Era um dos melhores restaurantes do bairro, a decoração era um tanto rústica, a comida excelente e servida em quantidades generosas, sempre bem cheio quase sempre com fila de espera na porta.
2 de set. de 2021
A PROPOSTA
Era um dos melhores restaurantes do bairro, a decoração era um tanto rústica, a comida excelente e servida em quantidades generosas, sempre bem cheio quase sempre com fila de espera na porta.
26 de ago. de 2021
QUE A TERRA LHE SEJA LEVE
Há muitos anos tive um chefe que era o dono da empresa, eu tinha 23 anos e ele, uns 42. Certa vez ele me deu uma cantada em grande estilo. Foi mais ou menos assim:
12 de ago. de 2021
A PRESSA
Como se não bastasse, enquanto civilização, não termos uma postura decente em relação à morte; Sermos hipócritas ao ponto de tentarmos viver por aqui como se fôssemos merecedores do paraíso e juízes do merecimento ou não do outro a ter de uma vida digna.
5 de mai. de 2021
HUMILHAÇÃO
Não tenho mais pranto. Não me cabo de revolta que me instiga mais e mais dores.
Nessa pandemia passei o constrangimento de pedir dinheiro para amigos. Quase fiquei sem teto, fiquei sem luz algumas vezes e internet também. Hoje meu coração dispara cada vez que vejo um carro utilitário com escada. Cada laive que entrou no ar com a minha participação foi fruto de uma certa prostituição psicológica que negociei comigo mesma, pedindo aos amigos a chance de não me deixarem desaparecer numa espécie morte social. Dizendo pra mim que eram pessoas de confiança que não me dariam migalhas e ainda sairiam falando como é o normal e vejo muito acontecer na Casa da Vida - Voluntariado Quem menos contribui é quem mais valoriza a contribuição parca e inferioriza nosso trabalho. Foi experimentar um pouco de alguns lugares como o malabares "dos dimenor" nos sinais de trânsito;
a mãe com criança no colo pelas calçadas e ruas da Lapa;
a vendedora de bala na noite pirada.
Tudo isso porque trabalho com Arte e Cultura.
Então quando o Paulo Gustavo caiu com convid19, não tinha como imaginar que sua juventude (que eu não tenho mais), sua possiblidade econômica de tratamento (que eu nunca tive) não pudessem salvá-lo.
Eu rezei, sim e com a certeza que tudo daria certo porque ele tinha o melhor tratamento, a juventude e muitos motivos para lutar como uma garota, como uma mãe, como um pai de verdade.
Alguns dirão: desígnios de deus.
Desculpa, mas deus jamais designaria um político antivacina como desígnio. O desígnio de Deus é a Vida e não a morte que está no nosso encalço com alvará e incentivo do genocida que lidera país.
Amorte do Paulo Gustavo me fez cair a ficha dos tantos que perdi e não deu pra chorar porque tive que fazer lista pro enterro, porque tive que me manter fora do alcance de ter que ser enterrada também. E agora é por todos os meus e todos os nossos, pelos muito mais de 4mil e por esses mortos em vida que vivem hierarquizando os que podem ou não viver.
Eu vou me manter em casa o tempo necessário após a segunda dose. E não importa se tiver que ficar no escuro e sem internet. Não importa nem se ficar sem casa pra ficar.
Não há como prever o que nos acontece ao pegar essa doença e eu não tenho estrutura pra sobreviver a ela e não posso morrer logo agora que descobri o que é viver
29 de abr. de 2021
SOBREVIVENTES
Quando eu lembro desses momentos parece que foi sonho, imaginação, alguma coisa há tanto tempo que pode não ser verdade. Duvido de mim. Só quem viveu o que eu vivi, poderia se tornar a pessoa que eu sou. Sempre dá pra melhorar. Ninguém melhora sem entregar.
No início dessa vida isolada questionei todos os meus valores e pesquisei todas as minhas capacidades, como quem vai pra fila de emprego, munida do recorte de jornal, da carteira de trabalho, carregando o que sabe fazer vindo de uma experiência não comprovada e que o empregador não quer saber.
Os empregadores brasileiros têm alma de bicheiro: Só vale o que está escrito...
A carteira de trabalho de uma produtora cultural, é a memória do público que assistiu suas produções. É o rastro de construção dos espaços por onde passou. É o carinho dos artistas que conseguem continuar com carinho depois de trabalhar junto, uma atividade mais íntima do que casamento, de maneira que, o falar mal de alguém diz muito mais sobre quem fala mas o falar bem, já é outras coisas. Produção é preenchida por valores ancestrais, quanto mais horizontais, mais próxima da perfeição.
Foi numa outra vida que eu trocava com Dona Ivone Lara, vivia no cafofo da Tia Surica, fotografava com Marquinhos de Oswaldo Cruz, entrevistava Marquinho Sathan, Papeava com Neide Sant'anna, me encantava com Aluisio Machado, bebia na fonte Monarco, paralisava diante de Cristina Buarque - por mais que ela tenha achado a cabine para se transformar em Maria Christina Ferreira e o escaninho para tentar arquivar seu traje encantado-encantador. Não querida, mestres não se aposentam, e você é mestra. Aceita pra não doer nada.
Foi nessa outra vida que eu enchia a cara na porta do Portelão, sem ter um puto de um tostão e ria como se fosse milionária porque bêbada ri à toa, abraça por nada e beija todo mundo. E eu sou uma bêbada fácil, de baixo investimento, baixo custo, baixa renda mas de muita inspiração etílica. Qualquer 6 latinhas jogam minha pose pra baixo da mesa e empurram a minha criatividade pro patamar do céu é o limite.
Eu vivi um mundo de ícones de carne e osso, construtores de uma cultura que tentam jogar no bueiro. Parece sonho, às vezes pesadelo.
Entendo as pessoas que não conseguiram passar pelo processo de isolamento. Parece que a gente vai envelhecer sem nunca mais fazer coisa alguma. Sensação de cadeia.
Acho que as fotos de hoje são mais velhas que as do ano passado. Parece que todo mundo engordou. Até os jovens estão mais velhos. Somos testemunhas de um crime que não assistimos mas por tabela praticamos, agora temos que esconder o corpo, o nosso. Vítimas e réus concomitantemente (eu sempre soube que um dia poderia usar essa palavra ridícula mas sensacional num texto!). Se quisermos em algum momento, continuar respirando em plenitude. Vivos. Velhos.
26 de abr. de 2021
NINA IVONE BH BRASIL
Sete horas da manhã. A criatura miou, miou, miou, miou, miou e, ainda miou de novo. Eu cacei ela pela cama, fiz um carinho furreco de quem não quer despertar e tentava não sair do sono. Ela: miava, miava, miava e miava tudo de novo.
Tentei ignorar. Sabia que ela tinha ração e água. Enchi as vasilhas com uma quantidade que ela não daria conta ao longo da noite, sem contar que fomos dormir às três da madrugada.
Não, ela não comeu aquilo tudo. Não mesmo.
Virei de cara pra parede, cobri o ouvido com o travesseiro. Ela subiu nesse travesseiro e miou mais alto.
Sentei na cama, virei a cabeça na sua direção, olharia bem dentro dos seus olhos, se os meus se abrissem.
- O que é Nina?
Eu com a paciência de quem não quer ser despertada pela irritação
- ...
Não miou.
O que que é Nina Ivone Buarque de Holanda Brrrasil??
- ...
Silêncio
Levantei fui ao banheiro. Não adiantava mais tentar dormir de novo. O sol já estava explodindo, minha cabeça já repassava as atividades do dia. Fui fazer um café. Mas cadê Nina que sempre está atrás de mim na cozinha?
Sentei na cama tomando café puro - que não consigo comer tão cedo, só depois das dez.
Em cima do guarda-roupa, enroscada na caixa de papelão que guarda os enfeites de natal, onde sempre dormiu o sono pesado do dia, Nina dormia ![]()
31 de dez. de 2020
PARECE QUE FOI ONTEM
Não arrumei emprego, fiz uns poucos jobs, fiz muito escambo - que hoje chamam de parcerias. Atrasei todas as contas. Recebi ordem de despejo, contei com amigas para a composição de amigáveis calotes combinados.
30 de dez. de 2020
O mundo acabou os sofridos não perceberam e os exploradores seguem capitalizando culturas e dores
Sempre fui apaixonada por ano novo em proporção inversa ao natal. Natal para mim acabou no dia que descobri que não era só o papai noel que não existia, mas que era uma festa de aniversário e que todo mundo cagava pro aniversariante mesmo ele sendo uma figura importante. Não via ninguém preocupado em ofertar algum presente para aquele aniversariante incrível, que segundo diziam, deu sua vida por nós.
Quando vi uma imagem do Cristo negro, milhares dos meus dois neurônios fizeram conexões com várias visões, vivências, pensamentos e achismos que tive ao longo da minha vida, curtinha até então. Em fração de segundos entendi que Cristo era um genial porém pobre, não letrado, imigrante e sem teto sua história foi apropriada e recontada na versão dos dominadores que deram ênfase ao que ela não continha. Pessoas de denominações religiosas me atormentavam na infância pelo fato de eu usar crucifixo e imagens de santos, diziam que isso me aproximaria dos antigos pagãos politeístas que adoravam esculturas e a elas ofereciam sacrifícios. No entanto, na tentativa de me provarem o quanto eu estava no caminho errado, recitavam, passagens do antigo testamento, de uma época que Cristo era só uma profecia. Eu achava isso contraditório e quando tinha paciência respondia que uma nova lei substitui as anteriores e que na qualidade de “evangélicos”, achava adequado que eles se ativessem ao Evangelho e que fossem orar por mim, me deixando em paz, afinal em que poderia tanto incomodá-los tanto, se eu nem professava a mesma fé que eles?
Eu não podia imaginar que ali, naquela época, década de 80 tudo estava apenas começando.
Num enterro de um amigo querido, eu escalavrada, tive que passar por hordas neopentecostais, que desrespeitosamente, falavam nos meus ouvidos sem parar sobre uma necessidade que nem me lembro porque realmente não era o que eu precisava naquele momento.
Em outra ocasião, vi esses grosseiros de deus importunando, atrapalhando um ritual de umbanda num, cemitério. É comum, por ocasião de finados, alguns terreiros levarem oferendas aos cemitérios e acontece de algumas entidades associadas ao mistério da morte e da vida — transformação, “descerem” em seus “cavalos” dando “consulta” (gratuita) ou conselhos. Estarrecida fiquei me perguntando o que essas pessoas que seguem outras correntes religiosas vão fazer no cemitério nesse dia em vez de estarem nas suas igrejas orando.
Certo dia, observei perto da minha casa, um carrinho desse de venda de comida na rua, onde estava escrito: “acarajé abençoado.”
Abençoado por quem, segui meu caminho a me perguntar.
De modo que nesse ano que não tivemos natal naquele auge da histeria coletiva que toma o mundo nessa época, imaginei que o nosso aniversariante importante poderia se tornar protagonista. Imaginei errado. As pessoas preferiram maldizer as restrições dos comércios. Apesar de viver num ambiente classe baixa, não reparei muita gente reclamando dos preços dos produtos ditos natalinos.
E agora é a minha vez! Chegou a minha data preferida do ano. Não vai ter festa pública, a cidade não vai ser invadida por turistas. ou pelo menos não deveria ter… A recomendação é ficar em casa, evitar aglomeração, pois que estamos no auge da segunda onda da covid 19, onde as autoridades governamentais fazem ainda menos que na primeira. Temos no governo uma espécie de personagem novelesco, negacionista que a cada dia fala atrocidades impensáveis e inacreditáveis; orgulhoso da sua ignorância, vaidoso da sua arrogância e destemor de exibir toda a sua calhordice. Então, eu que sempre fiz questão de na virada estar em locais pelo menos bonitos, de preferência em praias a céu aberto a fim de olhar as estrelas e ter certeza de que poderia ser ouvida pelo Universo, dessa vez fico em casa muito tranquila e feliz pela vida que segue fluindo no meu corpo; por todas as competências descobertas no cenário de enclausuramento ao qual estou ainda muito fiel. Pela possibilidade de encontrar vida além daquela vida besta que sempre levava. Ainda que muito ciente que home office não é solução, muito pelo contrário, que “estamos completamente ferrados e mal pagos” por pertencermos a uma civilização(?) que não pegou o grande lance da história que é se reformular, se refazer , se modificar. A população precarizada não entendeu que essa é hora de parar de correr feito boba atrás dos produtos que a propaganda informa ser o melhor; as mulheres não perceberam que é hora de mandar às favas os padrões estéticos inatingíveis; que chegou o momento de incluirmos as culturas originárias e negras, seus ensinamentos porque as filosofias ocidentais hegemônicas nada fazem além de nos espremer feito processador que extrai suco das frutas.
Talvez se eu não tivesse esses pensamentos descolonizados, eu estaria bem triste, mas minha pele negra e antepassados indígenas me deram bem mais que um lombo pra apanhar. Enquanto isso, nas favelas ao meu redor, os fogos não param.
29 de dez. de 2020
A VIDA NÃO É SÓ BOLETOS
Essa foto é do dia 01/01/2020. Na minha blusa está escrito: “A vida não é só boletos”. Hoje, considero uma grande ironia da vida. Passei o ano compulsoriamente me preocupando só com boletos e contas, posto que, nenhuma diversão fora de casa me parecia viável e não tinha como. De certo modo, 2020 foi um ano só de boletos e seu tempero mais venenoso: desemprego.
13 de dez. de 2020
SANTA LUZIA e EWÁ Santa e orixá feministas
Hoje é dia de Santa Luzia. Protetora dos olhos e visões, aquelas que não necessariamente partem do olhar físico.









