!
Muito vento e nenhum furacão.

Ela não mostrou as tintas carismáticas que normalmente o palco tinge seus ocupantes. Ela investiu numa linguagem afetivae culinária de mãezona ou vovozona, conforme ela disse, uma tentativa de descontruir a imagem pesada/agressiva que pudessem ter dela - eu particularmente não teria como parça no jogo uma mulher que nas brigas com os machos traidores agride as mulheres que a rigor não têm nada a ver com ela, por exemplo:

"E pra ajudar pagar a dama que lhe satisfaz
Toma aqui um 50 reais"

"Sei da sua fama, meu bem eu não sou boba
Você é uma quenga, sem vergonha, rapariga"

Mas jogo é jogo e Naiara não foi recebida como esperava, não "causou" como imaginava, sequer achava que a casa já ia votar nela pra sair logo na primeira semana. Imagina o calafrio que ela deve ter tido de imaginar a rejeição do publico. E, seja por não se sentir capaz de arcar com essa rejeição ou por estar ciente que isso poderia ser um tiro pela culatra de quem foi a um programa pra ampliar a visibilidade, mete a história de "votem em mim pra sair que não consigo ficar". Como se diz aqui na minha terra: mó caô! Não confundir com mó calor que também tá rolando.

Se ela quisesse sair mesmo, tem um botão bem grande no meio da sala. Se ela quisesse vencer tentaria outras coisas além de abraçar e cozinhar, mas quem sabe ela não nutre a esperança de Jânio Quadros? Tudo bem que ele se ferrou, como todos que que ameaçam sair só pra ouvir o coro de fica, ainda assim a coisa existe e acontece. Talvez ela tenha a expectativa de se sentir querida e aí tentar de novo. Se isso acontecer espero que seja fazendo jus às canções que canta coo tiazona bem má.
Não que eu tenha esse lado perverso de curtir fogo no parquinho, mas eu ficaria tão enjoada de pensar que alguém tem um repertório tão variado de máscaras...

PS.:
Acreditam que a ideia desse post era falar do Abrava com o seu mundo Ursinho Carinhoso? Afffff, acho que perversidade pega.

#bbb22 #ESCREVENDOPRAPENSAR #antesqueamudançachegue

20 de jan. de 2022

 


Tô muito de saco cheio. Calor da carálio, ventilador pifado, máquina de lavar escangalhada, me escondendo do carro da Light e se contar vem logo um perguntar:

-Ué mas a Light não conta com duas contas? 

Não sei se querem saber quantas contas eu devo eu é só olho grande mesmo. O fato, ninguém vai ajudar. Eu quero é saber onde foram parar as pessoas legais dessa cidade, faz tempo que só gente cafona vem ocupar a vizinhança.                                                                 Ando panicada sem conseguir sair de casa, irritada pacacete! 

Todo mundo se mudando pro Orum. Bostonauro não se cala, Moro não se manca. Gás tem mas o fogão só funciona uma boca.

Em crise criativa, não consigo escrever uma linha no meu livro. 

Meu senhorio me manda mensagem crente todos os dias no zap, meus vizinhos escutam sertanojo o dia inteiro e tem os que metem só louvor no som alto e o mês de janeiro pelo jeito só vai acabar e junho.

Tô LOKA!!!

Preciso fazer uma viagem urgente! Sempre viajar me tirou do breu.

Somando o cofrinho, o que não tem no banco, o limite di cartão dá pra ir pra Paquetá, bico seco e não voltar .


A aluna mais brilhante do colégio deu fail

14 de jan. de 2022

NA PADARIA


 Na padaria tem um cara que não me parece funcionário mas está sempre por lá. Deve ser dono ou gerente. Quando ele me via com a camisa Lula Livre dava sempre um jeitinho de começar uma conversa bem alto com alguém (nem que fosse com ele mesmo) e dizer o quanto Lula tinha roubado e quão milionários eram seus filhos donos da Oi e da Friboi (agora que percebi a rima, será algum tipo de dupla sertaneja?).


Teve um dia, em 2018 quando me viu entrando já começou a falar sobre os "inc3st0s do Haddad". Nunca pude responder ou revidar porque o cara não falava comigo, falava pra deus, pro alto, pro nada às vezes para as funcionárias que fingiam interesse e concordância, constrangidas por mim.

Chegou a pandemia e a padaria era o único lugar que eu ia uma vez por semana, pra comprar cigarro e toda vez que eu passava álcool nas mãos depois de guardar o troco, porque nessa padaria, o cigarro é tratado como droga ilícita e o fumante como lixo esquerdista - não vende cigarro no cartão, o cara olhava pra TV que fica bem no alto no meio do salão, fixa numa pilastra e dizia:
- Palhaçada.
Então, ontem entrei na padaria, de máscara, porém tossindo, espirrando e fungando. De propósito. Pela primeira vez ele me olha na cara. Abaixa a cabeça e sai apressado como se tivesse visto uma assombração.

A moça do caixa:
- Ele não tinha tomado vacina. Está só com a primeira dose...
- Ah, tá. Quissifueda!

1 de jan. de 2021

Teletrabalho e Trabalhadora brasileira. O que é bom pra quem?

 


Desde 2013 utilizo o sistema de teletrabalho, infelizmente mais conhecido no Brasil como home office. Nunca avaliei pontos positivos ou negativos, entendendo que isso se faz quando temos a escolha e eu não tive. Porém, estimulada pelo contexto vacina x pandemia x novo normal x pós-pandemia, amanheci propensa a esse exercício.

Particularmente, não acho o teletrabalho uma boa ideia. Como tudo na vida, há vantagens e desvantagens, como um ser pertencente ao gênero feminino, vejo muito mais desvantagens, seguindo o fluxo normatizado das coisas que “escapam ao controle” quando são direcionadas para as mulheres, afinal, vivemos num mundo organizado como, porque e pra quem?

O que a maioria das pessoas apontam como vantagem eu considero complicadíssimo: Flexibilidade. O respeito à carga horária depende muito da capacidade individual de organização e também do “semancol” dos chefes e patrões. Pode fazer bico, não estou criando “pelo em ovo”! Ainda percebemos bastante ativos procedimentos vários que nos remetem às políticas escravagistas, diariamente lidamos com notícias sobre vários tipos de assédios e abusos no trabalho, é fato que falta ao país aprender muito sobre respeito ao trabalhador, principalmente às mulheres e mais ainda às mulheres que trabalham e também às mulheres que estudaram para exercer as funções onde trabalham. Ufa! É cansativo.

Em 2019, a diferença salarial entre homens e mulheres, aumentou para 67,92%, após 7 anos de quedas consecutivas. Ou seja, homens sempre receberam salários maiores que as mulheres e em 2019 essa diferença aumentou. Claro que não vou comentar que provavelmente haja alguma relação com o tipo de presidente que hoje habita o palácio do Planalto, pois que ele trabalha incessantemente para o retrocesso de forma ampla, geral, irrestrita e galopante.

Se compararmos o salário com uma pizza, o salário dos homens equivaleria a 8 fatias e o das mulheres, aproximadamente, 5 fatias e meia.

Entrei nesse recorte para trazer a reflexão sobre nós mulheres brasileiras temos um problema e dos grandes, somados a tantos anteriores ainda não resolvidos. Há 19 anos vivendo no século 21, parece que ainda somos punidas por termos abandonado as convenções sociais que nos impediam o trabalho e nos entregavam como bem de consumo a um marido “provedor”. E se não resolvemos o trabalho doméstico, como “domesticar” o nosso próprio trabalho, dito, formal? Só aí já percebemos o tanto de preconceito quando o objeto trabalhista é feminino.

Acrescentando que o teletrabalho ocasiona para o trabalhador, despesas com aluguel, energia, gás, alimentação, limpeza, manutenção dos equipamentos, reformas, suprimentos — um dos grandes motivos para as empresas acharem o essa modalidade algo sensacional, afinal se livram de despesas e aumentam os lucros. No “pega pra capar” pandêmico nem se teve tempo de pensar e muitas trabalhadoras arcaram e continuam arcando com esses ônus que precisam ser negociados com os patrões. tíquete-alimentação revertidos para outras despesas enquanto se organizasse o restante, mas foi só um achismo bobo da minha parte.

Não precisar se locomover até o local de trabalho é a melhor coisa do home office, a natureza agradece! Ainda assim, para as mulheres que passaram séculos confinadas em casa, para as quais estar em casa é sinônimo de trabalhos domésticos ininterruptos, faz falta aquela fugidinha ao shopping ou ao chopp com amigas ou colegas de trabalho.

Por fim, temos que um trabalhador noturno por exemplo, quase sempre, tem o seu sono velado pela esposa ou mãe ou governanta, sempre uma mulher, claro e no dia-a-dia essa prática não é um beneficio que uma mulher vai se gabar de usufruir, o que impacta num dos aspectos vistos como positivo para o teletrabalho: uma flexibilidade dos horários. Em se tratando de mulheres que não possam contar com um suporte para as atividades de casa; de mulheres que têm filhos ainda pequenos sem entendimento que mamãe está em casa porque agora mamãe trabalha em casa; e mulheres que têm maridos incompetentes nas “prendas domésticas”, sem contar a parentada que sempre vai pedir um favor ignorando o respeito ao trabalho de uma mulher em casa. Essas variáveis ​​destroem a possibilidade de flexibilizar o horário ou a inviabilizam como a opção alternativa de trabalho noturno, que é ruim por dois lados: A comunicação com a equipe de trabalho ou cliente, embora a empresa te peça coisas fora do horário, interrompendo o jantar, você não pode fazer isso; E a vida familiar ficaria completamente comprometida, aliás a saúde e sanidade mental das mulheres estariam destruídas.

Portanto, pense bem antes de achar que uma pandemia pode ter sinalizado com o paraíso na forma de teletrabalho ou home office, isso seria verdade se esse sinal fosse visto como um aviso para a falência total e completa do sistema capitalista; relacionado para a valorização das pessoas e inclusão de novas mentalidades de civilizações que foram preteridas, esmagadas pela colonização dos mundos. Já pensaram o tanto de sabedoria afro-brasileira e originária que poderia ser usado numa nova configuração de sociedade?

3 de jan. de 2017

Vamos falar de tudo misturado?


Essa frase de Dona Dodô me lembra muito o que diz a Selminha Sorriso da Beija, que ela faz com alegria, não sabe se é a melhor no ofício (de porta bandeira) mas faz o melhor que pode. 
Talvez não haja outro caminho para o sucesso que não seja fazer com amor para que se possa ter dedicação plena e tornar leve todo o processo de trabalho que sempre será exaustivo, principalmente para quem faz com um objetivo qualquer, por exemplo, sucesso pelo sucesso ou apenas dinheiro. 

Pessoas que se dedicam a um ofício por amor, com amor acabam por fazer sucesso, compreendendo bem que sucesso é diferente de fama.  Às vezes eu penso que o exercício de um ofício por amor e a dedicação que acarreta, transcende e tanto que projeta o resultado para um patamar que só poderão ser reconhecidos em plenitude no futuro, exigindo evolução da sensibilidade para que o valorize (o resultado). 
Sim, pensei em Van Gogh ao elaborar esse pensamento existem vários gênios incompreendidos na sua época cujas obras, pensamentos, teorias só foram compreendidas algum tempo depois e valorizadas muito posteriormente.

Certamente no nosso país há pelo menos centenas de artistas dos mais variados segmentos de arte e cultura popular que não recebem o devido reconhecimento porque somos educados dentro dessa coisa de cultura de massa que nem sempre nos representa por ter seu conteúdo destacado e adaptado ao que marqueteiros e indústrias chamam de mercado. Resultando numa divulgação maciça de produtos híbridos onde a essência não é o que encanta mas o que nos cega e ensurdece. 

A sensibilidade é um atributo natural que pode ser desenvolvido e até mesmo adquirido através da educação e cultura. Dificilmente uma pessoa sensível aceitaria determinados "produtos artísticos" impostos goela abaixo da população. A nossa insistência em rotular chamou aqueles que tiveram oportunidade de estudar, muitas vezes aprimorando seu nível de sensibilidade, de intelectuais. 

Pensando que no início do Brasil, para se estudar precisava-se se deslocar para a Europa, podemos entender porque essa oportunidade era exclusiva dos endinheirados (recuso-me a chamar de "elite") e podemos compreender ainda porque nunca foram realizados esforços efetivos para que a população como um todo pudesse se desenvolver intelectualmente através do estudo acadêmico. 

A ditadura da ignorância não pode ser negada, analisando-se que às mulheres foi negado durante séculos o direito de se escolarizar, logo, é fazer "ouvidos de mercador" não se assumir que sempre fomos manipulados para que nos mantivéssemos no nosso local de colonizados, miscigenados, selvagens, pouco mais que animais,  incompetentes para decidirmos nosso presente e futuro seja através de escolhas seja através das leis.

Concordar com essa estrutura e modo sempre praticado no nosso país, para mim é ser de direita.  Direita é a manutenção do estabelecido e para qualquer brasileiro não rico  e vivenciando o dia-a-dia dos que ganham salário mínimo é simplesmente inaceitável. 

- O que é ganhar um salário mínimo? 
É ter dinheiro recebido por muitas horas de trabalho mais algumas de transporte que não é suficiente para o mínimo necessário a um ser humano urbano ou rural. 
É ter a sensação térmica de 56 graus sem direito ao ar condicionado. 
É quando se consegue ir a um médico e ser atendido, não ter como comprar a medicação ou praticar os hábitos de vida indicados pelo médico. 
É não ter moradia adequada em lugar digno. 
É ver os endinheirados (não quero dizer elite), políticos indiferentes ao sofrimento da falta de qualidade de vida, quando não, sorrindo com escárnio e deboche de uma situação que passa bem longe deles. Hábito, aliás, que tem sua raiz na monarquia, um tipo de governo em que pessoas por pertencerem a uma determinada família já nascem prontas para governar, decidir tudo o que será feito com o dinheiro que nunca fizeram nada para ganhar. 

No Brasil, fora os nobres que vieram de Portugal fugindo de Napoleão, tivemos aqueles compraram títulos de nobreza. O Brasil tem esse período tão, digamos "engraçado"... Bastava empoar a cara de um negro para ele ser branco, bastava um qualquer que conseguisse sua fortuna comprar seu título de nobreza e voilá, se tornava nobre...

No o Brasil o que se tem  de mais parecido com democracia, foi o direito de poder escolher quem vai gastar o nosso dinheiro. Mecanismos nobres da Constituição visando  proteger a divergência de idéias aos poucos foram e continuam mais que nunca sendo adaptados como meios de proteger esses que se aboletam no poder descobrindo formas de se apropriarem de cada vez mais, mais, muito mais do nosso dinheiro. 

- Mas não escolhemos nossos políticos?
Parece que sim, mas se pensarmos na forma como esses chegam ao nosso conhecimento, se avaliarmos as dimensões intercontinentais do país, concluiremos que não.

- Ah, mas o assunto não era trabalhar com amor a própria arte?
Verdade! No entanto, da mesma forma que não temos acesso às informações de todos os políticos que se candidatam, não conseguimos ter conhecimento de tantos artistas que fazem bem o seu trabalho. 
Aí entra uma coisa chamada mídia. Mídia é um instrumento composto de vários elementos que têm a capacidade de penetração em grande escala nas populações para disseminar informações. Isso antes de ser propaganda quem é uma informação nem sempre verdadeira que serve para que os donos da mídia angariem dinheiro com ela (a mídia). A mídia no princípio do Brasil era o "boca-a-boca" e os panfletos escritos à mão (lembrem de quem podia aprender e sabia escrever). 

Depois vieram os periódicos confeccionados letra por letra com os clichês. 
Calma! Clichê ainda não era uma coisa vulgarmente dita por qualquer um e repetida por todo mundo. Era uma peça de metal, acho que de chumbo que feito um carimbo imprimia as palavras no jornal que na época deveria ter uma tiragem muito limitada, haja vista o quanto da população podia lê-lo. Assim, podemos também imaginar quem tinha acesso a informação e por conseguinte, tinha direito a ter opinião.
Todo esse furndúncio de palavras alteram o conteúdo sem modificar o rótulo. Jornalista não é mais o profissional que escreve em jornal, e nem todos que escrevem em veículos de informação são jornalistas. Jornalista a princípio tinha o dever de verificar fontes, pesquisar fatos para não passar informações inverídicas. 


Mas o importante é que ainda temos muita gente que exerce o seu ofício ou arte com amor e até por amor, talvez tenhamos até políticos fazendo isso, pena que na política não há tempo de um reconhecimento efetivo tardio. Podemos até reconhecer mas adianta de quê? Fica para história e nem todos sobrevivem a ela.
Parar por aqui que virou textão. Há um tempo eu comentei que gostaria de ter um local que explicasse política de forma que qualquer um pudesse entender e muitos tinham essa mesma necessidade, aproveitei para dar a minha contribuição, uma pena que misturado com talento, sucesso e arte, mas são coisas da inspiração ou quem  sabe do desespero?

2 de jan. de 2017

EM MADUREIRA UMA TRADIÇÃO DE ANO NOVO


Sei que remonta décadas passadas talvez desde o século passado. Eu nem sei quando fui dar nesse meio telhado que protege do sol senegalesco de Madureira. Sei que desde a primeira vez que estive, deixei de ir apenas um ano, doente que estava com crise de depressão. No mais, saía de Santa Teresa, caminhava até a Central do Brasil, tomava o trem descia na estação de Madureira e vivia coisas que faziam essa odisséia valer a pena.

Esse ano achei especial, não precisei fotografá-la às escondidas, ainda que ela não quisesse fotos, posou com gente.

Tia Surica posso dizer, com dizia minha mãe, é "o pé de galinha que não mata pinto". As brincadeiras não posso contar assim aqui porque só iniciados saberiam interpretar e morrer de rir porque não têm mal mas são piadas tão internas que aos desavisados poderia parecer bullying.

Ter a amizade dessa pastora do samba (claro, só pode ser do samba, já que ela não cria nenhum rebanho de carneiros) é para os sinceros e os que a amam de verdade, pra quem encharcou a mente no "sereno", para queles que  pelo menos uma vez afogou a alma no "veneno", para quem um dia na vida teve um calo nas mãos ou no coração. 

O Cafofo da Tia Surica cantado em verso e por Teresa Cristina é como o samba, uma cultura onde a música é espinha dorsal e cola quente. Nos sustenta e mantêm de pé, alegoria que somos dos dias nossos no desfile pelas avenidas da vida, não importa qual a escola, qual a cor do nosso coração.

Gente que está longe vê as fotos e morre de saudade. Gente que não conhece o caminho deve ter uma invejinha branca, rosa ou azul. A vida tem seus caminhos e sinto-me feliz por ter aberto esse pra mim. Sempre digo: 
Dia 1 de janeiro no Cafofo é prenúncio que tudo vai dar certo o ano inteiro!


28 de jan. de 2016

UM DOCUMENTÁRIO ESCLARECEDOR

Cidadão Boilesen - Um dos Empresários que Financiou a Tortura no Brasil


Policia Civil e Militar sob a regência do delegado Sérgio Paranhos Fleury, líder do Esquadrão da Morte (um grupo que eliminava sumariamente "marginais") de onde trouxe sua "metodologia",  compuseram a Operação Bandeirante ou OBAN em São Paulo (o projeto piloto que resultaria no Doi-Codi). 
A Oban era uma organização (ilegal) financiada por empresários, para matar pessoas, "combater a subversão", eliminar a esquerda, se desfazer dos "trapos vermelhos do comunismo" com finalidades nada patrióticas de preservar e aumentar seus lucros, como brinde, convidava os empresários para assistir às sessões de tortura - uma comprovação dos seus "investimentos"

Assisti  esse filme no youtube, que em trouxe uma reflexão que eu não havia feito antes, sobre os militares "manipulando" a classe dos empresários através do amedrontamento, buscando além do patrocínio , adesão. Caiu-me a ficha que mudam os atores, mas o drama só ganha uma repaginada que o adapta à modernidade.
Um documentário esclarecedor para aqueles que acreditam que nunca tivemos ditadura.

25 de jan. de 2016

O DESFILANTE DA COMUNIDADE

Ensaiar no mínimo duas vezes por semana, às quartas e domingos, trabalhando de segunda a sexta ou mesmo até sábado, ou mesmo desempregado, Com família ou sem ela, não é fácil a rotina do componente das alas de Comunidade. 
Andreia orientando a Ala 20 da Portela - foto: Rozzi Brasil
Não importa o que cada um passa nos seus dias, eles estarão lá sob chuva ou sol, no calor ou no frio. Estarão animados, cantando a plenos pulmões, com a melhor das energias, sorrindo. 
Atrasa o horário, tiram-se as linhas de ônibus obrigando-os a caminhar ainda mais, e, eles estarão lá sorrindo, com um brilho no olhar e a certeza que a recompensa será a vitória. Se não vencer, no ano seguinte eles estarão lá. Sorrindo. 

Os azedos mal humorados que difamam o carnaval, nunca entenderão que esse é o momento em que tudo dá certo para essas pessoas. Na formação retangular com as cores da sua escola eles fazem parte de um grupo onde até o líder deseja o mesmo que eles, uito diferente da vida cotidiana onde são invisíveis aos olhos dos governantes suas dores e dificuldades, que aprenderam a ver o cidadão como números de uma estatística muitas vezes manipulada. O carnaval é o remédio das sequelas, é a única governabilidade possível, onde querem ouvir a nossa voz, nem que seja na avenida.

Imagino que dando-se uma fantasia a um desses componentes e a regalia de ir para avenida sem passar pela rotina dos ensaios ele não estará recebendo o que mais lhe faz feliz. O encontro, o reencontro, as conversas e recordações de carnavais passados. Eu mesma fico ali, ouvindo as histórias cômicas em sua maioria e gostando muito de receber essa transfusão de histórias que não vivi e sigo sonhando com a vitória que todos precisamos tanto viver, nesses momentos, ela realmente existe.

15 de jan. de 2016

Entre o Grupo de Acesso e o Especial Deveria Haver o Grupo das Escolas de Raiz

Eu penso que algumas escolas não deveriam ter a necessidade de subir. Elas são a representação de um manancial totalmente na contra-mão do que é hoje o desfile do Grupo Especial que acaba por promover um desgaste cultural com a incorporação rápida de elementos muito mais visuais e teatrais e a necessidade cada vez maior de fomento, patrocínio em detrimento dos fatores culturais que se desenvolvem mais lentamente, inclusive o samba (a música). 
Sobre os ombros dessas agremiações tradicionais paira a responsabilidade de ser "escola de samba" e "não escola de desfile de carnaval".
Haveria de se criar uma associação, grupo especial das escolas de samba de raíz, não porque as outras não tenham raízes, mas porque essas ainda as cultivam.e pagam caro por isso.


Império Serrano tenta subir ao Grupo Especial pelo 7º ano seguido


12 de jan. de 2016

RAINHA DA BATERIA


Ano passado fiz no facebook uma piadinha até ingênua, só para brincar mesmo, com uma notinha veiculada sobre a Claudia Leitte que me custou alguns amigos, talvez seus fãs, certamente torcedores da Mocidade Independente de Padre Miguel. Não era nada demais, mas entendi que quando a gente gosta muito demora para assimilar e separar as coisas e felizmente fora dessa rede continuamos amigos e isso é o que importa.

Como já disse, rainha da bateria, para mim, é uma coisa totalmente dispensável, mas não chego a ser contra já que a coisa existe e todas as escolas tem. Nos desfiles as coisas acontecem assim: uma escola faz, outras vão atrás e o tempo se encarrega de que sejam incorporadas as inovações. Até tivemos algumas que valeram a pena acompanhar como Luciana Sargentelli que literalmente deu o sangue na avenida, na Estácio de Sá, creio que em 1992;  
Luiza Brunet do tempo em que as rainhas antes de mais nada eram criticadas e cuja evolução podemos acompanhar a cada ano (aliás Luiza tem esse histórico de superação diante das críticas). Luma de Oliveira, a eterna - apesar da coleira; Adele Fátima - para sempre Mulata 88 e Monique Evans, que se não é é não a pioneira chega muito próximo disso. A master-maravilhosa-divina Quitéria Chagas, por hora aposentada, curtindo a maternidade e a incrível Viviane Araújo. que dispensa citação.  

Das rainhas admiráveis, algumas, migraram entre escolas levando com elas um comportamento tão comprometido com cada uma das agremiações que "o povo" "pegava leve" e a maioria admirava, como Adriane Galisteu, que se manteve por um período relativamente longo nas escolas nas quais reinou ou mesmo Luiza Brunet que fez história na Portela e Imperatriz Leopoldinense.
A lista ficaria relativamente longa, guiada por vários critérios subjetivos, já que a função não é oficial,
não é quesito, não soma às notas da escola, mas pode fazê-la perder pontos se houver falhas dessa desfilante que comprometa a harmonia ou mesmo a evolução da escola na avenida. Então, por esta ótica, Rainha da Bateria é uma desfilante, uma componente como outra qualquer, no entanto, move paixões e impacta, acredito eu, nas finanças das escolas porque suas fantasias são caras, existem os compromissos de apresentação em outros locais que não na quadra. 
No perfil que a atividade foi adquirindo, uma rainha da bateria precisa de um mínimo de staff porque não tem como abrir mão de um mínimo de produção, o que pode, complicar para algumas agremiações, a manutenção dessa figura emergindo da comunidade, uma vez que a "tradição" já delineou o perfil da função coberta de glamour, plumas e brilhos, corpo esculpido e enrijecido com técnicas de acadêmias e tratamentos estéticos além de outros insumos, chega-se num ponto que conforme a situação econômica da escola, a rainha vai precisar colaborar pelo menos sendo independente, ou seja não gerando despesa ou não causando problemas
Notem que estou apenas fazendo uma elucubração, sem pesquisa, recorrendo à memória. 
Na esteira do meu raciocínio, observando, percebo que existem vários tipos de rainhas que citarei só como exemplo. As rainhas da bateria oriundas da comunidade, por exemplo, atualmente, Evelyn Bastos na Mangueira, Raíssa na Beija Flor,  Patricia Nery na Portela. 

Há as que são celebridades, pegaram o posto e num movimento que o samba explica muito bem, tornaram-se parte da agremiação, incorporam as cores do pavilhão como, Sabrina Sato (Vila Isabel, Juliana Alves (Unidos da Tijuca).
Temos as Celebridades da ocasião, que eu creio, sejam convidadas para emprestarem visibilidade à escola e correndo por fora temos aquelas que estão a catar um espaço na contramão disso: desejam usufruir da visibilidade que a escola ou o momento podem oferecer, coisa que pode ou não dar certo e carnaval, como o futebol,é uma caixinha de surpresas, onde tudo pode acontecer. Às vezes de onde se espera não sai nada e, da onde não se acreditava surge algo que se torna até representativo. No futebol o marketing pega carona no talento do jogador e pode elevá-lo ou até prejudicá-lo midiaticamente falando mas não existe propaganda que faça um cara jogar bem fora das edições de vídeos! Com as rainhas de bateria, muitas vezes a polêmica "é a alma do negócio" mas não as sustentarão em atividade por muito tempo. Depois da polêmica, ou ela cai no ostracismo e fica sem coroa ou demonstra seus valores e se mantém reinando. à frente dos ritmistas. 
E por falar em polêmica, ainda não se concluiu por exemplo se a rainha "tem que ter samba no pé" ou se isso não é tão essencial assim. A descrição do cargo não inclui esse pré-requisito. Vimos várias beldades que passaram pela avenida cumprindo bem sua função, colhendo o carinho dos seus súditos sem necessariamente sambar muito, sambar tudo, sambar o tempo inteiro para que ao longo do desfile todos possam saber o quanto ela é capaz nessa arte - o que considero um tanto ou quanto inviável, diante das funções que a desfilante precisa desempenhar. As duas correntes "tem samba no pé" e "não tem samba no pé" são defendidas com unhas e dentes, eu, particularmente acho que precisa sambar um mínimo que seja, mas o "samba no pé" eu espero é das passistas. Nas rainhas quero ver a elegância, a forma de se dirigir ao público, aos ritmistas, o trato com a comunidade, a maneira de se portar dentro da avenida e fora, em suas declarações, o respeito à agremiação, ao samba e à nossa inteligência. 

Luciana Sargentelli fez história na Estácio e comoveu o povo
Acho lindo as rainhas que declaram amor incondicional à escola e se mantem nela no ano seguinte e em outros,  enquanto for  permitido ou possível. É interessante ver o relacionamento entre elas. 
Acho esquisito as que são escola X desde criancinha e no ano seguinte milagrosamente, sonharam em desfilar na sua escola Y do coração desde bebezinhas. Tem moças que apelam para estratégias tresloucadas nas proximidades do carnaval, visando o posto  ou mesmo notícias, ainda que descartáveis e, como no carnaval quase tudo é descartável, sobram os valores do samba, da agremiação, que ão os pais dos desfiles no carnaval, isso sim,  eu considero imprescindível também nas rainhas da bateria ou, que pelo menos sejam profissionais que mantenham a ética, levando-se em conta que uma participação profissional nesse contexto possa vir a ser até mesmo um investimento e não necessariamente um job. 
E  aí, chegam-me  chegam  as  notícias vindas da Caprichosos Pilares, onde a atriz e apresentadora Antonia Fontanelle expõe uma negociação supostamente apalavrada com a presidência da escola citando inclusive valores. Esse "bafão" deu cliques para a moça, certamente renderá assuntos durante um tempo e poderá servir de tema para as suas entrevistas eternamente. Longe de julgar se está certa ou errada essa atitude, penso que é uma deselegância imensa e partindo para um julgamento, pergunto: se ela combinou 60 mil e "chegou junto" com 30, já está errada, porque faltou com a palavra. Resmungar pela pressão que diz ter recebido do dirigente da escola é feio porque passarinho que come pedras tem que saber... hum... como vai expelir as ditas pedras.  Mas consideremos que os 30 mil foram até bem empregados  por ela que conseguiu ser bastante notada (eu antes nem sabia de quem se tratava) e não precisará cansar a beleza desfilando.
Outra notícia que veio de encontro às minha elucubrações é a que fez,  referência à Claudia Leitte. Na mocidade desde o desfile de 2015, aquele que rendeu a piadinha que alguns amigos da Mocidade não gostaram, Claudinha, gonçalense de nascença, que fez seu nome a partir da axé music com e sem o grupo Babado Novo, atualmente no The Voice da TV Globo, apresentou nesse ano uma performance que eu não gostei. Achei ela muito "perdida" no enredo da função, fazendo coisas aleatórias ao seu cargo na avenida - como tomar o microfone das mãos de um dos intérpretes -  que nem se chegou a discutir se essa rainha deveria sambar no pé ou não. Mas é uma celebridade, trouxe visibilidade para a escola e foi isso que contou, afinal, não havendo critérios, vale a conversa entre as partes e, o que a gente tem com isso? Absolutamente nada. Desde que não comprometa o desfile, "segue o baile".
Patricia Nery, rainha da bateria da Portela há 4 anos
Eu sou do tempo em que o que tinha que ser visível e exaltado num desfile era o samba, tudo deveria vir girando em torno do enredo que o samba contava e os componentes cantavam. Praticamente todo o Rio de Janeiro sabia cantar se não todos os sambas que iriam para a avenida naquele ano, pelo menos, vários deles. O "CD das escolas de samba", era o presente de natal, de amigo oculto mais esperado, as rádios tocavam, os programas de TV davam vez, voz, espaço à corte real de cada escola pelo menos do grupo principal.
Mas hoje está diferente, o samba me parece um coadjuvante, uma vez que todos os entendidos no assunto desfiles de carnaval me contam que "samba não ganha o concurso", "samba não ganha carnaval", ainda assim me esforço para acompanhar a teatralização doesse momento do samba quando atores, cenário, direção e custo da produção são protagonistas.
A piadinha que fiz sobre a cantora, não envolvia o desfile, mas um ensaio onde ela colocou na conta do protetor auricular que usava a responsabilidade por alguma crítica que foi feita e hoje nem me lembro qual foi. Enfim, Claudinha seguiu como rainha, certamente esse ano a confusão que os enviados especiais da imprensa fazem à sua volta  durante o desfile poderá ser reduzida, pois que há novo alvo à vista: Em 2016, Anitta, cantora e musa do Funk vem como musa da escola de Padre Miguel, dão-me conta que a moça é da Zona Oeste e antes da fama já desfilou por essa grande escola que entre as contribuições para o carnaval, criou a vara duplicada para o tamborim e acho que o agogô de 4 bocas. 
Anitta, musa da Mocidade de Indpendente de adre Miguel sendo assediada no ensaio técnico










Durante o ensaio técnico, domingo dia 10, a nova musa Anitta, precisou ser resguardada pelo pessoal da Harmonia que não teve como cumprir a função de manter a harmonia durante o ensaio,comprometendo a evolução, formando "buracos" gigantes no ensaio do desfile da escola. Porta-bandeira e mestre-sala pararam para se exibir, a escola seguiu e o buraco se alastrou. A coisa virou piada na rede, surgiram vários memes. Carioca é gozador, mas todos sabemos que o assunto é sério! Que bom que foi durante um ensaio! Que mal, poise de certa forma o invalidou como um todo, tirando da agremiação a oportunidade de ver todos os pontos pertinentes durante a prática. Pessoal da Mocidade é competente, não é bobo e vai se precaver para que isso não prejudique a escola durante a avaliação. Ponto.
Claudia Leitte teve um tempinho para retocar a maquiagem e não sei se antes ou durante o ensaio, a foto é apenas para ilustrar a necessidade que uma rainha da bateria tem de um staff.

11 de jan. de 2016

ELEGÂNCIA

















Papel de vítima não cai bem pra mim
se for para ser assim, prefiro ser algoz.
Solto a voz, sim! 
Ninguém sabe o que vai dentro de mim
Não vou mais falar. Cansei de explicar
Explicar o que tem dentro da gente?
Cada um entende do jeito que sente.
Estou te apagando da minha memória
Cada um é prisioneiro de sua própria história.
Minha alma trago na palma da mão
Ela é porta aberta, errada ou certa,
Estou indo, partindo jamais fingindo
Nunca mentindo, menos ainda fugindo
Já atravessei o deserto,
Já estive longe, já estive perto
E aprendi que tudo passa
Até a dor que amassa.
Aceito a distância,
Não perco a elegância. 
Sempre foi assim, sofrer é a sua opção
FELICIDADE, tatuei com ferro em brasa no meu coração.

Carái, véi! Ensaio fodástico (incrível, fantástico) da 
‪#‎Portela‬

Vai chegando a hora, a gente vai enlouquecendo e descobrindo que tudo é pouco pra partir pra cima.
E ainda, Império Serrano. Eu não podia chegar aos 100 anos sem viver isso...
Se o meu coração resistir a isso tudo até, durante e depois do carnaval, nunca mais eu morro.

AMOR QUE NÃO DIVIDE

Todo mundo sabe que eu sou do samba de janeiro a janeiro. Não nasci nele, ele nasceu em mim. Depois que o samba me seduziu, não flertei com outro ritmo, não por uma questão de fidelidade que eu não sou cachorro, mas por lealdade que sou muito gente, principalmente naquilo que me faz mais humana: os defeitos, os erros, os "pitis", os destemperos. Há um quê de santidade em qualquer virtude e de santa, tenho muito pouco.
Dividida entre dois amores, sou completa, sinto-me inteira. Sou intensa e propensa aos exageros, às vezes até umas pitadas dramas eventualmente.
Sempre fui pela bandeira do coração, aquela que o faz bater e afirmo: Meu coração jamais parou. Respeito todas as escolas, reconheço o mérito e a contribuição de cada uma delas. O que me encanta nesse povo é que conseguem fazer a mesma coisa de forma distinta, imprimindo sua personalidade coletiva ao ponto de reconhecermos nos detalhes soltos, ainda que se mudem carnavalescos, ainda que os intérpretes, mestres sala e porta bandeiras migrem por esse universo colorido de sonoridade ímpar.
Tomei a decisão de desfilar e não sabia ao certo no que estava me enfiando. Ontem, domingo, 10 de janeiro de 2015, quase tive uma overdose de paixão, de entusiasmo e cores e pessoas conhecidas e desconhecidas. Acelerada não consigo dormir, não consegui colocar nos escaninhos correspondentes tantos sentimentos e pressinto que até o carnaval, não vou conseguir pensar em outra coisa. Mais Brasil do que nunca, carioca que sempre fui da casca, da clara e da gema, estou presa da minha carioquice.

CAPA DA SEMANA DO MEU FACEBOOK

Fernanda Honorato, Patricia Nery e Léo . Foto: Rozzi Brasil
Patricia Nery é a rainha da bateria da Portela desde 2013. Antes, ela foi musa por muitos anos. Antes de ser musa, ela desfilava por tudo que tivesse forma de fila indiana e batesse percussão por Madureira. Hoje ela é rainha da escola que mais campeonatos tem no Brasil, no mundo. Uma rainha muito querida, eu diria que, amada. 

Nunca a vi chegar à quadra da escola sem cumprimentar as pessoas uma a uma, não importa qual o cargo, função, tipo físico ou qualquer outro fator que se possa usar para descrever diferenciando alguém. Não importa, ela cumprimenta, oferece sorriso e tem sempre uma conversa de pé de orelha.

Sempre a vi posar  com a maior gentileza e alegria, para fotos com todas as pessoas que pedem, em fotos onde nem sempre ela, rainha,  é protagonista, coisa que ela dispensa em prol de ser igual, porque assim se sente. Quem cresce batucando em Madureira, não tem como sentir-se diferente ou melhor que ninguém. Ponto.

Ela é uma alegria, eu diria que iluminada. Ela é elegante ao mesmo tempo que espevitada. Sim, fui eu quem a chamei de rainha endiabrada, menos pela personagem que ela encarnou no seu primeiro dsfile como rainha da bateria da agremiação e mais, muito mais porque ela não sossega, é inquieta, roda todo o ambiente numa rapidez de deixar qualquer um tonto sem saber dizer onde exatamente ela está. Engraçada e divertida, já a vi séria e concentrada. 

Ela samba. Sim, ela samba e faz firulas que inventa. Vai de 0 a 2000 em fração de segundos. Qualquer coisa que eu ouça diferente tudo isso, não combina com o que eu venho presenciando ao longo desses 4 anos de convivência sazonal e, eu vou sempre acreditar no que vivo e vejo, até porque muitos falam tantas coisas - não necessariamente sobre Patrícia é claro, mas falam sem o menor conhecimento de causa. Esse, aliás, tem sido um dos males dos nossos tempos virtuais. As pessoas se protegem na garantia da distância, julgando-se anônimas e falam coias que muitas vezes não analisam, apenas repetem o que às vezes ouvem ou leem de quem não conhecem, sobre coisas que conhecem menos ainda. As pessoas hoje estão desinteressadas de elogiar e falar do lado bom das  pessoas. As pessoas estão muito sem piedade, sem gentileza, lutando por coisas mínimas para uma satisfação momentânea e virtual. Mas esse não é o assunto do dia. O assunto do dia, são as fotos  que consegui fazer meio que escondido, fugida da minha posição na ala. Esse o único inconveniente de estar envolvida com os ensaios da comunidade: não poder fotografar à vontade e por quanto tempo quiser. 

Voltando ao tema da prosa, Patricia Nery, sei que faz milhões de coisas na sua vida pessoal, estuda, trabalha e consegue estar na quadra em todos os eventos e em muitos fora também, mesmo aqueles em que é chamada em cima da hora. Não faço idéia como ela se vira para arrumar roupa, cabelo, unhas, maquiagem, acessórios no imprevisto, na correria. Sei que ela chega como se aquilo estivesse planejado desde sempre e dá-lhe sorrisos. Ouve com atenção e não é "sissi".

Tradicional como eu gosto de ser, acho essa coisa de rainha de bateria, totalmente dispensável, mas se é e está e, todas as escolas tem, fico feliz que na Portela tenhamos essa moça made in Madureira, que é uma grande pessoa e reconheço que tem a marca do portelense, aquela coisa boa e amiga, aquela coisa legal de portelense que o faz saber sempre um tanto de história da escola, do bairro dentre tantas coisinhas mais. Patrícia tem um carinho um carinho imenso com a galerinha da Portela e muita proximidade com os especiais, não à toa que em sua carreira profissional escolheu esse caminho.
Aqui na Foto com Léo, o menino águia e com Fernanda Honorato.