Não arrumei emprego, fiz uns poucos jobs, fiz muito escambo - que hoje chamam de parcerias. Atrasei todas as contas. Recebi ordem de despejo, contei com amigas para a composição de amigáveis calotes combinados.
31 de dez. de 2020
PARECE QUE FOI ONTEM
30 de dez. de 2020
O mundo acabou os sofridos não perceberam e os exploradores seguem capitalizando culturas e dores
Sempre fui apaixonada por ano novo em proporção inversa ao natal. Natal para mim acabou no dia que descobri que não era só o papai noel que não existia, mas que era uma festa de aniversário e que todo mundo cagava pro aniversariante mesmo ele sendo uma figura importante. Não via ninguém preocupado em ofertar algum presente para aquele aniversariante incrível, que segundo diziam, deu sua vida por nós.
Quando vi uma imagem do Cristo negro, milhares dos meus dois neurônios fizeram conexões com várias visões, vivências, pensamentos e achismos que tive ao longo da minha vida, curtinha até então. Em fração de segundos entendi que Cristo era um genial porém pobre, não letrado, imigrante e sem teto sua história foi apropriada e recontada na versão dos dominadores que deram ênfase ao que ela não continha. Pessoas de denominações religiosas me atormentavam na infância pelo fato de eu usar crucifixo e imagens de santos, diziam que isso me aproximaria dos antigos pagãos politeístas que adoravam esculturas e a elas ofereciam sacrifícios. No entanto, na tentativa de me provarem o quanto eu estava no caminho errado, recitavam, passagens do antigo testamento, de uma época que Cristo era só uma profecia. Eu achava isso contraditório e quando tinha paciência respondia que uma nova lei substitui as anteriores e que na qualidade de “evangélicos”, achava adequado que eles se ativessem ao Evangelho e que fossem orar por mim, me deixando em paz, afinal em que poderia tanto incomodá-los tanto, se eu nem professava a mesma fé que eles?
Eu não podia imaginar que ali, naquela época, década de 80 tudo estava apenas começando.
Num enterro de um amigo querido, eu escalavrada, tive que passar por hordas neopentecostais, que desrespeitosamente, falavam nos meus ouvidos sem parar sobre uma necessidade que nem me lembro porque realmente não era o que eu precisava naquele momento.
Em outra ocasião, vi esses grosseiros de deus importunando, atrapalhando um ritual de umbanda num, cemitério. É comum, por ocasião de finados, alguns terreiros levarem oferendas aos cemitérios e acontece de algumas entidades associadas ao mistério da morte e da vida — transformação, “descerem” em seus “cavalos” dando “consulta” (gratuita) ou conselhos. Estarrecida fiquei me perguntando o que essas pessoas que seguem outras correntes religiosas vão fazer no cemitério nesse dia em vez de estarem nas suas igrejas orando.
Certo dia, observei perto da minha casa, um carrinho desse de venda de comida na rua, onde estava escrito: “acarajé abençoado.”
Abençoado por quem, segui meu caminho a me perguntar.
De modo que nesse ano que não tivemos natal naquele auge da histeria coletiva que toma o mundo nessa época, imaginei que o nosso aniversariante importante poderia se tornar protagonista. Imaginei errado. As pessoas preferiram maldizer as restrições dos comércios. Apesar de viver num ambiente classe baixa, não reparei muita gente reclamando dos preços dos produtos ditos natalinos.
E agora é a minha vez! Chegou a minha data preferida do ano. Não vai ter festa pública, a cidade não vai ser invadida por turistas. ou pelo menos não deveria ter… A recomendação é ficar em casa, evitar aglomeração, pois que estamos no auge da segunda onda da covid 19, onde as autoridades governamentais fazem ainda menos que na primeira. Temos no governo uma espécie de personagem novelesco, negacionista que a cada dia fala atrocidades impensáveis e inacreditáveis; orgulhoso da sua ignorância, vaidoso da sua arrogância e destemor de exibir toda a sua calhordice. Então, eu que sempre fiz questão de na virada estar em locais pelo menos bonitos, de preferência em praias a céu aberto a fim de olhar as estrelas e ter certeza de que poderia ser ouvida pelo Universo, dessa vez fico em casa muito tranquila e feliz pela vida que segue fluindo no meu corpo; por todas as competências descobertas no cenário de enclausuramento ao qual estou ainda muito fiel. Pela possibilidade de encontrar vida além daquela vida besta que sempre levava. Ainda que muito ciente que home office não é solução, muito pelo contrário, que “estamos completamente ferrados e mal pagos” por pertencermos a uma civilização(?) que não pegou o grande lance da história que é se reformular, se refazer , se modificar. A população precarizada não entendeu que essa é hora de parar de correr feito boba atrás dos produtos que a propaganda informa ser o melhor; as mulheres não perceberam que é hora de mandar às favas os padrões estéticos inatingíveis; que chegou o momento de incluirmos as culturas originárias e negras, seus ensinamentos porque as filosofias ocidentais hegemônicas nada fazem além de nos espremer feito processador que extrai suco das frutas.
Talvez se eu não tivesse esses pensamentos descolonizados, eu estaria bem triste, mas minha pele negra e antepassados indígenas me deram bem mais que um lombo pra apanhar. Enquanto isso, nas favelas ao meu redor, os fogos não param.
29 de dez. de 2020
A VIDA NÃO É SÓ BOLETOS
Essa foto é do dia 01/01/2020. Na minha blusa está escrito: “A vida não é só boletos”. Hoje, considero uma grande ironia da vida. Passei o ano compulsoriamente me preocupando só com boletos e contas, posto que, nenhuma diversão fora de casa me parecia viável e não tinha como. De certo modo, 2020 foi um ano só de boletos e seu tempero mais venenoso: desemprego.
26 de dez. de 2020
HABLANDO CON AMERICA
Eu tive uma vida muito marcada pelos aspectos de um Brasil colônia que foi normalizado, normatizado ao longo do tempo. São coisas desumanas, sempre sem sentido que atravessaram os séculos como coisas normais porque são aplicadas aqueles que justamente foram desumanizados, objetificados. Alguns desses aspectos eu só tomei conhecimento porque sempre li muito, sempre fui muito interessada em História e nunca confiei nas histórias narradas nos livros e mastigadas para nós professores, para que regurgitássemos pros filhotes das gerações seguintes.
Essas coisas fazem parte do cotidiano da gente e a gente nem percebe. A percepção quando acontece, é eventual e talvez por isso a gente tenha tanta dificuldade de se organizar para em bloco lutar pelas mudanças, fazer cobranças ao sistema e assim somos cobrados, criticados. Nós somos a terceira pessoa do plural, eles, ou do singular: “o povo” ou ainda, “o brasileiro”. “O povo que não gosta de ler”, “o brasileiro que não sabe votar”, o “povo malandro”, “o brasileiro vagabundo”. O brasileiro criado pelos sequestradores, saqueadores que nos encarceraram por seus crimes, nos tiram tudo e ainda falam mal de nós que contritos agradecemos afinal, eles tem a pele alva e a força bruta.
Por exemplo: Fui dada em adoção porque meus pais não tinham condições para me criar ou especificamente para me enterrar. Aos nove meses de idade eu não tinha registro, estava doente e fui desenganada pelo médico ou o equivalente a ele. Até ali não havia grana pra certidão de nascimento, também não para o atestado de óbito. Entre uma coisa e outra, não existia possibilidade de eu ter um tratamento ou alimentação. Normalmente a resposta que eu tinha para isso era que “quem não tem condição de ter filhos, não deve fazer filhos”. Simples, assim.
Meu pai era preto, minha mãe “enganava” como branca apesar dos traços indígenas. Ela era mais velha que ele. Parece que o padre não quis casar os dois. Eles foram morar juntos, uma prática condenável, aliás várias. Amasiamento inter-racial de uma mulher mais velha que o homem.
Meus pais se separaram logo assim que eu nasci, eu fiquei com a minha mãe que por não ter muita escolaridade e por ser o costume mesmo, trabalhava como doméstica e não conseguia emprego tendo nos braços uma criança doente que chorava o tempo todo. Isso era visto como um ponto fora da curva, era um problema dela. Cada patroa apenas dispensava uma empregada mas quantas mulheres temos até hoje na mesma condição?
Meu pai ficara com a minha irmã mais velha e a mandou para a casa de uma irmã dele e essa divisão teve menos a ver com a nossa idade do que com a cor da nossa pele. Minha irmã tinha pele escura, eu não, e isso bastava para que meu pai fizesse a célebre e usual declaração masculina da época: “Esse filho não é meu”.
Tudo isso me fez entender sem compreender muito bem, desde bem jovem que os filhos eram das mães. Que comunidade e família eram apenas palavras de boa sonoridade e rima fácil mas apenas palavras que não me explicavam para que os homens existiam e qual o papel deles no mundo. O que mais eles poderiam fazer além de criar problemas, situações difíceis sob as (ausência) luzes das inverdades. Eu precisei de muitos anos pra enxergar que eu pertencia a uma classe de excluídos pela própria exclusão e que não era minoria. Pessoas que são penalizadas por terem nascido num ambiente onde não se é humano, a gente é só força de trabalho, não importa como vivemos ou o problema que temos, a gente precisa funcionar dentro de um papel que nos impõem e ponto.
Nasci e fui criada num bairro que atualmente pertence à Zona Oeste do Rio de Janeiro e que tem a peculiaridade de ter sido Zona Rural, de ter demorado a se desenvolver e, antes, ter sido também Zona Industrial. Um bairro com dimensões municipais usado pelo Estado como área hospitalar para distúrbios mentais, tuberculose, hanseníase. Antes de tudo isso foi fazenda do Barão da Taquara, quintal de senhores de engenho como Marquês de Jacarepaguá, Baronesa, duquesa de Jacarepaguá. O que dizer de uma nobreza com esses nomes indígenas? Em Jacarepaguá ninguém é educado, todos são colonizados, quiçá, adestrados.
As minhas lembranças de infância, identificam a partir do vestuário e vocabulário um certo sotaque — pessoas urbanizadas e pessoas da roça. Meus tios avós que tinham as mãos calejadas, os rostos muito vincados — eu percebia mas não entendia — Eram trabalhadores rurais de dentro do perímetro urbano e eles tinham todo um código de ética e ótica diferentes da gente que morava ali pertinho, no mesmo bairro mas que não era da roça. Jacarepaguá era alguma coisa entre o Centro, a Zona Sul e o subúrbio, mesmo sendo longe disso tudo e não sendo nada disso. Mas tudo isso dava características muito especiais às pessoas dali. Minha família possuía uma diversidade inusitada, uma réplica em pequena escala de um país colonizado uma casa grande preta com senzala branca. Nunca compreendi muito bem porque só eu comecei, em casa mesmo, a entender, lidar e gostar de diversidade. Éramos criados para sermos invisíveis. Uma forma de não causarmos problemas e não sofrermos.
FORMAÇÃO:
Fui beneficiada pela Lei de Diretrizes e Bases, 5692 de 1972. E daí?
Daí que não precisei fazer concurso para estudar o “ginasial”;
Daí que isso significa que na minha família inteira, ninguém nunca tinha feito o “ginasial”, de 5ª a 8ª série;
-O que significa que eu não pude ter nenhuma orientação sobre caminhos profissionais e continuidade dos estudos e talvez tenha feito tudo errado, mas orgulhosamente, fiz.
-E que eu precisava devolver logo a oportunidade de ter estudado. Contribuir com o orçamento familiar, da família que havia me acolhido mas não estava mais inteira, posto que meu pai de criação tinha desertado da tarefa de criar os 5 filhos que fez mais eu que aceitou cuidar. Questionar os conceitos “palavra de homem”, “homem de verdade”, “provedor da família” foi algo que sempre me fez bem, embora não tenha me privado das dores, incerteza e inseguranças.
A minha geração teve muitas “facilidades”, por exemplo, sou do tempo que a carteira profissional “de menor” foi abolida; Lugar de criança era na escola, mas a gente deixava de ser criança cedo também, o que fazia com que as coisas não mudassem muito.
Sempre estudei em escola pública e as escolas públicas de nível fundamental tinham uma coisa chamada “Caixa Escolar.” Era um envelopinho que a gente levava para casa e devolvia para a escola com uma quantia dentro. Ninguém ficava sabendo, mas todos que contribuíam também podiam se beneficiar, retirando material escolar ou comprando mais baratos, livros e até uniformes.
Se tinha discriminação?
Claro que tinha! Quanto mais benefícios se retirasse da Caixa Escolar, maior a discriminação, isso por parte das crianças que naquela idade, transportavam exatamente o que ouviam em casa. Se é que podem me entender quanto ao impacto que isso teve na formação dessas cabecinhas regadas pela ditadura e suas proibições. O aluno da caixa escolar até podia ser burro. Aliás, esperava-se dele exatamente isso: Dificuldade de aprendizagem e era sempre motivo de estranhamento um aluno branco usando os benefícios da caixa. Por outro lado, não era nada demais ser aluno da caixa escolar, mas o fato é que a grande maioria dos dependentes desse benefício, eram pretos e quanto mais pretos menos contribuíam e mais “retiradas” faziam. O estranho disso era o surpresa que causava um aluno beneficiado ser bom aluno, ter notas altas.
RELIGIOSIDADE:
Eu sou da época que todo mundo era católico mesmo quem tivesse outra religião. Ser católico era uma obrigação, mais ou menos como querem fazer hoje com a neopentecostal. Só que apesar de tudo, a igreja católica era mais Cristo e Novo Testamento. Tinha Dom Hélder, Irmã Dulce e Teoria da Libertação. Mentira sincera não deve ser pecado.
Minha mãe era da Umbanda mas colocava os filhos para fazer catecismo e Primeira Comunhão. Isso foi importante porque não tive o entrave de julgar as pessoas com réguas religiosas. A gente só não podia contar pra todo mundo porque ficava mal visto se fosse macumbeiro. Era normal levar as crianças para benzedeiras, rezadeiras, pretas-velhas. Toda criança tinha um pequeno alfinete com duas figuinhas, uma de arruda e outra de guiné preso na camisinha-de-pagão. Ao mesmo tempo era muito usual a oração diária da Ave-maria, às 18 horas, quando e se colocava um copo d’água com uma vela acesa para se rezar junto com o programa de rádio. Ali na Freguesia, o sino da igreja Nossa Senhora do Loreto tocava nas horas canônicas e a gente interrompia o que estivesse fazendo para tomar a “bênção”. Nos terreiros era comum encontrar muita gente, católica incluindo as madames. Ninguém era menos católico por causa disso, pelo contrário, no entanto, éramos muito mais católicos na hora preencher a ficha na escola. Os “evangélicos” da época eram poucos e chamados de “os bíblias” ou apenas “crentes”. Eram pessoas estranhas que implicavam com as imagens de santos que tinha lá em casa, as mulheres não cortavam cabelo, quando grandes demais o prendiam em coques, não pintavam as unhas e usavam vestidos ou saias compridas que a gente chamava de “maria-mijona”. Eu tinha medo tanto de entidades da umbanda quanto dos bíblias, as entidades sempre contavam o que eu fazia escondido, os crentes tinham um diabo só deles mas que afirmavam que era nosso.
Recentemente, com o comportamento neopentecostal e a opressão que consegue exercer por ter adentrado aos espaços de poder político, a régua religiosa começou a funcionar e confesso, tenho que em articular, me doutrinar para poder ouvir a pessoa depois que fico sabendo que ela é crente. Tenho um comportamento preconceituoso, tal qual “os outros”. Quando me dizem: — Sou evangélico. Pergunto qual a denominação. E aí de acordo com a resposta, eu relaxo ou me armo. Mesmo. Estou errada. Estou tentando mudar mas tenho duvida sobre o que devo mudar. Tudo o que vivi me dá a sensação de quem em algum momento vou bater num muro, mais ou menos como quando eu me afirmava sapatão e ouvia as coisas mais idiotas do mundo. Havia aquelas pessoas que diziam não ter o menor preconceito, mas que eu sabia que assim que virava as costas vinham discursos do tipo:
- Tão nova, bonita, estudada...
- Serpa que sofreu algum trauma?
- Anda não encontrou o homem certo
E isso me soa muito familiar com os discursos de quando eu me afirmava preta:
- Você não é preta! Você é morena!
- Que isso! Preta, não!
Ser preto é algo tão terrível que as pessoa que gostam da gente precisam nos salvar disso, nos retirar dessa lixeira. Até hoje pessoas tentam me ofender me chamando de sapatão ou de crioula. Por que, né?
Eu conto essas coisas porque tudo isso fez parte do meu entendimento de mundo. Um mundo que tive que entender sozinha. Empiricamente na base do erro e do acerto.
Um entendimento que só veio muitos anos depois quando tive espaço para errar e também acertar e foi essa compreensão que me tornou uma pessoa de lutas, mesmo eu não estando, nunca, em nenhum movimento organizado. Nunca consegui fazer parte de nenhum. Porque eu nunca me senti uma coisa só. Nos movimentos falta essa visão geral. Faltava a compreensão da diversidade. Eram guetos e acaba sempre rolando um “Fla X Flu” e de repente, surgem divisões conforme as interseccionalidades. As mulheres não se viam como mulheres que eram mas se tratavam a partir das diferenças que possuíam. Sempre entendi que o mundo não tinha muito como dar certo. E atualmente, cheguei a imaginar que o vírus nos tornaria mais próximas apesar da distância, dando a todas porções diferentes das mesmas desgraças.
Muitas vezes eu ouvi que não podia falar sobre determinados assuntos porque “não era preta o suficiente” ou não era retinta. Parece-me que faltam aos movimentos entregar o que cobram e a noção de que ser brasileira não pra amadora, nem pra mulher fraca. Politizam o que é humano, orgulham-se de conquistam que não passam do meio para baixo da pirâmide social. Quase sempre as lideranças viram celebridades e o foco vai para outros lados, individualizados, sim… Se tornam teóricos, autores, vendedores de livros e todo o tema se resume em texto de um potencial best-seller.
Eu penso que o movimento preto não tem que se preocupar com colorismo, movimento de gênero não tem que se preocupar com a cor de pele das mulheres, apenas abraçá-las, e buscar soluções para as dificuldades que as interseccionais têm e colocar uma carga maior de atenção e bater mais forte em favor daquelas que obviamente sofrem mais preconceitos.
Mulheres brancas têm privilégios? Têm. E tem que ter seu lugar de fala, sim!
— Desculpa, não tenho culpa mas tenho obrigação de ser antirracista e lutar contra o racismo. Simples assim.
Não se pode erradicar o lugar de fala das pessoas, isso é proibir. Os movimentos organizados tem a obrigação de conduzir, mediar e nao reproduzir o comportamento ditatorial que a sociedade como um todo, se achando branca, tem tido até aqui. Numa guerra não se escolhem os soldados por preciosismos e, estamos em guerra, todo braço pra lutar ao nosso lado, precisa ser benvindo ou estaremos criando uma guerra dentro da guerra, deixando o inimigo numa boa, na sua eterna e privilegiada zona de conforto
ONG: Eu sou voluntária desde muito novinha. Sempre dei aulas sociais
Comecei levando o conteúdo escolar para as crianças que ficavam internadas por muito tempo e acabavam perdendo o ano. A ideia era mantê-las conectadas com o mundo e atualizadas de modo que que quando voltassem à escola “não repetissem de ano”. Além disso, essa atividade as deixavam muito mais colaborativas com o tratamento.
Aí surge a aids. Era dilacerante ver as consequências do preconceito. As pessoas não se dispunham a colaborar com as ações para ajudar pessoas que tinham a doença. Era aquela visão que falei no início: “Problema dela.” No entanto, as pessoas se apiedavam e colaboravam para entidades que lidavam com questões do câncer. Então percebi que não era uma questão de poder aquisitivo, mas de julgamento
A Casa da Vida surgiu para ajudar aqueles que não contavam com muita ajuda por questões de preconceitos. Quem? Mulheres contaminadas pelos parceiros e imediatamente estigmatizadas. Crianças que perdiam os pais e ficavam a caro das avós, geralmente senhoras que viveram de trabalhos braçais a vida toda e devido a idade, em muita condição de trabalho
Feminista, eu?
Nunca foi uma questão para mim ser ou não feminista. Nem sabia do que se tratava. Não estava no meu radar. Até eu fazer o curta Procuram-se Mulheres e nos debates após as sessões ter essa pergunta para responder. Era um tal de:
-Você enquanto feminista….
-Você é feminista?
-Como feminista o que você acha de…
Em Recife respondi que de onde eu vinha toda mulher que não aceitava o lugar que lhe impunham, era feminista. Não era uma questão de escolha. Não dava tempo para estudar a teoria. Cheguei aos 50 anos militando por direitos e espaço, incluindo mulheres e drags em tudo o que eu fazia sem nunca ter lido um livro de teoria feminista. Pra falar a verdade, ainda não li nenhum inteiro até hoje.
25 de dez. de 2020
O que os historiadores dizem sobre a real aparência de Jesus
Foram séculos e séculos de eurocentrismo - tanto na arte quanto na religião - para que se sedimentasse a imagem mais conhecida de Jesus Cristo: um homem branco, barbudo, de longos cabelos castanhos claros e olhos azuis. Apesar de ser um retrato já conhecido pela maior parte dos cerca de 2 bilhões de cristãos no mundo, trata-se de uma construção que pouco deve ter tido a ver com a realidade.
O Jesus histórico, apontam especialistas, muito provavelmente era moreno, baixinho e mantinha os cabelos aparados, como os outros judeus de sua época.
A dificuldade para se saber como era a aparência de Jesus vem da própria base do cristianismo: a Bíblia, conjunto de livros sagrados cujo Novo Testamento narra a vida de Jesus - e os primeiros desdobramentos de sua doutrina - não faz qualquer menção que indique como era sua aparência.
"Nos evangelhos ele não é descrito fisicamente. Nem se era alto ou baixo, bem-apessoado ou forte. A única coisa que se diz é sua idade aproximada, cerca de 30 anos", comenta a historiadora neozelandesa Joan E. Taylor, autora do recém-lançado livro What Did Jesus Look Like? e professora do Departamento de Teologia e Estudos Religiosos do King's College de Londres.
"Essa ausência de dados é muito significativa. Parece indicar que os primeiros seguidores de Jesus não se preocupavam com tal informação. Que para eles era mais importante registrar as ideias e os papos desse cara do que dizer como ele era fisicamente", afirma o historiador André Leonardo Chevitarese, professor do Instituto de História da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e autor do livro Jesus Histórico - Uma Brevíssima Introdução.
Em 2001, para um documentário produzido pela BBC, o especialista forense em reconstruções faciais britânico Richard Neave utilizou conhecimentos científicos para chegar a uma imagem que pode ser considerada próxima da realidade. A partir de três crânios do século 1, de antigos habitantes da mesma região onde Jesus teria vivido, ele e sua equipe recriaram, utilizando modelagem 3D, como seria um rosto típico que pode muito bem ter sido o de Jesus.
Esqueletos de judeus dessa época mostram que a altura média era de 1,60 m e que a grande maioria deles pesava pouco mais de 50 quilos. A cor da pele é uma estimativa.
Taylor chegou a conclusões semelhantes sobre a fisionomia de Jesus. "Os judeus da época eram biologicamente semelhantes aos judeus iraquianos de hoje em dia. Assim, acredito que ele tinha cabelos de castanho-escuros a pretos, olhos castanhos, pele morena. Um homem típico do Oriente Médio", afirma.
"Certamente ele era moreno, considerando a tez de pessoas daquela região e, principalmente, analisando a fisionomia de homens do deserto, gente que vive sob o sol intenso", comenta o designer gráfico brasileiro Cícero Moraes, especialista em reconstituição facial forense com trabalhos realizados para universidades estrangeiras. Ele já fez reconstituição facial de 11 santos católicos - e criou uma imagem científica de Jesus Cristo a pedido da reportagem.
"O melhor caminho para imaginar a face de Jesus seria olhar para algum beduíno daquelas terras desérticas, andarilho nômade daquelas terras castigadas pelo sol inclemente", diz o teólogo Pedro Lima Vasconcellos, professor da Universidade Federal de Alagoas e autor do livro O Código da Vinci e o Cristianismo dos Primeiros Séculos.
Outra questão interessante é a cabeleira. Na Epístola aos Coríntios, Paulo escreve que "é uma desonra para o homem ter cabelo comprido". O que indica que o próprio Jesus não tivesse tido madeixas longas, como costuma ser retratado.
"Para o mundo romano, a aparência aceitável para um homem eram barbas feitas e cabelos curtos. Um filósofo da antiguidade provavelmente tinha cabelo curto e, talvez, deixasse a barba por fazer", afirma a historiadora Joan E. Taylor.
Chevitarese diz que as primeiras iconografias conhecidas de Jesus, que datam do século 3, traziam-no como um jovem imberbe e de cabelos curtos. "Era muito mais a representação de um jovem filósofo, um professor, do que um deus barbudo", pontua ele.
"No centro da iconografia paleocristã, Cristo aparece sob diversas angulações: com o rosto barbado, como um filósofo ou mestre; ou imberbe, com o rosto apolíneo; com o pálio ou a túnica; com o semblante do deus Sol ou de humilde pastor", contextualiza a pesquisadora Wilma Steagall De Tommaso, professora da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo e do Museu de Arte Sacra de São Paulo e membro da Sociedade Brasileira de Teologia e Ciências da Religião.
IMAGENS:
Joan acredita que as imagens que se consolidaram ao longo dos séculos sempre procuraram retratar o Cristo, ou seja, a figura divina, de filho de Deus - e não o Jesus humano. "E esse é um assunto que sempre me fascinou. Eu queria ver Jesus claramente", diz.
A representação de Jesus barbudo e cabeludo surgiu na Idade Média, durante o auge do Império Bizantino. Como lembra o professor Chevitarese, eles começaram a retratar a figura de Cristo como um ser invencível, semelhante fisicamente aos reis e imperadores da época.
"Ao longo da história, as representações artísticas de Jesus e de sua face raras vezes se preocuparam em apresentar o ser humano concreto que habitou a Palestina no início da era cristã", diz o sociólogo Francisco Borba Ribeiro Neto, coordenador do Núcleo Fé e Cultura da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP).
"Nas Igrejas Católicas do Oriente, o ícone de Cristo deve seguir uma série de regras para que a imagem transmita essa outra percepção da realidade de Cristo. Por exemplo, a testa é alta, com rugas que normalmente se agrupam entre os olhos, sugerindo a sabedoria e a capacidade de ver além do mundo material, nas cenas com várias pessoas ele é sempre representado maior, indicando sua ascendência sobre o ser humano normal, e na cruz é representado vivo e na glória, indicando, desde aí, a sua ressurreição."
Como a Igreja ocidental não criou tais normas, os artistas que representaram Cristo ao longo dos séculos criaram-no a seu modo. "Pode ser uma figura doce ou até fofa em muitas imagens barrocas ou um Cristo sofrido e martirizado como nas obras de Caravaggio ou Goya", pontua Ribeiro Neto.
"O problema da representação fiel ao personagem histórico é uma questão do nosso tempo, quando a reflexão crítica mostrou as formas de dominação cultural associadas às representações artísticas", prossegue o sociólogo. "Nesse sentido, o problema não é termos um Cristo loiro de olhos azuis. É termos fiéis negros ou mulatos, com feições caboclas, imaginando que a divindade deve se apresentar com feições europeias porque essas representam aqueles que estão 'por cima' na escala social."
Essa distância entre o Jesus "europeu" e os novos fiéis de países distantes foi reduzida na busca por uma representação bem mais aproximada, um "Jesus étnico", segundo o historiador Chevitarese. "Retratos de Jesus em Macau, antiga colônia portuguesa na China, mostram-no de olhos puxados, com a forma de se vestir própria de um chinês. Na Etiópia, há registros de um Jesus com feições negras."
No Brasil, o Jesus "europeu" convive hoje com imagens de um Cristo mais próximo dos fiéis, como nas obras de Cláudio Pastro (1948-2016), considerado o artista sacro mais importante do país desde Aleijadinho. Responsável por painéis, vitrais e pinturas do interior do Santuário Nacional de Aparecida, Pastro sempre pintou Cristo com rostos populares brasileiros.
Para quem acredita nas mensagens de Jesus, entretanto, suas feições reais pouco importam. "Nunca me ocupei diretamente da aparência física de Jesus. Na verdade, a fisionomia física de Jesus não tem tanta importância quanto o ar que transfigurava de seu olhar e gestos, irradiando a misericórdia de Deus, face humana do Espírito que o habitava em plenitude. Fisionomia bem conhecida do coração dos que nele creem", diz o teólogo Francisco Catão, autor do livro Catecismo e Catequese, entre outros.
Postagem original: BBC - Brasil
https://www.bbc.com/portuguese/geral-43560077
13 de dez. de 2020
SANTA LUZIA e EWÁ Santa e orixá feministas
Hoje é dia de Santa Luzia. Protetora dos olhos e visões, aquelas que não necessariamente partem do olhar físico.






