Mostrando postagens com marcador CINEMA. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador CINEMA. Mostrar todas as postagens

4 de ago. de 2020

1 ANO

 

Há 1 ano meu mundo se movia, se alegrava e se alargava. Eu que nunca fui de provar nada pra ninguém mas que sempre fui muito provada, provava pra uma parcela do mundo o que eu nunca soube de mim. Eu era tenaz e capaz. Eu consigo romper com o fluxo da minha natural indisciplina pra lutar pelo que eu acredito. Zona de conforto nunca foi minha praia

Eu consigo detonar toda a minha natural timidez e demolir a constituição da repressão que me impuseram por uma vida inteira.
Finalmente eu podia me orgulhar de mim sem arrogância, sem imodéstias só com justiça e verdade. 
Eu me descobria e me achava e gostava do que via e encontrava. Fui uma descoberta feliz! 
Não estava mais aqui a menina assustada e insegura. Ela passou, cresceu ou encolheu até sumir. Deixou sua doçura, agora que eu cresci e fiquei forte não mais é preciso afrontar, não preciso de força contra ninguém. 
O mundo, pode não parecer, é muito mais jeito do que força.

Vou me impondo naturalmente para quem assim quiser e saindo tranquilamente de onde não me encaixo ou não sou necessária.

6 de fev. de 2020

LEI DE INCENTIVO À CULTURA PARA QUEM?

 

Teste de som do curta Procuram-se Mulheres no Sesc Bauru

Quando eu era só produtora artística, era um nó na garganta, frio no estômago toda apresentação. De medo. Não era para ser assim. Quem vive da arte vive experimentando o medo, a indiferença, dormindo com gosto de caos na boca, mas acordando a cada dia com o sabor da esperança na saliva.

Os trabalhadores da Cultura, são sensíveis, não merecem além das incertezas de mercado, humores do artista, deslumbre dos agregados, ainda ter que conviver com o patíbulo do comportamento governamental.
Sabe por que?
O mercado da arte e da Cultura é dependente dos empresários, já que temos tido governos aristocratas de culturas importadas. Somos um país mestiço, amarrado a valores nórdicos, regidos por pessoas que não entendem o que é Cultura. Enfim, o governo lava as mãos, não acha que tenha qualquer obrigação com a Cultura do do povo de um país que lhe paga todos os luxos. Assim, não importa qual seja a lei de incentivo, sempre será um empresário que vai definir o que você assiste. E ele nunca vai escolher você, artista ou produtor suburbano, desconhecido por mais que você seja bom e mereça. Ele vai escolher um renome aclamado midiático famoso, que também não vai mamar nas tetas, apenas vai receber o cachê combinado. A única parte que recebe dinheiro de volta na Cultura é o patrocinador e ele não perde nunca. Ele não investe, ele bota o dinheiro que já tem pra girar tem como objetivo a exposição da marca, então leis de incentivo à cultura pra quem? Lei de incentivo às empresas.
Deixa pra lá.

15 de nov. de 2019

QUEBRADAS INTEIRAS, FILME

 

Último dia de set de filmagem de Quebradas Inteiras. Nada como o planejado mas tudo melhor que o sonhado. O filme que falaria sobre as mulheres com mais de 50 que vão se buscar nos estudos, de repente abrigou os 10 anos da 

Universidade das Quebradas, 
 , ameaça fugir da Academia, inundado que se encontra de ressignificação e afeto. É o estado de coisa que não tem preço, mas muito valor. Que a Deusa me guie!

18 de out. de 2019

FELICIDADE


 Vivo a felicidade de viver sempre onde as mulheres quando não são maioria, comandam! 

25 de ago. de 2019

PROCURAM-SE MULHERES BANNER 1

                           Fazemos nossas letras, criamos nossas melodias,                              compomos nossos sambas. Cantamos! O que falta?

22 de ago. de 2019

COMEMORAÇÃO PRÊMIO CINE PE PROCURAM-SE MULHERES


 E aí, o #procuramsemulheres beliscou um prêmio num festival que está dentre os 3 mais importantes do país e as nossas personagens e equipe técnica correram pro abraço, pra confraternizar, comemorar, papear, cantar. A vida é a arte do encontro, o cinema também é!

25 de jul. de 2019

UM FILME SOBRE MULHERES NO SAMBA QUE EXTRAPOLOU

Quando escrevi o argumento do Procuram-sem Mulheres
tinha em mente as portas fechadas, os talentos ocultos, preteridos e até rechaçados. Tinha também algumas curiosidades e dúvidas. Aprendi muito mais do que as entranhas do fazer cinema. Fazer esse filme foi entrar em contato com uma outra mente que a minha cabeça abrigava e eu desconhecia. A capacidade de resumir, de me expressar por imagens que se movem (eu, fotógrafa acostumada a congelar momentos), achar o ponto de intercessão entre a voz do outro e a minha necessidade de dizer.

Uma direção de filme escreve em imagens e atos aquilo que o roteirista organizou de um argumento que se tornou necessário expor na visão de terceiros. Complicado? Não. Foi fácil.

A grande viagem desse curta é ter conseguido em minutos abrigar vozes e experiências de muitas pessoas. No projeto original só três personagens teriam fala, no resultado final 6 mulheres falaram.
É como se o que essas mulheres dizem diluindo em letras e músicas assumisse uma outra linguagem a reboque da oportunidade.

Eu acho que Procuram-se Mulheres roubou a cena do samba e pôs na berlinda o drama que compõe não somente o samba mas tudo. Vida de mulher é dramática por menos exagero que se tenha. O filme extrapolou, se derramou, se esvaiu pelo vazio do impedimento do fazer, do cartão amarelo (às vezes vermelho) dado ao exercício dos talentos.
Uma mulher campeã e que não teve oportunidade de novos campeonatos;
Uma carreira interrompida que explode numa letra desabafo; 
Uma mulher tão acostumada à discriminação que só no contato com outras percebe o quanto foi discriminada em sua carreira artística. 
O samba que conta com delicadeza os xavecos da sambista
namoradeira que flui sem precisar mudar as letras o em a, sem mudança de gênero;
A alteração de destino da menina que escolhe percussão pela insistência de um professor de que cavaco não é adequado pra uma garota;
A análise cirúrgica, racional e sem a menor mágoa da cantora que o povo do samba não acolheu mas que sabe tudo de samba.

Eu fico olhando as imagens que não usamos, verdadeiros poemas de céu azul e luz perfeita de meio de tarde, elas seriam o respiro, mas esse curta não respira, ele documenta a falta de espaço e nele, elas aproveitam cada segundo que dispõem para falar e cantar e ainda se comover. 

O samba é um corte na alma, um talho no coração por onde se derrama talento em essência.
Parte do que se faz e tem sido feito sem levar em conta o reconhecimento não dado, porque as mulheres destituídas do seu matriarcado legítimo nunca correram da raia. 

Eu fico pensando numa história de amor que tirou uma pessoa da carreira musical e uma história de morte e sangue que devolve a capacidade de compor.
Depois disso tudo continuarei a procurar mulheres, eu sei, elas esperam por oportunidades.

tag

15 de jul. de 2019

Procuram-se Mulheres é selecionado para Mostra do Filme Marginal

Com muita alegria comunicamos que fomos selecionados para uma mostra bastante significativa: A 3* Mostra do Filme Marginal não é competitiva mas estar nela tem tudo a ver com a essência do #procuramsemulheres e todo contexto e ambientação que o gerou. "Sem revolta jamais haverá justiça"!
Conheçam mais sobre a Mostra e os filmes selecionados que vão excursionar por diversas cidades do Rio e também Salvador-BA
encurtador.com.br/ijpM5

27 de fev. de 2017

NÃO DÁ PRA CONFIAR NO IMPONDERÁVEL, NEM NO PODER


Sou muito respeitosa com as instituições exatamente porque sou passional entendedora que o mesmo coração que bate aqui bate em todos e tudo o que vive por isso ninguém está isento da paixão e nem todos sabem distinguir opinião de crítica; observação de julgamento.
Ontem após o acidente pavoroso de proporções dramáticas, as primeiras palavras que ouvi foram sobre o excesso de pessoas nas laterais da avenida durante as apresentações das escolas. Certo. Mas culpar as vítimas pelo desastre que sofreram é complicado. As vítimas mais graves estavam trabalhando. Todas as nossas orações e/ou vibrações positivas por todos os envolvidos e que os responsáveis pela realização do evento, principalmente das escolas de samba tenham discernimento na distribuição de camisas de diretoria.
Acidentes podem acontecer a qualquer momento em qualquer lugar, quem produz eventos tem a obrigação de não perder isso de vista e conduzir as providencias de modo a minimizar o que pode acontecer por menos que aconteça porque sempre poderia ser pior não se pode confiar no imponderável.
Confesso me sentir aliviada por não estar no Setor 1 na hora em que aconteceu, mas me sinto em choque por ter acontecido. Meu entusiasmo nublou.

24 de set. de 2016

AQUARIUS - FILME: O OUTRO NUNCA TEM RAZÃO


Acho que quase todo mundo já viu “Aquarius” (Kleber Mendonça Filho). Eu esperei porque não queria tanto ruído político, influenciando a minha percepção. Optei por tentar ver o que os meus olhos enxergariam e o que vi? Que se pode ser qualquer coisa desde que não sejamos exemplo do que somos. Aquele mosquito que assobia na orelha de quem planejou dormir e descansar.

Tivemos revolução sexual? Sim, tivemos, mas como foi incompleta! Se ela trouxe  à mulher o direito aos novos comportamentos, não permitiu a naturalidade  para exercitá-los.  A família vê as suas senhorinhas, tias tias mães, como seres assexuados e mais sobre isso não se fala. Só Tia Lucia  não deixa passar a omissão da revolução sexual dos anos 60, 70 no texto lido pelas crianças, mesmo estando nos anos 80, não se colocava na lista de feitos de vida de uma mulher o seu grande amor casado com outra, afinal tem crianças Amar um homem casado, não é um grande feito  e aquele aparador  rústico, cheio de histórias pra contar segue mudo pelo tempo. Poder pode, mas que fique no armário e como Tia Lúcia soube usar o tal armário!.

 Aquarius dá uma lavada na alma das mulheres maduras ou amadurecidas, mostra alguns (ou muitos) tipos de câncer que se tem de superar se não quiser ter uma etiqueta com um preço, bem ali o lugar do coração e dignidade e também o quanto está em desvantagem perante o mundo quem faz escolhas em desacordo com o poder:

 * A hesitação da mulher madura para utilizar um amante profissional -  um reflexo da cobrança da aura de santidade que a sociedade ainda espera que as mulheres apresentem.    
* Difícil exercer a sexualidade plenamente depois que o tempo passa e se há facilidade para conquistar uma mulher,
 há uma dificuldade para lidar com ela;

* A filha pentelha, onde a mulher é a maior crítica da mulher;

* A força da opinião de grupo que restringe a liberdade de escolha e descamba para as ameaças, dizendo com clareza
 que nem sempre a maioria significa democracia, que guiada pelos interesses pode ser muito autoritária;

* A expectativa de que sejamos sempre e integralmente aquilo que não descartamos por corresponder a uma parte – as jovens jornalistas não teriam como entender uma garrafa no mar sem a experiência de naufrágio, do mesmo modo que é difícil para a geração digital, amealhar as sentimentalidades que a parte material dos discos agrega às músicas.




Talvez eu esteja encontrando sutilezas demais,  no entanto nem acho tão sutis assim, apenas listei o  que não li em outros comentários.

Clara (Sonia Braga) é uma aposentada querendo curtir seus discos e livros no local onde construiu e viveu com eles sua história e isso não pode, porque aqueles que não tem tantas histórias, decidem por novas paredes. É complicado não encontrar conforto em nós mesmos, mais ainda quando todo o coletivo está a serviço das suas próprias individualidades. Se me perguntassem na saída do cinema sobre o quê é esse filme, creio que eu diria ser sobre o egoísmo em conjunto ou em separado, sobre o mundo nada ideal onde não há perguntas ou diálogo, apenas a necessidade de que se cumpra aquilo que vai favorecer ao jogador do lance imediato.

É interessante como a maioria ao seu redor é de homens. Não à toa o filme acaba com “pau sobre a mesa”. Pau ruído, mas dando trabalho.

29 de abr. de 2016

CINE LEMBRANÇAS


Não sou cinéfila porque nunca consegui reter na memória tantas informações que os cinéfilos conseguem. Pré-adolescente, com uns 12 anos os cinemas tinham sessões duplas e eu amava! Quando surgiram as salas múltiplas, aos sábados, eu ia lá para a Dagmar da Fonseca e via até 4 filmes por dia.
Ficavam na minha memória a história os atores e o diretor, no mais, só o impacto de uma bela fotografia ou trilha sonora. Era assim, minha memória oficial não tinha muito espaço, mas a emocional já trabalhava com gigabytes.
Tinha amigos cinéfilos que eram úteis à beça! Era só citar uma vírgula e eles exibiam orgulhosos toda a ficha técnica mais algumas biografias. Eu tinha orgulho desses amigos por mais que a minha turma da música os chamassem de metidos. Sempre achei lindo quem acumula conhecimento do que ama.
Mais velha, passei a frequentar cinemas de rua que eu gostava muito mais que os de galeria. Quando chegaram os shoppings, eu me ressenti da ausência de charme desses em relação às galerias. Com a queda do império dos cinemas de rua, a minha voracidade me empurrou para esses monstrengos de lâmpadas claras e burburinhos bobos, mas o papo sobre o filme tinha que ser num bar, lanchonete, restaurante qualquer coia bem distante do shopping.
Um dia, na porta, acho que do Metro Boa Vista, aquele que tinha ali no passeio, uma prostituta, "me deu maior decisão" porque eu estava parada bem no ponto dela. Minha cara de susto e medo foi tamanha que ela ficou amiga e quando o filme era legal, assistia comigo. Não dá pra amar shoppings com as histórias de rua que tenho pra contar.
O ritmo diminuiu muito, só no Festival de Cinema do Rio me aventuro numa maratona. Quase sempre estou em atraso com os lançamentos.
Quero ver Truman por tudo e muito mais pelo Darin. Não sou cinéfila por incompetência, mas sou ainda cinemaníaca com alguma eficiência.

28 de jan. de 2016

UM DOCUMENTÁRIO ESCLARECEDOR

Cidadão Boilesen - Um dos Empresários que Financiou a Tortura no Brasil


Policia Civil e Militar sob a regência do delegado Sérgio Paranhos Fleury, líder do Esquadrão da Morte (um grupo que eliminava sumariamente "marginais") de onde trouxe sua "metodologia",  compuseram a Operação Bandeirante ou OBAN em São Paulo (o projeto piloto que resultaria no Doi-Codi). 
A Oban era uma organização (ilegal) financiada por empresários, para matar pessoas, "combater a subversão", eliminar a esquerda, se desfazer dos "trapos vermelhos do comunismo" com finalidades nada patrióticas de preservar e aumentar seus lucros, como brinde, convidava os empresários para assistir às sessões de tortura - uma comprovação dos seus "investimentos"

Assisti  esse filme no youtube, que em trouxe uma reflexão que eu não havia feito antes, sobre os militares "manipulando" a classe dos empresários através do amedrontamento, buscando além do patrocínio , adesão. Caiu-me a ficha que mudam os atores, mas o drama só ganha uma repaginada que o adapta à modernidade.
Um documentário esclarecedor para aqueles que acreditam que nunca tivemos ditadura.

1 de nov. de 2013

Pré Flores Raras | Lotta 1

O Aterro do Flamengo, espaço de lazer, esporte e deslumbre visual tal qual conhecemos, poderia ser algo assim, por exemplo, como aqueles canteirinhos safados que dividem as pistas da auto-estrada Grajaú/Jacarepaguá ou a as margens dos rios urbanos de Sampa.  Isso não aconteceu por iniciativa de uma mulher que idealizou transformação dos  7 km de aterro das  margens da  via expressa que ligaria a o Centro à Zona Sul num espaço de lazer que aí está  até hoje. 

Lota Macedo - Maria Carlota Costallat de Macedo Soares, filha do militar Macedo Soares, hoje, nome de escola  em Olaria, foi convida por Carlos Lacerda a trabalhar no projeto do Aterro do Flamengo, sua idéia excelente foi cobiçada pelos burocratas da época, que fingiam desdenhar  e a menosprezavam por   lhe faltar diploma.  Sim,  para os burocratas tacanhos diploma pode significar competência, uma competência que não lhe faltava  na mesma medida que lhe sobrava personalidade e ousadia criativa. 

Entre 1951 e 1965 Lota Macedo  viveu, por 15 anos, assumidamente  com Elizabeth Bishop, sim, aquela mesma dos poemas. Uma Elizabeth Bishop que as amigas de Lota acusavam de arrogante, por confundir  timidez da moça com arrogância. Também faziam pouco dos seus versos que receberam em 1956 o prêmio Pulitzer Prize. Em 1960, muitos de nós ainda não tínhamos nascido e Lota trabalhava no projeto do Parque sem receber nenhuma remuneração (não tinha diploma, lembram?) e Elizabeth Bishop viajava pelo Brasil fazendo reportagens para a Time-Life que resultaram no livro Brazil.


Essa história já contada por Carmem Lúcia Oliveira no livro “Flores Raras e Banalíssimas”, chega aos cinemas em 16 de agosto. Num momento em  que ainda há tantas mulheres disfarçando com baton a sua vontade de dirigir um caminhão, sentindo-se culpada por amar dessa forma e mentindo para si mesmas que não estão se escondendo, apenas tomando cuidado. Acho interessante essa história de amor entre mulheres num tempo em que o preconceito era tão forte que  nem mesmo a posição social elevada  de Lota e seu prestígio junto ao governador do estado da Guanabara, Carlos Lacerda, conseguiam fazer com que fosse olhada com respeito por seus pares de trabalho ou mesmo pelas amigas próximas a falarem mal de sua amante, que logo seria considerada uma das maiores poetas da Literatura Inglesa. 

O filme teve dificuldade para a captação de recursos, e coube ao diretor Fábio Barreto mexer no próprio bolso para viabilizá-lo, pois que os patrocinadores não queriam ligar sua marca à homossexualidade. Segundo ele, o filme que retrata o relacionamento da urbanista e arquiteta autodidata brasileira com a poeta inglesa nos  anos 50/60 “não é um filme de amor gay”, mas um filme sobre a “perda”, o que na minha opinião, como diria minha avó “acaba dando na mesma”.



Bem, Elizabeth teve seu centenário em 2011 comemorado pelo mundo todo enquanto que Lota Macedo não tem sequer uma plaquinha no parque que idealizou e pelo qual trabalhou sem nada receber, coisa para quem pode e para quem real e indefectivelmente ama. Resultado de uma conveniente falta de memória e recorrente ausência de reconhecimento.

 E,  lembrando que o filme Crô, personagem vivido por Marcelo Serrado na novela Fina Estampa, encontra a mesma dificuldade de patrocínio.... É  a mesma velha conhecida hipocrisia que ainda leva algumas conhecidas a formarem casais improváveis com meninos com os quais  jamais transariam, hipocrisia brasileira onde nosso dinheiro serve e sofre o assédio midiático, nossa companhia divertida e arrasta alguma multidão, mas não somos bons o suficiente para sermos levados a sério e recebermos incentivos, muito menos, reconhecimento. 

Toda liberdade e liberalidade brasileira pode estar expressa nas frases da personagem de Antônio Fagundes na novela da 21:00: “Eu não tenho preconceito, mas filho gay, eu não quero!” e  “Entra, volta pro casulo!”

Enquanto alguns já morreram,  tem gente apanhando para garantir o sossego das jovens senhoras que se sentem mocinhas a fingir que penas brincam de casinha com aquela menina com jeitinho esquisito....



AGOSTO – MÊS DA VISIBILIDADE LÉSBICA
Texto publicado na Revista S! em agosto de 2013, coluna Vida Urbana


Para que serve uma lésbica? | Lotta Macedo Soares

O maior castigo que um ser humano pode sofrer é o desprezo e o esquecimento.  Aturamos ser odiados e caluniados porque podemos nos defender, xingar de volta , processar e de certa forma lucrar com isso. Mas como reagir diante do desprezo e da indiferença?
Nossa sociedade machista tem o dedo em riste, pronto para acusar e  para deletar pessoas, desde o tempo que a informática ainda não existia, não obstante que o acusado tenha  feitos e valores, principalmente no que diz respeito à mulher.  Pequenas sutilezas que ampliam uma inverdade até transformá-la em verdade absoluta.
Sobre Lota Macedo Soares,  é dito que  era uma autodidata e isso, se por um lado releva o seu talento para a Arquitetura, pode lançar dúvidas sobre a sua competência. No entanto a moça filha de brasileiros, nascida  em Paris que veio para o Brasil com 5 anos de idade, “começa a ter aulas de arquitetura com Carlos Leão e em 1935 entra para o curso de pintura na Universidade do Distrito Federal, ministrado por Cândido Portinari”.
Ok, que isso não lhe concedeu diploma, mas não justifica a total omissão do fato de ter estudado.
Lotta  teve  “um relacionamento diário com Enrico Bianco, Burle Marx, além de vários outros artistas e intelectuais. Produz um work shop com Mário de Andrade, em 1937, participa com Portinari dos afrescos do atual Palácio Capanema, marco da arquitetura modernista, onde compartilha idéias com Lúcio Costa, Carlos Leão, Oscar Niemeyer, Affonso Reidy, Ernani Vasconcellos e Jorge Moreira”.


Entre o exílio do seu pai e a transferência de todos os  seus bens  para o nome de um amigo a fim de que não fossem seqüestrados pelo governo,  fato  que gerou o desentendimento familiar entre eles,  essa mulher de temperamento marcante, viveu abertamente a sua orientação sexual, viveu tórridos  romances, protagonizou por 15 anos um triângulo amoroso, mas foi a sua paixão pela arquitetura e o ideal  de  transformar o Parque do Flamengo num a área de cultura que o Brasil ainda não tinha, que mudou o curso da sua história.


Não  tivesse abandonado a casa de Samambaia, onde de certa forma recuperou o psicológico detonado de Elizabeth Bishop,  não teria necessitado da assessoria de Mary. Poderia ter vivido muitos mais anos da sua vida feliz no paraíso de Petrópolis, com Elizabeth Bishop sob controle.
Alguma coisa na vida do ser humano precisa dar certo para que ele tenha um mínimo de felicidade e vontade de viver.
Elizabeth  sentia-se sozinha em Petrópolis e veio para a capital, voltou a fazer do álcool companhia;  a falta de tempo de Lota que se dedicava ao trabalho, os ciúmes de Elizabeth por Lota conviver  constantemente  com sua ex que lhe assessorava,  as incompreensões e ataques dos políticos e burocratas de plantão da época  ávidos por  se apropriarem  da obra da vida de Lota,  mais um cenário político conturbado e disputas em família pela herança doada pelo pai, tornaram-se uma combinação por demais explosiva para aquela mulher que como qualquer um, ainda que sendo forte e decida tinha suas fragilidades.


Um pecado do filme Flores Raras, que segundo o seu diretor, trata das perdas, foi exatamente deixar de mostrar com nitidez outras perdas de Lota Macedo Soares. Focando a narrativa no relacionamento dela com Elizabeth, apenas situando historicamente seu empenho e não mencionando  a impossibilidade que assinasse a obra da sua vida.
Elizabeth Bishop, poeta inglesa teve  amplamente seu centenário comemorado no seu país. No Parque do Aterro do Flamengo, não existe uma placa sequer mencionando que Lota, sua criadora também deveria ali ter suas comemorações. 


Lota Macedo Soares e repito esse nome quantas vezes aqui seja possível, foi uma personagem varrida da história, como um mal, num tempo que nem mesmo dinheiro, berço, cultura, talento, eficiência eram suficientes para tornar uma mulher visível.
No nosso cotidiano vemos essa história se repetir, é como se uma mulher nunca fosse boa o suficiente se não estiver pronta para consumo e uma lésbica ocupasse na hierarquia da nossa sociedade os degraus inferiores, não obstante seu talento e capacidade, pois se as mulheres hoje são vistas como mercadorias para consumo, afinal para que serve uma lésbica?

Se as mulheres exigentes e ciosas do seu trabalho, são taxadas de mal amadas e mal comidas, se as feministas recebem o rótulo de feias, mal amadas e mal humoradas. Se começa a ser percebido algo de errado com as meninas que não fazem os  tais “quadradinhos de 8” (ou qualquer algarismo que seja) e se não há contextualização ainda que equivocada para as lésbicas, num mundo onde mesmo o entretenimento do segmento LGBT, só visualiza os sexo masculino, onde gays são  notórios por suas habilidades em algumas profissões ou simplesmente pelo estereótipo de ser o melhor amigo da mulherada, a diversão dos programas humorísticos, a diversão da galera.
Para que afinal, serve uma lésbica, ciente, determinada e jamais embalada para consumo?


Publicado em Outubro, 2013 na Revista S!, coluna Vida Urbana por Rozzi Brasil

24 de out. de 2013

SERRA PELADA (2012) Heitor Dhalia

Serra pelada de Heitor Dhalia é um filme incrível. Incrível as reconstituições, figurinos,  os cenários,  com montagem perfeita  com perfeitas as inserções de imagens reais da época, incluindo os noticiários, fotografia, edição e o roteiro amarra muito bem o drama das personagens  fictícias tão reais e para a minha alegria no final uma cena feliz!

Eram garimpeiros mas poderiam ser jogadores de futebol ou qualquer outra profissão que possibilitasse a realização dos sonhos pela posse repentina de muita grana e o acesso aos caminhos do poder.
A narrativa em primeira pessoa  feita pela personagem Joaquim (Juliano Andrade) coloca a gente dentro do espírito das cenas que se sucedem possibilitando  que nossa  percepção vá  além da ação, deixando o filme longe de ser apenas um filme de ação.
Amigos de infância fracassados cada um a seu modo,  Joaquim e Juliano (Juliano Cazarré) vão à corrida do ouro. Juliano não tem família, é  boxeador de apostas e foge de uma dívida com um agiota que o ameaça. Joaquim é professor  que fica desempregado, com mulher grávida e decide que seu filho será rico. Um é grande e forte o outro magro e mirrado. Poderia ser uma dupla tipo Master and Blaster  de “A máquina mortífera”, mas o fortão da história decide pensar , descobri que tinha talento e gostava de matar e dar asas às suas ambições.
O ouro transforma Juliano  e o sonho não abandona Joaquim. Se a sede de poder  traz para Juliano  a liberação de seus instintos opressores e assassinos,  onde o ter sobrepõe a outros valores, é a fidelidade a tônica de  Joaquim. Fiel ao amigo, fiel ao projeto de enriquecer para o bem de sua família. Juliano se integra perfeitamente ao ambiente violento, torna-se personagem do faroeste caboclo que era Serra Pelada, uma terra onde a lei era a força, tirania e corrupção.
O filme de milhares de figurantes é enxuto focando poucos personagens, enfatizando no drama de cada um em detrimento de entrar em aspectos históricos da loucura que foi tudo aquilo e o contexto político da época.  O que não deixa de explicar os jargões locais, a estrutura da exploração e venda  e o seu domínio tomado  pelo governo militar com mudanças das leis do garimpo que passou a  ser oficialmente o único comprador de ouro, proibir a presença de mulheres o que “privilegiou” os homossexuais – chamados Marias  (que com a chegada da AIDS foram expulsos do garimpo) armas e bebidas alcoólicas o que não evitou  as bebedeiras, prostituição,  tiroteios e mortes  transferidos para 30 km adiante. 

Juliano e Joaquim prosperam e tornam-se proprietários de um pequeno barranco tornando-se prisioneiros da febre do ouro, num mundo onde se busca e encontra riqueza, mas não há nenhum interesse em  se tornar mais civilizado.

 O barranco desperta o interesse dos donos de vários outros e Juliano resolve a situação à moda local. Um deles é  Carvalho (Matheus Nachstergale), mantenedor de Tereza (Sophie Charlotte)  com quem Juliano irá se envolver. 
 O outro é vivido por um Wagner  Moura calvo e carismático, gângster e até engraçado, num papel menor mas de muita importância na trama.

Wagner interpretaria  Juliano mas devido à proibição de gravar no local e a necessidade de se recriar todo o  ambiente atrasou e  impediu o ator de interpretar esse papel,  tal qual  Daniel Oliveira que daria vida ao Joaquim.
Esse é um filme que vale a pena ser visto e sua beleza justifica os 11 milhões da produção eo os quase 5 anos que Heitor demorou para concluir o roteiro. Uma obra de arte.
Nota: 9

25 de ago. de 2013

Memoria semanal de uma cinefila distraida 1 - FLORES DO ORIENTE

Fui atropelada por Flores do Oriente (Zhang Yimou , 2012). Numa fase de vida que tudo descomplica, focada em ângulo reto para uma semi-nova atividade profissional, atraída pelas sempre perfeita e exuberante fotografia dos filmes do diretor chinês, lá  fui eu, num  feriado chuvoso, religioso e deveras frio pro Odeon Br (Cinelândia - Centro- RJ),  que nos feriados não abre seus  preciosos espaços terceirizados (imagino eu) privando os clientes do conforto do bebida quente ou da birita gelada e agraciando os mesmos com o pleno desconforto de um banheiro que só se pode usar durante ou após a sessão, isso porque o funcionário que libera a entrada, verifica o bilhete é o mesmo que cuida para que nenhum retardatário permaneça para a sessão seguinte... 

E pensar que eu desprezo do fundo do meu coração os cinemas de shoppings, apenas por estarem dentro de um shopping... Bem feito pra mim! 


Pois bem, animada com o diretor que gosto pela exuberância das suas cores, incentivada pelo comentário de uma amiga no Facebook, sem ler nenhuma resenha previamente, embalada pelo lirismo do nome traduzido, temerosa de que a insistente chuva tornasse mais uma daquela enchentes cariocas, decidi encerrar minha tarde no cinema mais próximo. Gostei do filme, mas não o suficiente para aprovar sua duração, não precisava ser tão longo, período em que passei pela  aflição, tensão e cheguei a desespero, coisas que sp filme baseados em fatos reais são capazes de fazer com os meus nervos.



Existem 2 gêneros de filmes que não assisto nunca: Filmes de guerra e de escravidão. E eu tinha que parar  justamente num cinema com um filme sobre o "massacre de Nanquim", num dia de feriado santo quando tudo o que eu sonhava era me distrair. Tarefa inútil diante da narração de um fato que não adianta torcer, o herói não vai vencer! A leitura retardada das críticas me fizeram compreender que toda profissão/função tem seus truques e atalhos e, certamente críticos de cinema não devem ser diferentes ou não encontraria explicação para tanta frieza nos comentários.Concordo que as personagens são esterótipos, que o longa se ocupa de um fato com desfecho conhecido e já outras vezes retratados na telona, mas nada disso impediu-me de ter  coração acelerado nas cenas de perseguição das mulheres e crianças para serem mortas ou estupradas. A burocracia apontada pelos críticos não me tirou o ímpeto de torcer pelo oficial sobrevivente nem abrandou minha decepção com o seu destino.

Zhang Yimou, imagino, dirige para o público, arrebata-o e o seduz com suas ambientações precisas, com suas cores envolventes onde a direção é o filme e os atores compõem a história que a câmera, suas cores e movimentos contam.
Pelo meu momento pessoal,  saí do cinema satisfeita com o filme,  mas triste por uma história que não deveria jamais ter sido verdadeira, sentindo que não fui feita, como boa cultuadora de super heróis ainda que animações,  para histórias pouco generosas com os mais fracos...


10 de out. de 2012

ESPELHOS MÁGICOS

Dificilmente algum outro me toque tanto quanto "Espelhos Mágicos" de Negar Azarbayjani. 
Fotografia limpa, musica eficiente, sempre acho o drama dos filmes iranianos são acentuados pela musicalidade dramática do sotaque.
Um tema improvável, abordado com tanta sensibilidade que vou dormir sonhando que a atitude dos ingênuos, a pureza da convivência de infância pode sim, mudar destinos.
É exatamente a diferença que nos iguala.
Desde os Filhos do Paraíso, priorizo os iranianos, seus rostos lindos, seus véus que transmitem mistérios.
A descrição do estado de paixão nunca me pareceu tão perfeita, por identificação pessoal e a angústia da inadequação de um transsexual, sua falta de espaço, crise de entendimento, vagar por um nada repleto de tudo...



Titulo Original: Aynehaye Rooberoo / Titulo em Inglês: Facing Mirrors

Direção:Negar Azarbayjani 
Roteiro:Negar Azarbayjani, Fereshteh Taerpoor 
Elenco:Shauesteh Irani, Ghazal Shakeri, Homayoon Ershadi, Nima Shahrokh Shahi, Maryam Boobani
País:Irã / Alemanha - 2011 Duração: 102 min

23 de ago. de 2012

Para Roma Com Amor - De Woody com Humor

Ou... Deus está brincando

Eu ainda não falei de Woody Allen, mais especificamente do filme Para Roma com Amor. Como é gratificante ver a imagem do velho diretor na telona, exatamente com o mesmo espírito do Homem dos Seus Sonhos só que apavorado ao enfrentar a turbulência!
No mais, Woody continua brincando na posição de filósofo que, cansado de não ser compreendido, ri e faz rir.
Se eu fosse um daqueles repórteres caçadores de celebridades sentir-me-ia aborrecida com o deboche da cena em que eles tal qual um enxame de abelhas trocam de colméia, fabricando celebridades.
São quatro histórias contadas simultaneamente sem que se cruzem, aproveitando-se da famosa gestualidade e vozerio italiano, mostrando paisagens turísticas como plano de fundo, onde a humanidade tem mais destaque do que a estética dos monumentos. 


Para Roma com amor, é um filme de amor que tem o que mais aprecio em filmes: finais felizes! A vida que segundo a personagem de Alec Baldwin "não perdoa" foi bem generosa para todos do longa.Saí pensando que do amor, o filme conta da nossa incapacidade de ser fiéis a certos princípios que nem são nossos.
A mocinha pura que não era virgem ao casar-se - que se encanta com o ator coroa - mas deita-se com  o ladrão bonitão. 
O pai que não quer a filha casada com um homem de família humilde mas que com ela passa conviver bem quando se tornam solução para seu problema - ocupação após aposentadoria. O arquiteto bem sucedido que se encontra com aquele que ele foi um dia, na figura de um jovem que se deixa seduzir pela periguete amiga da sua namorada que, disfarçada e cheia de princípios nos arremessa a pérola:
 "Trair na casa da amiga não pode, mas me comer no carro, não tem nada demais". Um deboche com aquelas que enlouquecem de amor a cada verão é a cena quando ela louca de amor e ele já largando a namorada oficial recebe uma chamada para trabalhar num filme,  preocupa-se com o seu cão e nem lembra que estava prestes a tirar da amiga o namorado. 
O tímido desastrado que não consegue se impor, zela pela imagem e na cama é uma beleza de agradar prostituta. O sarro com os  produtores criativos e suas inovações, para estimular os talentos incompletos. O talentoso cantor de chuveiro que tem vergonha de cantar em público e nenhum pudor de levar seu banho para os palcos, são coisas realmente para quem "pensa fora da caixinha". Nada passa incólume pelo crivo sarcástico do deus Allen, que nunca brincou tanto de Deus quanto nesse filme.Somos contraditórios e quando o assunto é amor, o maior amor do mundo é aquele que nos ama!Não gostar desse filme é sinal de que não se entendeu a piada, nada mais depressivo do que pessoas que se levam a sério e esperam que a genialidade lhes tragam a calmaria cognitiva de um filme catástrofe. Catastróficos somos nós, de roteiro em punho deus morre de ri dele mesmo e da sua criação.

21 de mai. de 2012

Paraísos Artificiais

Paraísos Artificiais decepcionou. Nunca um longa nem tão longo me pareceu tão comprido,  Exceção para a fotografia e a direção nas cenas de sexo. Bem feitas, reais, intrigantes sem passar pelo pornográfico. Natália Dill, sempre há que ter uma bela mulher para que o paraíso não esteja de todo perdido...

Raul Seixas: O início, o fim e o meio (Raul Seixas, 2012)

É o melhor documentário já feito sobre a vida de uma pessoa pública. Saí do cinema sabendo sobre a vida do artista, entendendo o que eu pensava que já sabia antes e, azar o meu, se o filme não me fez compreender o que antes já era incompreendido: O que afinal caracteriza os geniais? A loucura? O inusitado? O Brasil abriga um incontável amontoado de talentos, alguns geniais, no entanto inverter a trajetória do nosso cometa, não depende de nós... Como brinde, o filme oferece muitas imagens bacanas, personagens e personalidades que fizeram parte da vida do compositor. O documentário passeia pela ditadura, tropicalismo, festivais. Raul Seixas não viveu, aconteceu! Colocou imagens e coração numa trilha sonora que já veio com ele, uma cena rock’n rol de 44 anos de duração. Raul em essência era sua própria sua música concreta nas melodias que embalam nossa realidade.
Era uma vez um homem, suas muitas mulheres e muitos vícios que se lhe deram prazer, afastaram-no da felicidade, essa felicidade careta que muitas vezes fazem nossos sonhos existirem por mais tempo. O vício em “todo tipo de droga, menos maconha  -  que de maconha ele não gostava" - com ênfase no álcool era a trilha para o final da linha para os romances de Raul, menos um: o seu  primeiro casamento com Edith, a namorada de adolescência . Esta, ao ser "abandonada" enquanto Raul ia ali até Brasília ficar com Glória, a irmã do seu guitarrista, foi embora, voltou para o seu país, levando a filha do casal e nunca mais esta família voltaria a se reunir. Raul passou a vida remoendo tristeza e arrependimento por este ato, por esta perda.
Ninguém conseguia acompanhá-lo nas suas intensidades ‘tóxicossociais’, nem mesmo o guru satânico que depois viraria mago, não sem antes lhe apresentar às maldições nas suas mais variadas formas. Fiquei a pensar na generosidade desse baiano magrelo que ensinou “o mago” a fazer letras de música e em troca, com ele aprendeu a se decompor biodegradavelmente em frascos e ácidos.
Raul era doce, duas de suas antigas esposas afirmam que ele tinha um cheiro doce. Uma fala de forma romântica a outra, objetivamente atribui o cheiro e o sabor à diabetes do músico. É fato que aquele homem nem tão belo assim, muito magro, cabeludo e bastante doido era tão verdadeiro no seu sentimento, que conseguia manter consensualmente romances simultâneos com suas “atuais” e “ex”. Nesses depoimentos  a platéia se acabava de rir... da situação dos triângulos amorosos consentidos pelas partes envolvidas. Como a caretice é prejudicial à felicidade que aparentemente preserva...
O documentário é muito comovente, rodado entre Bahia, Rio, São Paulo, Estados Unidos, Genebra. A equipe fez o trajeto da diáspora  Raulseixista. Mostra o fã dono do mítico baú e suas preciosas relíquias, que  se tornou amigo do astro, carregando-o embriagado quando era preciso sem perder a admiração. Descobrimos que o “Trem das Sete” teve uma dona e  hoje  é de todo aquele que acredita que amor, atestado de garantia e certificado de posse são as mesmas coisas...
Raul tem um neto que é sua xerox, mas o moleque mora no exterior e não falou sobre o avô, que pena. A filha mais velha tem mágoa do pai, não gravou depoimento, mas escreveu uma carta; a segunda filha é uma gracinha, mas é a filha “brasileira do Brasil” – as outras moram na América do Norte - que dá show de orgulho de ser filha do maluco beleza. Viu como o documentário é bom? É como uma reunião de amigos, parentes e agregados em torno da figura do mito tão trágico quanto divertido.
Saí do cinema aliviada com as palavras do Marcelo Nova: “Ele fez 50 shows! Morreu fazendo o que gostava, cantando! Não morreu esquecido, nem anônimo num quarto escuro”. Marcelo Nova: Parabéns! Obrigada! Mas e agora o que eu faço com a sensação de que não devo ser tão genial quanto pareço, porque não sei ir tão fundo naquilo que dá celebridade aos imortais? Ser careta é meu atestado de mediocridade? Fiquei me sentindo uma roqueira de subúrbio. Daquelas que assistem ao show pela TV da barraquinha de hot dog atrás do Madureira Shopping, que antes de sair de casa lava e passa a camiseta preta com frases em inglês... Se você entendeu que a celebridade dos imortais está nas drogas, esclareço:  O que dá celebridade aos geniais, é a coragem. Coragem de se arriscar e até de perder. Perder afeto, mulheres, a convivência com os filhos, ver os amigos virarem-lhe a cara e negar-lhe oportunidades. Por mais que digam que a vida é escolha, acredito que para escolher há que se ter opções e, onde estão elas quando não vemos o que escolhemos? O esforço pra ser “um sujeito normal e fazer tudo igual“ não é escolha. Aprender a ser louco é dom! Somos apenas criaturas seguindo o caminho que os olhos enxergam. Cumprimos nosso destino.
Com Claudio Roberto - Paulo Coelho - Marcelo Nova

Era destino  de  Raul seguir sua carência, se entristecer a vida inteira por um ato que não resultou no que ele possa ter imaginado. Sua incapacidade de viver só, sua pancreatite regada pelo álcool que ele nunca conseguiu deixar, ainda que tivesse conseguido parar com as drogas ilícitas. Sua falta de vontade de viver e a falta de crédito para que voltasse a gravar definharam sua saúde, mas nada disso se compara ao vigor da sua obra eternizada, passando de geração em geração ainda que muitas das suas mensagens não sejam imediatamente captadas, são seladas, carimbadas, se pra gente voar. O destino de Raul foi ganhar essa legião de tipos, diferentes dele e entre si. Em comum os olhos úmidos na saída do cinema, porque a gente viveu ao menos pelo tempo de uma música,  Raulzitamente.
Ah, a mim pareceu que e o Paulo Coelho matou a única mosca de Genebra...