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2 de set. de 2021

A PROPOSTA


 Era um dos melhores restaurantes do bairro, a decoração era um tanto rústica, a comida excelente e servida em quantidades generosas, sempre bem cheio quase sempre com fila de espera na porta.

Eu namorava uma pessoa que adorava comer e se sentia feliz em me mostrar "o que era comer bem." Fazia dessas incursões gastronômicas um estandarte, é, ela ostentava mesmo. Quem pagava a conta era eu, se não no ato, depois, quando ela me avisava em desespero que o cheque não tinha fundos ou que só dava pra pagar o mínimo do cartão. Nunca me importei muito com isso, lá em casa comer fora era mais ou menos como viajar para o exterior, não cabia no orçamento, um desperdício, quase um pecado. Então eu pagava com prazer aqueles almoços e jantares mesmo porque foi assim que eu comecei a conhecer as coisas boas da vida e as ruins também. Foi o início da minha vida organizada no mundo. Não havia lugar que eu frequentasse que não saísse de lá com um bom amigo ou amiga de infância.
Tornei-me adepta do ritual de comer fora sem precisar de uma data especial para isso. Tornei-me assídua do tal restaurante que tinha um elenco de garçons do Nordeste que eram extremamente simpáticos, respeitadores e que já faziam valer a pena ir ali. Almoçava qualquer bobagem para jantar lá e como o Rio de Janeiro é um ovo, aconteceu que fui trabalhar num escritório de contabilidade que prestava serviço para esse restaurante e eu via o seu dono quase todos os dias.
Um dia, passei lá pra tomar uma caipirinha. Estava sozinha, queria mais pensar do que beber mas a bebida ajuda nos pensamentos. Era uma tarde bonita de um dia lindo desses que a gente imagina que não existe em outro lugar do mundo e meio que se culpa por não estar em condições de aproveitar. Ainda assim, eu precisava pensar. A vida estava estranha, eu não sabia para onde estava indo, percebia que estava sendo levada. Eu e minha caipivodka que poderia ser de rum, não lembro, de cachaça sei que não era, eu não podia beber cana, o santo proibiu. O dono do restaurante chegou sorrindo e perguntou se podia sentar-se pra conversar um pouco. Educadamente disse pra ele que eu estava de saída. Educadamente ele entendeu.
Eu precisava pensar e não queria conversar com um cara que eu conhecia pouco num momento em que me sentia frágil. Eu estava tentando entender porque do nada algumas pessoas da minha família tão radicalmente contra os meus relacionamentos deram pra estender tapete vermelho para a minha namorada. Esse era um assunto que não dava pra perguntar. Por erro meu, talvez, não rolava esse tipo de conversa lá em casa. Sempre fui uma pessoa de momentos e naquele, especificamente, queria conversar comigo mesma e com o meu copo de birita.
O dono da casa se retirou. Não teve a conversa. Ela aconteceu uns dias depois. Ele passou no escritório e me convidou para ir conversar, disse que tinha uma proposta. Eu que já havia conversado com o patrão sobre aumento de salário sem sucesso, certa que era uma pessoa de sorte, imaginei que seria uma proposta de trabalho. Fui pra ouvir ou, como dizia minha avó, "fui assuntar" estava um tanto apreensiva porque até então evitava analisar o que ele mesmo havia me contado, certa vez, que ia ao nordeste e trazia “umas dúzias de homens” para trabalhar no restaurante. Ensinava o serviço porque eram “xucros” e eles dormiam em algum lugar que eu nunca conheci ali, no restaurante mesmo. A situação em si não me chamou tanto a atenção quando foi exposta, só fiquei desconfortável com os termos que ele descrevia aqueles homens que eram da mesma cidade que ele...
Uns risinhos pra lá, uns cerca Lourenço pra cá, quando eu estava distraída e a proposta aconteceu, resumidamente, mais ou menos assim:
Ele era casado (e eu não lembro agora há quanto tempo), amava a mulher e viviam bem, me dizia, mas tinha anseios de pular a cerca e não podia fazer isso de qualquer maneira. O risco era alto, pela posição financeira dele, "perigava de rolar um barraco com uma periguete qualquer" que prejudicasse seu casamento, mas principalmente pelo grande apreço que ele tinha ao seu bilau que "não foi achado no lixo" e mais alguns blá-blá-blás.
Hoje eu tenho vontade de ver que cara eu fazia ouvindo essas coisas que me soavam como atrocidades. De toda a forma, a cara qualquer uma que eu tenha feito não o intimidou. Seguiu falando:
- Eu sei que você namora a fulana, então queria te propor o seguinte: Monto um apartamento pra você, pra gente se encontrar uma ou duas vezes por semana. Um apê bacana, você pode decorar ao seu gosto. Te dou um carro e uma mesada que a gente pode combinar e você não pode arrumar outro cara, tem que ser só eu na parada. Eu sei que você não é chegada mesmo, mas só pra ficar bem esclarecido e outra coisa: Não vou mexer com a sua menina. Se você quiser viajar eu dou um jeito. Conhece o Nordeste?
😮
- Então, rapaz, se você está dizendo que eu "não sou chegada" como me propõe uma coisa dessas?
- Porque eu sou um cara legal, carinhoso, diferente dos caras que você conheceu.
Eu matutava o que ele poderia saber sobre os caras que eu conheci, se é que tinha conhecido algum. Só consegui dizer:
- É?
- É. Não vou fazer nada que você não queira. Tem muito cara mané que não sabe tratar uma mulher. Acaba que você ficou assim.
Eu tentava imaginar o que ele entendia por saber tratar uma mulher, não me parecia um bom tratamento o que eu via ali, ele oferecer à mulher dele.
- Assim como?
- Ah, Roze... Pô, assim. Gostando de mulher. Embora que eu te entendo muito. Porque mulher é bom mesmo...
(Não vou escrever tudo aqui, vou guardar as piores partes pro meu livro).
Como cantava Cazuza, “eu queria ter uma bomba, um flit paralisante qualquer”. Não conseguia encontrar palavras pra responder à altura. Eu era uma garota romântica mesmo não assumindo isso, não acreditava em contos de fadas, mas aquilo era um pouco demais pra mim. Era meio bobona, tinha uma vida um tanto difícil porque me relacionava com uma pessoa complicada, como disse antes, a vida não estava nenhuma maravilha, mas eu ainda acreditava que tinha jeito, um jeito meu de arrumar as coisas. Não achei as palavras certas, até hoje, acho que não respondi direito.
- Vem cá, você já experimentou propor isso pra sua mãe?
Levantei, peguei minha bolsa e saí sem olhar para trás.

26 de ago. de 2021

QUE A TERRA LHE SEJA LEVE

 


Há muitos anos tive um chefe que era o dono da empresa, eu tinha 23 anos e ele, uns 42. Certa vez ele me deu uma cantada em grande estilo. Foi mais ou menos assim:

Voltei de férias, linda, pele preta-canela super em dia, viajada, cheia de roupa nova, cabelo com o corte da Simone que era a moda e tudo da Cigarra que eu podia ter...
Ele tinha o hábito de tomar champanhe à beira da piscina todos os dias às 18:15 horas e sempre me convidava. Eu ficava por ali, que ele tinha conversa ótima. Era um cara de outro estado, tinha muitas histórias diferentes. Amo histórias.
Nunca percebi que eu era sua companhia preferida pra isso, o horário ficou sendo esse porque o escritório fechava às 18 e quando ele me convidou pela primeira vez, tipo por acaso, eu recusei porque não bebia em hora canônica. Até hoje, não.
Ele me chamava RosEmarL, naquele sotaque do sul e brincávamos muito por conta dos nossos sotaques. Ele me corrigia:
- Não é um copo di leiti quenti! E: um copo dE LeitE QueNNtE
Eu respondia:
- Não é Rosemarl é Rozzimarrrr, Nem carlne, nem porlta
A gente ria.
Eram tempos de Figueiredo, gatilho salarial, Tancredo agonizante e ele falava mal do velhinho. Eu não era mais politizada, larguei a política junto com a faculdade, já tinha abandonado as reuniões do movimento negro mas não dava, como nunca deu pra deixar de ser de esquerda e era franco atiradora independente da causa, na época, chamada LGS.
Ele sabia da minha condição homo afetiva, aliás o mundo sabia. Eu adorava ver o espanto na cara das pessoas que me julgavam bonita demais, culta demais, inteligente demais e pasme - sexy demais para ser apenas sapatão. Sim, porque eu só conseguia emprego quando me munia de decote, saia, salto e muito charme no andar que ralei pra aprender a ter nas aula da Socila.
Nesse dia de volta das férias, no final do expediente ele me convidou pro champanhe costumeiro. - Vamos tomar um Chandon pra comemorar sua volta?
Eu gostava dele e tinha um pouco de dó. Era um cara solitário. Tratando do divórcio recente, a ex linda com jeito de miss, um filho pré-adolescente que era o capeta em forma de piá e uma filha louruda boazuda que sissi demais.
Quando a garrafa chegou abaixo da metade, ele vai ao escritório e volta com uns papéis. Conta que também viajou. Fora à Mauá, comprou um sítio lindo que tinha uma queda d'água e uma pequena piscina natural. Fiquei feliz por ele.
- É pra passar finais de semana?
- Pode ser. Se você me convidar.
- ??
- Eu queria te dizer, que RosEmarl que eu senti saudade de você.
- Ah, eu também. A gente passa mais tempo junto que...
- Não. Eu sinto saudade de você como mulher. Da sua companhia. Da sua conversa, mais da sua alegria. Você é tão menina, angelical com o diabo no corpo.
- Adorei o elogio. Sou bem isso mesmo mas não entendi o sítio.
- Comprei esse sítio pra você. Você ama cachoeira e mato. Diz que gostaria de viver no interior. O meu divórcio está concluído... É um presente de noivado.
Fiquei feliz, aquela felicidade triste de quando a gente não sabe o que dizer e lamenta por não poder atender. Não era uma uma tristeza alegre. Era um desconforto receoso. Mas dei conta. Com jeitinho.
Saí da empresa quando minha mãe faleceu e eu enlouqueci. Não conseguia trabalhar, nem comer, nem dormir de certa forma morri junto por ter de enterrar meus sonhos de filha que eu ainda não tinha conseguido ser direito.
Nos reencontramos depois, creio que só mais umas duas vezes. Minha marida na época era macha abusiva, me cerceava e eu, uma bobona que não percebia. Vivia à minha custa e tinha pavor de eu me encontrar com ele.
A essa altura, ele engrenou um relacionamento com a filha de um funcionário que vivia indo lá cercando, cercando e me odiando. Burlei as vigilâncias quando soube que o filho, já crescido, tinha sofrido um acidente grave. Ele me recebeu com a alegria de sempre, apesar de estar ainda mais triste e carregando uma solidão que dava pra pegar com a mão.
A noiva, me tratou com desprezo. Fodasse. Não fui visitá-la. Na visita seguinte, eles já estavam casados ou morando juntos numa casa bem bacana num sub bairro bem metido a chique aqui perto mesmo. A mona me espinafrou. Eu reagi com elegância pra ela ficar irritada e com a veemência de quem não abre mão de bons amigos. No entanto, nunca mais voltei. Não acho digno mexer com a insegurança de outra mulher por mais que ela mereça e ele embora tenha vindo falar comigo, do lado de fora, na praça, não me pareceu merecedor de insistência por essa amizade. Também não fui por gosto, mas aí já é outra história.
Isso tem quase uns trinta anos.
De terça pra quarta dormi um pouquinho pela manhã depois de concluir uns vídeos e gravações de áudio pro projeto que tem dado sentido aos meus dias pandêmicos. Foram cerca de duas horas de sono. Sonhei com ele. Um sonho muito estranho. Durante o dia esse sonho me perturbou. Queria entender o significado. Não conseguia.
Na época eu ouvia muito Belchior, aquele LP com a foto imensa em preto e branco tinha uma música que me lembrava muito ele. "Pequeno perfil de um cidadão comum." Até hoje lembro dele quando ouço. Lembrei muitas coisas. Não catei o significado do sonho.
Entre tantos afazeres, consegui um tempo pra sentar, fumar um cigarro e tomar uma cerveja, porque Chandon, sem chance. Catei Belchior no Spotfy. Fiz as contas, ele teria hoje uns sessenta e oito, sessenta e nove anos. Tentei imaginar como estariam seus olhos cor de oliva, se ainda usaria cabelos cacheados em volta daquele rosto imenso e se ainda teria aquele sotaque carregado. É estranho lembrar de tantos detalhes de quem saiu do nosso radar. Apreensiva se ele não teria virado um véio da havan.
Dei um google no nome dele.
Descobri que fazia sete anos que ele não morava mais nesse mundo. Morte acontece quando a gente sabe.
Minha roça está fechada ainda. Vou encomendar uma missa para aquele ateu gentil. Aquele gigante triste de riso espalhafatoso. Aquele homem, o único que pensou em me dar algo em vez de tirar.
E como dizia Belchior no final da música que é do Toquinho:
"Que a terra lhe seja leve"

12 de ago. de 2021

A PRESSA

 

Como se não bastasse, enquanto civilização, não termos uma postura decente em relação à morte; Sermos hipócritas ao ponto de tentarmos viver por aqui como se fôssemos merecedores do paraíso e juízes do merecimento ou não do outro a ter de uma vida digna.

Não satisfeitos em não avaliar que a cerimonia de cremação é de uma frieza e cafonice que tira a oportunidade de exaltar o único patrimônio que levamos, única riqueza que deixamos no mundo: o jeito como seremos lembrados, as histórias que nos substituirão na vida.
O ritual que precede a cremação deixa muito a desejar se comparado aos velórios suburbanos e gurufins dos sambistas.
Cada vez mais parece que o mundo tem pressa de se livrar de nós de modo que não reste muitas lembranças e isso é uma afronta tão grande à nossa ancestralidade no que diz respeito à oralidade que deve ser mantida e transmitida.
Deve ser muito ruim não ter um túmulo onde se possa fazer as pazes com quem partiu apressadamente ou que só se fez notar o quanto amado era ao se ir assim sem agenda para o acerto afetivo de contas... Algumas vezes fui ao túmulo da Odetinha pedir graças e saí com milagres e agora nem podemos chegar no céu com essa reivindicação.
Toda vez que morre alguém querido fico pensando na morte e nos paliativos que me tornem menos triste e dolorida. Ter uma referência do que sobrou da vida é muito apaziguador quando não temos certeza de outros níveis de existências. E a sociedade me soa como uma coisa ruim impondo costumes que não são para o nosso bem mas para o progresso dela.

De modo que quero deixar dito que se me cremarem, vão ter os pés puxados e corações acelerados de susto todos os dias, pois eu virei a cada noite, assombrar quem mandou me cremar, quem cremou e quem não impediu.
Quero velório com muita música do samba à Madonna e Michael Jackson, bastante samba mesmo, muito rock BR, sem sofrência e nenhum arrocha que isso tenho tido mais do que mereço em vida. Muita birita e fartura nos belisquetes. Quero todo mundo contando histórias minhas sejam boas ou más, de preferência divertidas e, eu sei que essas são poucas.
Quero bandeiras sobre o meu caixão porque acho lindo quem sabe recolhê-las já dobrando (Império, Portela Botafogo) E aí sim, deixarei todo mundo em paz, porque, sem herdeiros, vou ficar matutando, concentrando energia num jeito de fazer florescer um pé de pimenta no meu último cafofo. É que roseira é coisa de santa, né? Cada um conforme sua vida e merecimento.
- - - - -
Na foto: Abelardo e Heloisa. Que continuariam separados se tivessem sido cremados

5 de mai. de 2021

HUMILHAÇÃO

 

Não tenho mais pranto. Não me cabo de revolta que me instiga mais e mais dores.

Nessa pandemia passei o constrangimento de pedir dinheiro para amigos. Quase fiquei sem teto, fiquei sem luz algumas vezes e internet também. Hoje meu coração dispara cada vez que vejo um carro utilitário com escada. Cada laive que entrou no ar com a minha participação foi fruto de uma certa prostituição psicológica que negociei comigo mesma, pedindo aos amigos a chance de não me deixarem desaparecer numa espécie morte social. Dizendo pra mim que eram pessoas de confiança que não me dariam migalhas e ainda sairiam falando como é o normal e vejo muito acontecer na Casa da Vida - Voluntariado Quem menos contribui é quem mais valoriza a contribuição parca e inferioriza nosso trabalho. Foi experimentar um pouco de alguns lugares como o malabares "dos dimenor" nos sinais de trânsito;
a mãe com criança no colo pelas calçadas e ruas da Lapa;
a vendedora de bala na noite pirada.

Tudo isso porque trabalho com Arte e Cultura.

Então quando o Paulo Gustavo caiu com convid19, não tinha como imaginar que sua juventude (que eu não tenho mais), sua possiblidade econômica de tratamento (que eu nunca tive) não pudessem salvá-lo.
Eu rezei, sim e com a certeza que tudo daria certo porque ele tinha o melhor tratamento, a juventude e muitos motivos para lutar como uma garota, como uma mãe, como um pai de verdade.

Alguns dirão: desígnios de deus.
Desculpa, mas deus jamais designaria um político antivacina como desígnio. O desígnio de Deus é a Vida e não a morte que está no nosso encalço com alvará e incentivo do genocida que lidera país.

Amorte do Paulo Gustavo me fez cair a ficha dos tantos que perdi e não deu pra chorar porque tive que fazer lista pro enterro, porque tive que me manter fora do alcance de ter que ser enterrada também. E agora é por todos os meus e todos os nossos, pelos muito mais de 4mil e por esses mortos em vida que vivem hierarquizando os que podem ou não viver.

Eu vou me manter em casa o tempo necessário após a segunda dose. E não importa se tiver que ficar no escuro e sem internet. Não importa nem se ficar sem casa pra ficar.
Não há como prever o que nos acontece ao pegar essa doença e eu não tenho estrutura pra sobreviver a ela e não posso morrer logo agora que descobri o que é viver

29 de abr. de 2021

SOBREVIVENTES

 


As redes sociais começam a me mostrar lembranças de um tempo que nem acabei de viver ainda. Fotos do início da pandemia. Parece que foi no milênio passado. Parece que a vida que eu tinha antes, de tapa nas costas, beijo na boca, abraço suado, afogamento num mar de gente nas quadras de samba, em volta das rodas nos terreiros, espremida nos espaços indecentes da Lapa nunca existiu.

Quando eu lembro desses momentos parece que foi sonho, imaginação, alguma coisa há tanto tempo que pode não ser verdade. Duvido de mim. Só quem viveu o que eu vivi, poderia se tornar a pessoa que eu sou. Sempre dá pra melhorar. Ninguém melhora sem entregar.

No início dessa vida isolada questionei todos os meus valores e pesquisei todas as minhas capacidades, como quem vai pra fila de emprego, munida do recorte de jornal, da carteira de trabalho, carregando o que sabe fazer vindo de uma experiência não comprovada e que o empregador não quer saber.
Os empregadores brasileiros têm alma de bicheiro: Só vale o que está escrito...

A carteira de trabalho de uma produtora cultural, é a memória do público que assistiu suas produções. É o rastro de construção dos espaços por onde passou. É o carinho dos artistas que conseguem continuar com carinho depois de trabalhar junto, uma atividade mais íntima do que casamento, de maneira que, o falar mal de alguém diz muito mais sobre quem fala mas o falar bem, já é outras coisas. Produção é preenchida por valores ancestrais, quanto mais horizontais, mais próxima da perfeição.

Foi numa outra vida que eu trocava com Dona Ivone Lara, vivia no cafofo da Tia Surica, fotografava com Marquinhos de Oswaldo Cruz, entrevistava Marquinho Sathan, Papeava com Neide Sant'anna, me encantava com Aluisio Machado, bebia na fonte Monarco, paralisava diante de Cristina Buarque - por mais que ela tenha achado a cabine para se transformar em Maria Christina Ferreira e o escaninho para tentar arquivar seu traje encantado-encantador. Não querida, mestres não se aposentam, e você é mestra. Aceita pra não doer nada.

Foi nessa outra vida que eu enchia a cara na porta do Portelão, sem ter um puto de um tostão e ria como se fosse milionária porque bêbada ri à toa, abraça por nada e beija todo mundo. E eu sou uma bêbada fácil, de baixo investimento, baixo custo, baixa renda mas de muita inspiração etílica. Qualquer 6 latinhas jogam minha pose pra baixo da mesa e empurram a minha criatividade pro patamar do céu é o limite.

Eu vivi um mundo de ícones de carne e osso, construtores de uma cultura que tentam jogar no bueiro. Parece sonho, às vezes pesadelo.

Entendo as pessoas que não conseguiram passar pelo processo de isolamento. Parece que a gente vai envelhecer sem nunca mais fazer coisa alguma. Sensação de cadeia.

Acho que as fotos de hoje são mais velhas que as do ano passado. Parece que todo mundo engordou. Até os jovens estão mais velhos. Somos testemunhas de um crime que não assistimos mas por tabela praticamos, agora temos que esconder o corpo, o nosso. Vítimas e réus concomitantemente (eu sempre soube que um dia poderia usar essa palavra ridícula mas sensacional num texto!).  Se quisermos em algum momento, continuar respirando em plenitude. Vivos. Velhos. 
Vivos. Gordos. Vivos. 
Sobreviventes. Vivos

26 de abr. de 2021

NINA IVONE BH BRASIL

 


Sete horas da manhã. A criatura miou, miou, miou, miou, miou e, ainda miou de novo. Eu cacei ela pela cama, fiz um carinho furreco de quem não quer despertar e tentava não sair do sono. Ela: miava, miava, miava e miava tudo de novo.
Tentei ignorar. Sabia que ela tinha ração e água. Enchi as vasilhas com uma quantidade que ela não daria conta ao longo da noite, sem contar que fomos dormir às três da madrugada.
Não, ela não comeu aquilo tudo. Não mesmo.
Virei de cara pra parede, cobri o ouvido com o travesseiro. Ela subiu nesse travesseiro e miou mais alto.
Sentei na cama, virei a cabeça na sua direção, olharia bem dentro dos seus olhos, se os meus se abrissem.
- O que é Nina?
Eu com a paciência de quem não quer ser despertada pela irritação
- ...
Não miou.
O que que é Nina Ivone Buarque de Holanda Brrrasil??
- ...
Silêncio
Levantei fui ao banheiro. Não adiantava mais tentar dormir de novo. O sol já estava explodindo, minha cabeça já repassava as atividades do dia. Fui fazer um café. Mas cadê Nina que sempre está atrás de mim na cozinha?
Sentei na cama tomando café puro - que não consigo comer tão cedo, só depois das dez.

Em cima do guarda-roupa, enroscada na caixa de papelão que guarda os enfeites de natal, onde sempre dormiu o sono pesado do dia, Nina dormia 🤬


31 de dez. de 2020

PARECE QUE FOI ONTEM

Não arrumei emprego, fiz uns poucos jobs, fiz muito escambo - que hoje chamam de parcerias. Atrasei todas as contas. Recebi ordem de despejo, contei com amigas para a composição de amigáveis calotes combinados.

Fiquei triste por todos que os não se importaram com essa e situação mas contente por tê-los conhecido e não precisar mais me importar com eles.
E a vida seguiu como se nada tivesse acontecido.
Tentei formar um grupo pra um edital e aprendi porque artistas precisam de produção e direção, nem todos tem o vírus do empreendedor ou a essência da engenharia cooperativa. É preciso chegar com o projeto amarrado, cachê fixado, data marcada. Ok. Entendi. Obrigada.
Apontei minha artilharia de trabalho pra mim mesma, investi meus esforços nas minhas competências, diferentemente dos anos passados. Mas nunca fiz tantas coisas coletivas
Estudei muito. Juntei 8 certificados de participação e um de conclusão.
Botei a cara no vídeo pela primeira vez e, ou o povo gostou ou mentiram pra mim 😁
Conheci muita gente nova, muitos artistas e pessoas que fazem girar as engrenagens do sistema em que os artistas se expõem. Que pena, não ser atriz nem cantora, instrumentista e perdi a chance de cair no mundo.
Voltar a frequentar a faculdade foi um revigoramento total, fiquei como quando era criança que curtia muito mais a escola do que a minha casa.
As crises de depressão foram mais espaçadas porém bem mais intensas no entanto, superadas com maior desenvoltura. Às vezes acho que estou curada e que uma atividade remunerada fixa seria a pá de cal nesse chatice!
Não tive períodos de mania, inclusive se tivesse remuneração regular, teria tirado férias. Até me dei direto a um recesso nesse finalzinho de ano.
Acho que me tornei mais paciente, acho que consegui ouvir mais as pessoas, acho que aceitei menos provocações.
O meu pecado capital, sempre foi a ira e estou a cada dia menos irada. Ainda que eternamente indignada, transformei a minha indignação em trabalho, conceituei 25 projetos culturais entre filmes, shows, eventos e de ações sociais - tudo pra 2020/2021
Às vezes a gente precisa olhar mais pro que pode acontecer ainda que não ignore o que está acontecendo e fazer e plantar sem pensar em quem vai colher, imaginar que esse plantio vai alimentar pessoas.
Somos todos celeiros e o que guardamos neles só nós podemos decidir.
Liberdade nem sempre é usar as coisas da hora e fazer viagens incríveis. Liberdade é poder abrir o peito, a boca, os ohos sem vergonha do que outros possam ver dentro da gente. Então, capriche! Não burile o que sai, trate do que está dentro de você.
Esse ano não pensei em me matar nenhuma vez, desde Recife entendi o quanto tenho e posso fazer, o quanto o produto dos meus processos de experiência e vida é bom e pode ser útil pra tanta gente.
VISUAL NOVO
Eu pensei que estava criando uma personagem mas era o contrário, eu estava me livrando de uma. Cabelos numa sociedade patriarcal é fetiche, embora eu curta cabeleira, a minha estava me incomodando por não tratá-la com o devido respeito e o meu grisalho tratado com o devido respeito estava incomodando as pessoas, a minha decisão de não tingir estava incomodando as pessoas.
Separada desde 2013, trilhei o caminho de me redescobrir. Sim, vivi mais tempo casada que solteira, minha vida sempre teve dono, primeiro os pais, depois casamentos e eu demorei muito a entender isso. Nesse sexto ano de redescoberta de mim, era hora de me ressignificar. Se meu pouco grisalho incomodava, melhor acabar com o "problema" ou criar um maior ainda.
Talvez eu não seja tão tímida como fui a vida toda, possivelmente, essa timidez seja fruto de muita repressão. Aquela repressão que meninas suburbanas vivem, aqueles valores que a família tatua na gente como salvo-conduto para frequentarmos o mundo com menos riscos pra ela (família).
- Não fale com estranhos
- Não frequente bares e botequins
- não beba desacompanhada
- não fume na rua
- não diga que é da umbanda ou do candomblé
- não use roupa justa, saia curta, short indecente
- não transe antes de casar, se transar, tem que casar
- mulher direita não gargalha, não fala palavrão, pede permissão.
- Mulher direita não é artista, não se exibe.
- criança educada pergunta o que pode aceitar.
Mulher decente é planta e a gente que cresceu com a ditadura foi adestrada pra ser invisível. Ponto.
Eu não cortei o cabelo, eu tirei 50 anos de peso da minha alma! Eu platinei tudo o que a minha mente aprendeu ao longo da minha vida!
RELACIONAMENTO
2019 não decepcionou mas eu não me apaixonei.
Eu gosto sorvete, livros, drinks, mar e flores; Pra casar eu ainda preciso amar.
Mas pra transar, andar junto, dar uma ficada, ah basta uma boa dose de respeito, sinceridade e torcer pra gracinha topar uma boa diversão. Eu ainda sei ser divertida, quiçá, seja agora mais do que sempre fui.
Ser empoderada é muito mais que calçar um salto e deixar o blécão subir. Ser feminista vai além de falar mal do poder repressor e patriarcal.
Eu aprendi (e nem foi da forma mais fácil e prazerosa porque nunca é) que ser empoderada é olhar pra tudo o que se tem por dentro e ter coragem de assumir e descobrir como se reformar e o que fazer com a mobília que em sua maior parte nem fui eu que botei ali.
A minha aparência não tem que seguir tendência, moda, regras. Ela tem que espelhar a minha aceitação e todas as reformas pelas quais passei e que ainda preciso promover. A arquiteta aqui, sou eu!
Quem não gostar que se construa conforme seu gosto, em mim só mora eu.

Esse textão foi de 2019 mas par ser de 2020 só faltou a menção direta à covid, todo o restante que esse vírus escancarou e presenteou a muitos, já era uma realidade vivida pela maioria da periferia.

30 de dez. de 2020

O mundo acabou os sofridos não perceberam e os exploradores seguem capitalizando culturas e dores

Sempre fui apaixonada por ano novo em proporção inversa ao natal. Natal para mim acabou no dia que descobri que não era só o papai noel que não existia, mas que era uma festa de aniversário e que todo mundo cagava pro aniversariante mesmo ele sendo uma figura importante. Não via ninguém preocupado em ofertar algum presente para aquele aniversariante incrível, que segundo diziam, deu sua vida por nós.

Quando vi uma imagem do Cristo negro, milhares dos meus dois neurônios fizeram conexões com várias visões, vivências, pensamentos e achismos que tive ao longo da minha vida, curtinha até então. Em fração de segundos entendi que Cristo era um genial porém pobre, não letrado, imigrante e sem teto sua história foi apropriada e recontada na versão dos dominadores que deram ênfase ao que ela não continha. Pessoas de denominações religiosas me atormentavam na infância pelo fato de eu usar crucifixo e imagens de santos, diziam que isso me aproximaria dos antigos pagãos politeístas que adoravam esculturas e a elas ofereciam sacrifícios. No entanto, na tentativa de me provarem o quanto eu estava no caminho errado, recitavam, passagens do antigo testamento, de uma época que Cristo era só uma profecia. Eu achava isso contraditório e quando tinha paciência respondia que uma nova lei substitui as anteriores e que na qualidade de “evangélicos”, achava adequado que eles se ativessem ao Evangelho e que fossem orar por mim, me deixando em paz, afinal em que poderia tanto incomodá-los tanto, se eu nem professava a mesma fé que eles?

Eu não podia imaginar que ali, naquela época, década de 80 tudo estava apenas começando.

Num enterro de um amigo querido, eu escalavrada, tive que passar por hordas neopentecostais, que desrespeitosamente, falavam nos meus ouvidos sem parar sobre uma necessidade que nem me lembro porque realmente não era o que eu precisava naquele momento.

Em outra ocasião, vi esses grosseiros de deus importunando, atrapalhando um ritual de umbanda num, cemitério. É comum, por ocasião de finados, alguns terreiros levarem oferendas aos cemitérios e acontece de algumas entidades associadas ao mistério da morte e da vida — transformação, “descerem” em seus “cavalos” dando “consulta” (gratuita) ou conselhos. Estarrecida fiquei me perguntando o que essas pessoas que seguem outras correntes religiosas vão fazer no cemitério nesse dia em vez de estarem nas suas igrejas orando.

Certo dia, observei perto da minha casa, um carrinho desse de venda de comida na rua, onde estava escrito: “acarajé abençoado.”
Abençoado por quem, segui meu caminho a me perguntar.

De modo que nesse ano que não tivemos natal naquele auge da histeria coletiva que toma o mundo nessa época, imaginei que o nosso aniversariante importante poderia se tornar protagonista. Imaginei errado. As pessoas preferiram maldizer as restrições dos comércios. Apesar de viver num ambiente classe baixa, não reparei muita gente reclamando dos preços dos produtos ditos natalinos.

E agora é a minha vez! Chegou a minha data preferida do ano. Não vai ter festa pública, a cidade não vai ser invadida por turistas. ou pelo menos não deveria ter… A recomendação é ficar em casa, evitar aglomeração, pois que estamos no auge da segunda onda da covid 19, onde as autoridades governamentais fazem ainda menos que na primeira. Temos no governo uma espécie de personagem novelesco, negacionista que a cada dia fala atrocidades impensáveis e inacreditáveis; orgulhoso da sua ignorância, vaidoso da sua arrogância e destemor de exibir toda a sua calhordice. Então, eu que sempre fiz questão de na virada estar em locais pelo menos bonitos, de preferência em praias a céu aberto a fim de olhar as estrelas e ter certeza de que poderia ser ouvida pelo Universo, dessa vez fico em casa muito tranquila e feliz pela vida que segue fluindo no meu corpo; por todas as competências descobertas no cenário de enclausuramento ao qual estou ainda muito fiel. Pela possibilidade de encontrar vida além daquela vida besta que sempre levava. Ainda que muito ciente que home office não é solução, muito pelo contrário, que “estamos completamente ferrados e mal pagos” por pertencermos a uma civilização(?) que não pegou o grande lance da história que é se reformular, se refazer , se modificar. A população precarizada não entendeu que essa é hora de parar de correr feito boba atrás dos produtos que a propaganda informa ser o melhor; as mulheres não perceberam que é hora de mandar às favas os padrões estéticos inatingíveis; que chegou o momento de incluirmos as culturas originárias e negras, seus ensinamentos porque as filosofias ocidentais hegemônicas nada fazem além de nos espremer feito processador que extrai suco das frutas.

Talvez se eu não tivesse esses pensamentos descolonizados, eu estaria bem triste, mas minha pele negra e antepassados indígenas me deram bem mais que um lombo pra apanhar. Enquanto isso, nas favelas ao meu redor, os fogos não param.

29 de dez. de 2020

A VIDA NÃO É SÓ BOLETOS

Essa foto é do dia 01/01/2020. Na minha blusa está escrito: “A vida não é só boletos”. Hoje, considero uma grande ironia da vida. Passei o ano compulsoriamente me preocupando só com boletos e contas, posto que, nenhuma diversão fora de casa me parecia viável e não tinha como. De certo modo, 2020 foi um ano só de boletos e seu tempero mais venenoso: desemprego.

Estudei muito online. Retornei aos livros impressos. Se eu quiser colocar nas paredes de casa, todos os certificados de cursos que fiz durante o pandêmico 2020, isso não seria possível de tantos que eles são e de tão pequenas as minhas paredes
Já tenho umas composições com linha melódica. Antes compunha só letra, era 100% dependente de parceria para a música, as melodias que criava no solfejo, achava muito ruim, agora toco uquelelê e é melhor que tapa na perna, batuque na mesa, caixa de fósforo ou caxixi. O banjo que me aguarde! 👅
Os outros cursos que fiz não seriam vistos por muitas pessoas como cursos, mas se segura, que se eu era anticolonialista. antirracista e anti-machista agora danô-se! Que tô uma preta muito feminista decolonial.
Não tenho nada a me queixar de 2020. Tenho muito pra agradecer. Perdi parentes chegados, perdi amigos mais chegados que os parentes.
Perdi. Perdemos.
O meu grande ganho de 2020 fui eu.
Ter acordado para o tanto de construção que ainda faltava e terminar percebendo o quanto ainda falta, porém com toda possibilidade de plenitude.
O grande ganho foi sobreviver, conseguir manter um teto sobre o crânio e cacarecos e perceber que há gente me amando, me percebendo. Gente que parecia que nem ligava pra mim e em dado momento me estendeu a mão.
Tô terminando o ano inteira, acabei de restaurar o dente quebrado, de criar coragem para cuidar de mim, além da preservação no modo fica em casa. Sem perceber, a gente que tem depressão, aproveita qualquer oportunidade para se abandonar a essa doença que mata a nossa alma. A gente morre sem saber ou até sabe mas não consegue voltar a viver.
Penso que termino 2020 melhor do que o comecei.
Voltei pra “análise” com uma das melhores profissionais da cidade. Tô aqui refazendo o cabelo ainda que tenha planejado passar o reveillon em casa com
Nina Ivone de Holanda Brasil
, eu que sempre me arrumei por obrigação, só por causa do outro. Que sempre me vesti "direitinha" só pra ninguém falar de mim. Aprendo finalmente que é eu por mim pra dar certo a conta do nós por nós.

13 de dez. de 2020

SANTA LUZIA e EWÁ Santa e orixá feministas

 

Hoje é dia de Santa Luzia. Protetora dos olhos e visões, aquelas que não necessariamente partem do olhar físico.

Santa Luzia entrou na minha vida de uma forma que eu não entendia. Minha irmã, recentemente falecida, tinha uma foto que ela odiava: Vestidinha de branco com aqueles vestidos tipo de batizado, com duas marias-chiquinhas muito acima das orelhas, sentada numa cadeira imensa, parecida com aquelas que a gente faz foto de beca na formatura, meias 3/4. No conjunto, uma bonequinha desajeitada com um pedacinho de nada de pernas. Sim, ela tinha razão de odiar a foto. Essa foto muito antiga tinha uma parte embaixo que era para se escrever dedicatórias. Quando aprendi a ler estava lá, a explicação, que naquele momento da fotografia Rosenita estava cega.
Minha mãe fez promessa pra santa, Sim, sim, sim, minha mãe fez promessa pra mim também mas é outro papo. Os antigos eram assim, o SUS rápido e imediato era aos pés dos santos-autoridades-competentes e estes davam bem conta do recado.
Anos depois, acompanhei pelas revistas, Roberto Carlos, o rei, fez promessa para a recuperação da visão do seu filho. O Rei não fazia shows nos dias 13 de dezembro. Era a promessa.
Muitos anos depois, morando nos arredores da Lapa, finalmente adentrei à igreja da santa e fiquei devota porque pela primeira vez na minha vida vi imagens de de anjinhos pretos numa igreja. Eles eram tais quais os outros tradicionais anjinhos, só que com pele retinta e estão pintados nas paredes da sala de ex voto.
A história de Santa Luzia nos conta que ela viveu no século IV, perdeu o pai cedo, a mãe queria que ela se casasse com um pagão, no entanto, ela havia em segredo, se consagrado a Jesus com voto de virgindade. A mãe dela ficou muito doente e ela fez uma promessa que, curando-se a mãe, seria freira ou o equivalente naquela época, ou seja, nada de casar, muito menos com um pagão!
A mãe curou-se e acatou o desejo da filha. O pretenso pretendente ficou pistola-macho-da-silva e entregou Luzia às autoridades.
Ela foi condenada, sem julgamento, pois como em todo período de ditadura, invasão e colonização, basta a denúncia e, ser cristã naquele tempo era crime, ponto e basta. O que lhe restava a fazer era renunciar à fé. Pois ela foi condenada a ser prostituída! E o que ela fez?
Disse:
- “O corpo fica poluído somente se a alma consente”
Foi um rebuceteio. Aconteceu que os guardas não conseguiam se mover para levá-la à força para o prostíbulo ou para o estupro, sei lá, não sei como se executava uma sentença dessas. A imobilidade dos guardas é atribuída à interferência divina. Então, tentaram queimá-la na fogueira e também fracassaram. Por último, decapitaram-na.
Outra história da santa é que teriam arrancado ou vazado seus olhos e mesmo assim ela, pela graça de deus, continuou a enxergar. E esse é o ponto.
Mulheres, para terem registros na História, obrigatoriamente, precisavam ser virgens, puras e castas. Seria no mínimo vergonhoso assumir-se que ela pode ter tido seu corpo violentado como forma de punição pelo seu desejo de permanecer virgem. Eu prefiro não pensar nisso agora, pois seria obrigada a escrever que desde o século IV estamos sujeitas à mesma doença do poder masculino, supostamente hétero. Patriarcado. De maneiras que vou dividir com vocês as minhas reflexões.
Manter a visão após os olhos arrancados é a metáfora mais concreta que conheço. Nascemos com os olhos fechados e vivemos num sistema que faz de tudo para que assim continuemos. Nas escritas sagradas existem muitas menções da visão além do olhar físico e Cristo "morreu" exortando que desenvolvêssemos essa visão. "Estamos no mundo mas não somos do mundo", "o pior cego é aquele que não quer ver", "cego guiando outro cego" e a minha preferida: "Quem me tocou?", disse cristo espremido numa multidão, quando a "mulher com fluxo de sangue" em seu desejo se comunicou com ele.
Peçamos à Santa Luzia pela saúde dos nossos globos oculares, neurônios e todas as ligações que permitem que eles transformem o escuro em visão, mas acima de tudo, que ela nos restabeleça a visão elucidativa de tudo o que nos cerca.
Que possamos ver com os olhos de dentro, aqueles que mesmo arrancados continuam a enxergar claramente. Esses olhos, ninguém nos tira - mas podem turvar.
É o que vale, é para isso que estamos nesse mundo.
Na nossa diáspora, Santa Luzia é sincretizada como Ewá. Sabem por que?
Porque Ewá também domina a vidência. Aquela que não depende dos olhos. Ewá é a dona das cores por ser irmã de Oxumare, da beleza e sua lenda também é atravessada por pretendentes atraídos por sua beleza. O reino onde vivia Ewá ficou tão cheio de homens pretendendo casar com ela que ela se irritou e produziu um imenso estrondo que deixou todos PARALISADOS (perceberam?) E Ewá foi se transformando como uma luz do sol, perdendo a forma, tornando-se translúcida até virar uma poça d'água que foi evaporando à vista de todos até formar uma imensa nuvem no céu com o formato de um imenso coração.
Ewá, como Santa Luzia, não se casou e, na minha interpretação, ambas deixam o registro de que o corpo da mulher a ela pertence e a beleza física é o que menos importa, apesar de os homens não conseguirem ver muito além das proposta estéticas que atormentam nossos dias e as mulheres caírem o tempo todo nessa armadilha 'propagandosa'.
Santa Luzia e Ewá são padroeiras dos oftalmologistas e das pessoas com problema de visão. Deveriam também ser padroeiras de todos aqueles que no mundo de hoje, como no de ontem e sempre, são chicoteados pelo cerceamento do direito de ter uma fé e das mulheres que precisam morrer lutando por manter o direito aos seus desejos e direitos sobre seus próprios corpos.
A oração de Santa Luzia evidencia sobre as visões que devemos ter. Vou colar ela aqui pra vocês:
"Ó Santa Luzia, preferistes que vossos olhos fossem vazados e arrancados ao ter que negar a fé e conspurcar vossa alma; e Deus com um milagre extraordinário, vos devolveu outros dois olhos sãos e perfeitos para recompensar vossa virtude e vossa fé, e vos constituiu protetora contra as doenças dos olhos, eu recorro a vós que protejais minhas vistas e cureis a doença de meus olhos.
Ó Santa Luzia, conservai a luz de meus olhos, de minha alma, a fé pela qual posso conhecer o meu Deus, compreender seus ensinamentos, reconhecer o seu amor para comigo e nunca errar o caminho que me conduzirá, onde vós Santa Luzia, vos encontrais em companhia de Anjos e Santos.
Santa Luzia, protegei meus olhos e conservai minha fé. Amém.