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22 de mai. de 2021

SE TENS UM DOM, SEJA!

 

Infelizmente temos um governo pífio, desarticulado, despreparado que não tentou agilizar procedimentos para que conseguíssemos fazer o lançamento da forma devida, não valoriza a vida, não gosta do povo e a pandemia continua matando, desempregando, endurecendo, empobrecendo🥲.
O outro lado da política é: sobrevivemos, produzimos, demos o nosso jeito, resistimos e já já chega a nossa coletânea “Se Tens Um Dom, Seja!”.
Curadoria do queridíssimo e talentoso intelectual orgânico suburbano, multi artista, Bruno Black.
Por essa e outras esse livro é por demais importante! Principalmente pra mim, sendo o meu primeiro registro literário, de fato, em livro.
Que alegria estar nele com a minha escrita de mulher periférica pretíndia em busca de um país decente e digno!


16 de mai. de 2021

Rozzi Brasil na Coletânea Sarau na Favela

O Sarau na Favela está fazendo 1 ano!
Essa ação na pandemia coordenada por Valéria Barbosa reúne centenas de artistas que fazem uma linda festa a cada semana.  Agora um pouco dessa grandeza está registrado num E-book totalmente gratuito pra você!
Eu estou nas páginas 165 a170. Corre lá!


3 de dez. de 2020

Com Ela, Por ela e Para Ela


À Josefina Maria de Jesus Lopes – in memória

É por ela, mulher negra analfabeta, desejosa de saber traduzir as letras que contam ficções em livros, verdades em jornais, e preces em bíblias, essa gratidão em palavras. Mamãe teve avô professor, mas a alfabetização a ela foi negada, pela sentença machista da época: — Neta mulher, não estuda. Ela, uma mulher que insistia em abrir páginas dos livros e arranhar leituras como quem está a decifrar códigos secretos para alcançar tesouro ao final da leitura. Achava engraçado quando na igreja ela ao negar o folheto da missa se desculpava: — Obrigada, não trouxe meus óculos. Mamãe fez MOBRAL, aos cinquenta, e quão grande foi sua alegria ao tirar o polegar de seus documentos. Essa mulher que tateou livros com olhos, nos enriqueceu de livros, ela fez de nós, seus três filhos, leitores. E antes do letramento, liamos até Machado de Assis, claro que com o livro de cabeça para baixo. E criativas, escrevíamos, também, nossos livros e construímos castelos, muralhas ao historiar nossos sonhos. Lembro-me de suas mãos sobre as minhas, tateando as primeiras letras, como quem busca sua própria alfabetização, quando nos auxiliava a cumprir o dever de casa. Hoje escrevo. Escrevo com ela, por ela e para ela. Minha poesia primeira. Texto de Benedita Lopes

21 de nov. de 2014

DROPS CARIOCA


Eu li no jornal: “O Rio deve bater em breve o recorde de paradas gays do Brasil.”  Dia 16 a mais conhecida , a Prada Gay de Copa e segue a informação com as Paradas de  Madureira, Rocinha, Alemão e Maré, Bangu e Rio das Pedras, encerrando o ciclo no  dia 07 de dezembro de 2014, com a primeira Parada Gay do Recreio.  E essa nota fez-me  pensar que seria uma boa ter  um paradódromo, com hinos bacanas, selecionados por cada equipe que trouxessem letras de esclarecimentos, reivindicações,  conteúdos históricos, pois personagens, personalidades, temas  não faltam. Colocando a galera pra pensar e unindo os que fazem o evento numa competição saudável. Não sei o que diria Caetano, mas eu acho que seria tudo muito lindo!

E  não é que a primeira presidente  do Brasil foi reeleita? Com resultado apertado e,  no sufoco, as máscaras do não preconceito caíram, ou melhor, foram atiradas sem pudor,  num vendaval de uma  carnificina ideológica que expôs  o quanto é dolorido, para alguns o  processo  de aceitação da igualdade.  Os brados das exortações  contra supostos inimigos comunistas nas ameaças de  abandono da pátria dos que vociferaram mas não se foram (e por que não teriam ido?).
 Há muito rescaldo dessas eleições para comentar e o espaço não me permite tanto,
comento então, apenas sobre a falta de amor próprio de uma nação mestiça que não se aceita e não sai do armário, apenas atira pedras (ou seriam cabides) vociferando em terceira pessoa a falta de qualidade que atribuem àquela parcela de povo que na ausência de grana para gerar lucro investindo em grana, investe com o seu braço, seu suor, criticada por gostar de futebol e tomar uma cachacinha nas horas de folga como se isso   atrapalhasse em alguma coisa...  Ressalta-se na cena, uma garotada que sente falta do que não viveu e, talvez, por isso esteja ensaiando o coro para chamar de volta as trevas militares.  Pessoas que  se  não exaltam o  orgulho de ser brasileiro, fazem questão de destacar o orgulho de ter dinheiro e poder ir para Miami ou Orlando fazendo biquinho, batendo o pezinho, como crianças que ameaçam fugir de casa quando não ganham o direito de brincar com aquele brinquedinho que a mamãe guardou em cima do armário. Ah, por que não foram? Que pena!

Eu entendo que o PT  adubou seu crescimento com  atos de oposição,  discursos  contra a corrupção e a favor  da ética,  não soube diante de uma atônita população, honrar e, assim sendo  não teria o direito de aprimorar esquemas e elevar as cifras dos desvios do dinheiro público, mas não lembro de membros de governos anteriores irem para a cadeia por crimes de corrupção, o que me deixa sem entender porque exatamente essa parcela de povo tanto grita tanto essas coisas e esquece corrupções sem punições  de outrora. Mas... Como falar de memória para um público que ignora na história o  capítulo  que a ditadura militar escreveu por mais de 20 anos, milhares de morte e milhões de absurdos?

  Também não entendo o chororô pela falta de qualidade dos candidatos para se votar aqui no Rio de Janeiro no 2º turno,  quando havia opção, mas preferiu-se mantiveram os mais dos mesmos elevados pela mídia.

E foi assim que diante de uma população que precisa criminalizar a homofobia,  necessita dar voz às mulheres que não tem direito sequer sobre seus próprios corpos, diante de um noticiário que evidenciou o enriquecimento da nojenta  máfia do aborto que oculta e mutila cadáveres, da propinas milionárias dos militares da milícia, precisa substanciar a
educação,  assistimos à votação mais que expressiva do expoente do atraso e a eleição do seu herdeiro, que nada tem em seu discurso que não violência e ódio. 

 Não acredito que esses fatos mostrem que somos uma nação contraditória Acho que não somos articulados o suficiente, sabemos as palavras e não formamos frases que façam sentido. O ranço da cultura dos coronéis  ainda nos contamina, a política paternalista ainda nos impede de crescer tanto quanto o populismo  e como irmãos de família numerosa, brigamos, nos ofendemos e estapeamos enquanto passamos pelos mesmos maus tratos. A diferença é que uns vão pro samba, pro Maraca, pra birosca e outros vão pra Europa.

Nunca mais seremos os mesmos depois desse  26 de outubro de 2014, principalmente aqui no Rio, onde o mar aproxima  favelas e coberturas, onde a  comunicabilidade e ginga do carioca nos ilude que estamos juntos e misturados. Não estamos e isso não é bom, mas é bem melhor  que esteja claro e que estejamos cientes. A hipocrisia não é a linha certa para escrevermos nosso futuro.

10 de out. de 2014

FIQUE DE OLHO


Capada Revista S! Outubro 2014
Quando vocês lerem isso aqui, terá passado o primeiro turno da eleição, mas haverá o segundo o que muitos consideram uma chateação. 
Pois bem, não é e não deveria ser afinal, eleição é algo que nunca passa.
Discordo do discurso que rola por aí feito moeda de 1 real que o povo é conivente com as desgraças que lhe aflige porque não sabe votar. Papo prepotente de riquinhos e burgueses que adoram a situação e ainda tripudiam, pois se não aprendemos a votar é porque ninguém ensinou, e se não foi ensinado é porque não interessava que o povo tivesse voz. Provavelmente essas pessoas puderam completar o terceiro grau e até fazer curso de línguas ou MBA o exterior. 
Pra completar, devem ser descendentes daquelas figuras que se beneficiaram da escravidão, desapropriaram e expulsaram moradores nas cercanias da Praça XV pro rei fugitivo de Napoleão poder morar com conforto.
Saberiam votar aqueles que votam em causa própria, participando de alguma forma de tantas maneiras criadas para que o imposto que todos pagamos jamais retornasse ao povo em forma de benfeitorias públicas?
Pois é. 

Todas as vezes que falavam da nossa democracia brasileira, eu ficava estressada, pois que democracia é essa onde o voto é obrigatório e não conseguimos enxergar um candidato em qualquer nível eletivo que nos representam?

Temos partidos onde estatutos e ideologias ficam no campo da teoria ou burocracia, quando a troco de aumentar suas possibilidades e horário de propaganda eleitoral se coligam a qualquer outro sem a menor afinidade.
Não dá para culpar o povo por fazer suas escolhas com critério baseado no indivíduo, ignorando partidos, bandeiras, bases ideológicas e afins.
No entanto, desde o descobrimento do Brasil, passando pela monarquia, temos aqui um longo processo composto de fases obscuras onde mulheres não podiam votar, pessoas de baixa renda também não. Votos conseguidos à base de pressões e violências de todos os tipos. Promessas mentirosas, trocas jamais cumpridas, camisetas, bonés, dentaduras, empregos, terras, casas, mentiras e mais mentiras em situações parecidas com as dos colonizadores que traziam espelhos para os índios em troca de suas riquezas. 
Motivos mais do que justos e relevantes para que aprendamos a valorizar as eleições e entendermos que elas não são apenas um período a cada 4 anos, porque o melhor delas é justamente quando os eleitos colocam-se ou deveriam colocar-se a trabalhar para nós.
Política não é algo que deva ser restrito aos que tem coragem de se expor e concorrer aos cargos assim como nós ao nos candidatarmos a um emprego.
Política é a prática do viver. 
Estamos fazendo política desde quando comentamos as ações daqueles que nos cercam, quando optamos por denunciar ou não qualquer tipo de situação, cobrar nossos direitos ainda que denunciando um serviço ruim numa rede social, quando escolhemos o colégio das nossas crianças concordamos ou discordamos do conteúdo das escolas.
Política é calar por temer problemas ou represália, também ter o hábito de cumprimentar porteiros, garçons, motoristas e trocadores de ônibus, sim isso faz parte da educação mas é também política, nem que seja a da boa vizinhança.
Portanto, permanecer no ciclo das próprias necessidades, pensando em votar naquele que poderia lhe dar uma vantagem, é participar de certo modo de toda a rede de corrupção que nos empobrece a cada dia.

Fique de olho nesses candidatos que criticam nepotismo e apresentam seus filhos no horário gratuito eleitoral.

Fique de olho, nos artistas e celebridades que decidem ser candidatos sem propostas ou propósito, lembre-se que votar num Tiririca além de não ser um protesto, não deixa de ser uma forma de tornar nulo um voto.


Linque, articule, ligue as datas das eleições ao restante dos dias das nossas vidas. 
Buscar saber o que fez o seu candidato depois de eleito, saber o que ele pensa sobre as categorias as quais nós pertencemos, que tipo de leis elaboraram, se comparecem ao local de trabalho, faz parte do aprendizado.

20 de set. de 2014

MINHA COLUNA NA CAPA

Quem frequenta o blog sabe que é com muito prazer que escrevo a coluna mensal  Vida Urbana (por isso o cabeçalho aqui no blog)  para a "Revista S!" -  que é um veículo de informação, orientação para saúde, cultura e guia do lazer e entretenimento do segmento LGBT.

Em agosto a minha coluna foi deslocada para a matéria de capa da publicação, por ser o mês comemorativo da "Visibilidade Lésbica".

Fiquei muito feliz! 
O texto é  esse:

NINGUÉM TEM QUE SER MORTO POR SER DIFERENTE ou ...
"O QUARTETO de LESBICAS NO ESTILO DISNEY WORLD"

10 de ago. de 2014

NINGUÉM TEM QUE SER MORTO POR SER DIFERENTE ou "O QUARTETO de LESBICAS NO ESTILO DISNEY WORLD"

Como estamos no mês comemorativo da Visibilidade Lésbica, queria começar esse texto falando sobre a  recém-falecida novela “Em Família” com o seu quase fantástico quarteto do gênero Clarina / Flanessa> Acontece que assisti o filme  holandês  “Um Grito de Socorro” (Spijt!)  de 2013, sobre um menino gordinho que sofria  bullying todos os dias na escola. 
E o que tem uma coisa a ver com a outra? 
O filme também destaca a (falta) de atitude das pessoas que cercavam o gordinho, pessoas que, no meu modo de ver, não enxergam a vítima para que não exista um algoz. Gente sentada na zona de conforto concedida pela sociedade como prêmio para aqueles que se adaptam à hipocrisia de uma (a)normalidade institucionalizada. Amarrados aos valores trabalhosos demais para serem revistos, "impossíveis de mudar" por ser o certo, por estarem sedimentados. Gente exercendo a mais consistente passividade. Afinal, violência e segregação não tem nada de normal!
Se o bullying começa travestido de brincadeiras e piadas, é a “vista grossa” que veste  os abusos  sofridos e sufoca  sua vítima no saco da invisibilidade, protegendo os agressores/ criminosos,  podendo elevar  as “brincadeiras” = ações odiosas  à potência de crimes de ódio. E, um crime não é crime apenas quando leva sua vítima à morte ou provoca lesões físicas.                                                                                            Crime é um ato que  infringe as leis e agride direitos, como por exemplo,  o tão badalado direito de  ir vir, o direito de manifestar opiniões, o direito de protestar contra contextos  injustos.
 Tanto o bulying (brincadeira que ridiculariza e subjuga um ser humano por questões que na maioria das vezes ele não tem ingerência) quanto o crime propriamente dito,  tem como consequência aleijar  pessoas psíquica e emocionalmente.  
Ambos (bullying e crime) mudam trajetórias de vidas, incapacitando pessoas para o exercício das suas possibilidades, sonhos, aspirações, habilidades, capacidades, competências
A atitude das pessoas ao redor  define a visibilidade ou não dos massacres que acontecem rotineiramente contra muitos segmentos, mas para alguns desses há a preocupação de buscar-se culpados e gerar estatísticas, como  aquelas  relativas à violência que vemos com mais frequência nos noticiários. 
No entanto, se o crime envolve gênero, passa a ser visto com condescendência, tirando da lista de seres humanos e cidadãos a vítima, uma vez que as leis existem para proteger o cidadão e todos são iguais perante a lei...
Em 2012, o “Disque 100”, serviço de denúncia telefônica da Secretaria Nacional de Direitos Humanos, registrou 6.809 casos de violação dos direitos humanos de lésbicas, gays, bissexuais, travestis, transexuais e transgêneros (LGBT). 
Em 2013 o número de mulheres assassinadas por serem homossexuais foi quase cinco vezes maior que a média de assassinatos dos últimos 20 anos.

Pois é, o Brasil, não ganhou a Copa,  mas é campeão mundial em assassinatos por homofobia. 

É o sétimo colocado em assassinato de mulheres e concentra 44% das mortes por homofobia praticadas em todo o mundo e, mais: 
Em quatro anos os casos de estupro cresceram 157% por aqui. Um vexame bem maior que perder de 7x1 para a Alemanha... O poder público, “não produz estudos aprofundados, evitando trazer à luz o nível de violência sofrido pelas mulheres e LGBTs”, subestima esses dados dando sua contribuição para a invisibilidade lésbica.

Falando de minorias, lésbicas, crimes e novela, “Em Família”, criticada do início ao fim, pelo público em geral, penso no comentário do diretor Daniel Filho referindo-se à reação do público diante de antigas produções  que abordaram os  temas  do negro  e relacionamentos  interraciais: “O público recebia melhor quando a dramatização  era apresentada dessa forma”. 
 “Essa forma” era ator branco pintado de preto (Sérgio Cardoso na “Cabana do Pai Tomás), casais interraciais já estabelecidos desde o início da produção (Milton Gonçalves e Suzana Faíni em “Irmãos Coragem”). 
Logo, compreensível  o quarteto de lésbicas no estilo  Disney World, apresentado na novela do Manoel Carlos, um pacote bem embrulhado com tudo o que a sensibilidade da nossa sociedade pode aguentar, modelos que possam ser questionados, invalidados ou mesmo corrigidos.
E por falar em “corrigidos”, Os “estupros corretivos” vêm aumentando. Um absurdo baseado na idéia que “homossexualidade feminina pode ser “curada” pelo estupro", ameaçando a vida de milhares de lésbicas. 
Um crime disfarçado de pensamento,  um  filhote diabólico do machismo com a homofobia.  Esse tipo de pensamento opressor, que subjuga a mulher em sua sexualidade é o que se chama de “invisibilidade lésbica” que dá a noção da carga múltipla de invisibilidade suportada pelas mulheres homossexuais, já que num país machista como o nosso, todas as mulheres são invisíveis, apenas porque são mulheres. No máximo avistam uma bunda aqui, um peito ali....

A importância de ser visível pode ser observada num fato acontecido no meio do ano passado, 2013, quando o deputado federal  Marcos Feliciano  aprovou a “Cura Gay” na Comissão de Direitos Humanos da Câmara de Deputados e milhares de pessoas nas redes sociais e nas ruas protestaram com o “Fora Feliciano” conseguindo com o clamor popular a retirada do projeto. 

Portanto, entrar no armário não é solução para invisibilidade lésbica, mostrem-se meninas, o Brasil precisa mostrar sua verdadeira cara, educar seus ignorantes e punir os verdadeiros bandidos! Ninguém tem que ser morto ou humilhado por  ser diferente.

Fonte das estatística citadas: www.pstu.org.br

10 de mar. de 2014

Desrespeito, seu nome é mulher


Março é o mês da mulher. Meu editor pediu que escrevesse sobre as grandes mulheres de todos os tempos. Mas como conseguiria eu fazer isso, se empaquei diante da notícia de morte do pequeno Alex que teve o fígado dilacerado por espancamento? Espancamento constante e diário. Espancamento para que ele aprendesse a ser homem, para que deixasse de gostar de lavar a louça, para que aprendesse a andar como homem, para que mesmo criança perdesse o gosto por cantar e dançar.


Alex foi mandado pela mãe, da Paraíba para o Rio para viver com seu pai a fim de que 
Alex, o menino morto pelo pai, teve o fígado
dilacerado pelos constantes espancamentos
pudesse frequentar a escola. O pai de Alex tem antecedentes criminais, envolvimento com o tráfico de drogas, mas o que foi nocivo e fatal para o pequeno Alex é o pensamento vigente de que um homem tem que ter jeito de homem. Pai e mãe de Alex tem um outro filho que gosta de lavar a louça e que já foi espancado por isso e mudou-se, indo morar com parentes.

A sociedade no geral declara nas redes sociais que são compreensivos com os gays, alguns até tem amigos gays porque são “discretos”. Meninas lésbicas tem lá o seu quinhão de paz quando não são masculinizadas, porque "ainda tem jeito", precisam superar um “trauma” ou encontrar um homem que lhes mostre “o que é bom”, quando fazem o estilo “butch” recebem os piores apelidos.


Homens quando transcendem a trajetória da pobreza, escolarizados e ricos conseguem algum respeito por parte da nossa hipócrita sociedade, mulheres vitoriosas na carreira, independentes na vida,  ganham novos apelidos pejorativos, independentemente da opção sexual. Mulheres ainda que competentes, capacitadas e poderosas, precisam ser bonitas, jovens e magras para ganharem um respeito altamente desrespeitoso. 

E aí, para não fugir da pauta proposta pelo José Carlos, tivemos grandes mulheres algumas lésbicas que foram parar na vala comum do ostracismo. Tivemos grandes mulheres heterossexuais que amargaram os mais desprezíveis julgamentos. 

Ainda se cobra da mulher uma postura antiquada, proliferam as piadas sobre virgindade, sobre o amor feminino pelo status econômico dos homens. As heroínas que deram origem à comemoração do Dia Internacional da Mulher, eram operárias que reivindicando salários iguais aos dos funcionários masculinos, foram trancafiadas na fábrica em chamas durante o ato de protesto.

A reflexão sobre a condição feminina precisa ser muito maior que as comemorações.  O poder instituído não vacila em usar de todo o tipo de violência para enquadrar um ser humano na forma da nossa hipocrisia social arcaica. O homem que matou o próprio filho a pancadas, queria “apenas” que ele tivesse “jeito de homem”, para a mulher não basta ter jeito de mulher, ela tem que se enquadrar no modelo secular de subserviência, prestar obediência, agir como propriedade. 

Esse machismo é tão arraigado, que faz com que mães criem seus filhos de modo a dar sequencia a esse equívoco sexista. São as mulheres que criam os homens e lhes transferem conceitos que mais tarde serão usados contra elas.


A liberdade sexual trouxe novos ônus e não dispensa o crivo da crítica que faz da mulher independente uma vadia. A violência contra a mulher é sempre entendida como responsabilidade dela própria seja por suas roupas, seus hábitos ou estar em lugares errados em horas inapropriadas. Tal qual o gay, por mais que a mulher consiga espaço, terá carência de respeito. Há na nossa sociedade um profundo desprezo pelo feminino, não importando em que corpo ele habite.

17 de fev. de 2014

É Folia Nesse Dia Ninguém Chora







Revista S! | Fevereiro - 2014 | coluna Vida Urbana Rozzi Brasil            

 O Carnaval originou-se na Grécia em agradecimento aos deuses da fertilidade pela produção do solo. No século XI, surge a festa carnavalesca um  “deleite dos prazeres” em contraponto aos 40 dias de jejum e abstinência da Quaresma, prática da Igreja Católica.  “Carnis Valle”, expressão que deu origem à palavra carnaval onde, “carnis”= carne e “valles” = prazeres. Aqui no Brasil, o carnaval teve sua origem no “Entrudo” português  uma brincadeira na qual as pessoas jogavam água, ovos e farinha umas nas outras e que  acontecia antes da quaresma, "tendo o significado de liberdade, sentido que permanece até hoje".
No carnaval as mulheres exibem os seios na avenida sem o constrangimento de a polícia  obrigá-las vestirem suas blusas, como aconteceu no ato na Zona Sul do Rio nesse mês. Homem vestido de mulher é divertido, travesti e transsexual tem espaço para toda a sua exuberância.

No carnaval o gay se torna quase uma referência,  seu lado profissional é exaltado e aclamado e a sociedade consegue  separar sua vida pessoal do seu valor profissional - “Pra tudo se acabar na quarta-feira”, com o respaldo da  pergunta  que já vi muitos fazerem: “Onde ficam todas essas mulheres lindas e peladas o ano inteiro?”

Provavelmente guardadas dentro do armário da hipocrisia, acusadora de dedo em riste durante o restante do ano. Dentro dos punhos fechados com discursos de ódio que beneficiam grandemente aqueles que tem coragem para proferi-los, protegendo sob seu guarda-chuva de ignorância todos os demais que não tem a coragem de assumir seus preconceitos, mas respiram aliviados cada vez que uma lei a favor dos gays é vetada, cada vez que um garoto morto por espancamento tem como registro de causa mortis o suicídio, sentem-se vitoriosos quando a legalização do aborto é impedida, ainda que a sua proibição cause milhares de mortes de mulheres pressionadas e sem escolha enriquecendo donos de clínicas clandestinas. O carnaval é o único período do ano onde se tem escolha.
Não, meus amigos, a vida não é um carnaval, carnaval é quando todos liberam seus anseios e fantasias de modo a extravasar seus desejos sem que isso interfira na vida alheia. Talvez por isso tenhamos o melhor carnaval do mundo.  Pela nossa origem mestiça,  colonial  e a vergonha enrustida de quem só a assume em regime de fantasia. Milhares de índios, negas-malucas, pretos-velhos, blocos fantasiados de garis, ciganos,  e empregadas domésticas....


Temos o maior carnaval do mundo e nele algumas escolhas. Para quem gosta uma delícia! Para quem não gosta, uma tortura!
Temos trânsito desviado e pouca orientação para deleite dos ladrões. Multidões nas ruas e a TV castigando os avessos à folia com incessantes  transmissões dessa festa. Quem não sai da cidade torna-se prisioneiro com poucas opções de lazer e cultura e quem tenta fugir da folia talvez não ganhe em prazer o que perde se estressando nos longos engarrafamentos, ainda assim pode-se escolher adaptar-se e tentar aproveitar ainda que seja fundando um bloco dos “inimigos do carnaval” fazendo uma orgia gastronômica, invadindo a casa com piscina do amigo mais próxima ou quem sabe, colocando a leitura em dia, fazendo o seu festival particular de cinema ou mesmo saindo para um retiro espiritual oferecido pelas instituições religiosas nessa ocasião. As escolhas talvez não sejam tantas quanto durante o ano todo, mas sempre há uma que tenha afinidade com o nosso nível de amor e ódio pela solidão ou multidão.
  Para quem gosta de samba, batucada e folia  o “deleite” implícito na etimologia da palavra “carnaval”, amplia-se  com as escolhas dos sambas que começam por volta do mês de agosto,  os ensaios das escolas nas quadras, nas ruas e  ensaios técnicos no sambódromo, ou seja, a folia começa muito antes da festa!

As personalidades do carnaval surgem como que por encanto, como se saíssem de um sonho para existirem por aqueles breves momentos. Assim, percebi quando muitos dos meus amigos heterossexuais, que só conhecem “Drag Queen” como adereço de carnaval ou personagens de piadas homofóbicas da TV e do teatro,  revelam-me não conhecer o trabalho de Lola Batalhão, nascida Arthur Araújo de Moura Filho que faleceu dia  17 de janeiro aos 58 anos, reconhecida pelos jornais da grande mídia como um dos “ maiores símbolos do Carnaval de rua”. Lola fundou a “Banda da  Carmem Miranda”, era destaque  da Banda de Ipanema e de escolas do grupo Especial, ator e produtor de matérias especializadas em carnaval veiculadas em  várias revistas conhecidas. Ator, diretor, produtor de moda, aderecista, criadora de um troféu que levava seu nome que reconhecia o trabalho de artistas e personalidades da vida noturna carioca.
Por 30 anos Arthur incorporou a personagem que se apresentou na maioria das casas noturnas do Rio e São Paulo, acontece que fora do carnaval “toda será nudez castigada” e por conseqüência,e o talento e liberdade também.
Bom carnaval!
Não importa a fantasia, jamais dispense a camisinha

(Título: verso do samba "bumbum praticumbum prugurundum - de Aluisio Machado e Beto Sem Braço)

8 de jan. de 2014

Barriga negativa? Nunca terei uma...


E finalmente chegou o verão, viramos o calendário,  época de exibirmos  o resultado   das promessas do ano passado... Não é maravilhoso que não tenhamos um censor  para regular isso?!  
Eu me sinto totalmente desobrigada, afinal,  as 7 ondas que eu pulei não  trouxeram os meus sonhos, não abandonaram o mar para satisfazerem  meus pedidos.

O ano de 2013 trouxe muita coisa boa, já que as coisas ruins  sempre estiveram por aqui, desde o tempo de Adão, Eva e a maçã, não fazemos outra coisa a não ser atormentar a natureza, implicar uns com os outros, cobiçar os dons do próximo, achar a vida injusta e o mundo mau, sem tomar o menor conhecimento das  nossas generosas parcelas de contribuição para isso. 
Não satisfeitos com todo nosso tormento e suplício, pela primeira vez, em 2013, tomei conhecimento do mais novo objetivo de vida de muita gente boa por aí: A “barriga negativa” e sabe o que eu acho? Se não temos uma dessas pra mostrar, vamos  celebrar  tudo e  todos aqueles que contribuíram para toda  a positividade da nossa barriga! Comida de mãe, o “passatempo da sua viagem” oferecido pelos ambulantes dos trens e ônibus, seus filhos (sim, sou do tempo que lamber a cria era mais gratificante do que voltar ao peso normal), aqueles amigos convincentes que não podem saber que estamos em casa, as festas convencionais e chatas que se salvam unicamente pela qualidade do bufet, as Tias do samba e seus quitutes, a nossa preguiça depois da ralação de trabalho, engarrafamento e condução.
Afinal, não bastam todas as amarras sociais e politicamente corretas, a luta pelo conforto e agora temos essa obrigação de estarmos lindos para os olhos e padrões de seres que não sabem um terço do que passamos?

Eu não sei se tendo tempo livre, gostaria de gastá-lo em academias, focada na satisfação pessoal de me transformar em linda para os olhos de outros que não conheço, com os quais eu não concordo e, eu acho que ainda não evoluí  o suficiente para deixar  o  espelho  e ser benvinda ao mundo do Instagram, toda a minha beleza ainda está condicionada às minhas quatro paredes...

 Não é uma crítica a quem faz, é uma solicitação velada que as capas de revistas publiquem  outras perspectivas de felicidade. Aquela que até bem pouco tempo vendia outros tipos de produtos e menos neuroses. Suponho que a ginástica cerebral, seja tão mais penoso e difícil que pusemos outros músculos para trabalhar com resultados mais imediatos, afinal só se sabe das nossas idéias, conversando e os olhos são mais rápidos que qualquer pensamento ou palavra. Vivemos num mundo que simplifica ao máximo para que todos os medíocres sejam exaltados, eles também são filhos de Deus!

Ainda temos representantes do outro lado, aquele lado que não é antigo, talvez apenas um pouco mais romântico, no fundo apenas outros valores, gente que ainda pensa que a vida é para viver e viver não prescinde de moda, status, ditaduras midiáticas. Gente despudorada, que ainda pensa que o melhor presente é a sua presença, seu sorriso e abraço. Pessoas modernas porque se adaptaram à informática, aderiram às redes sociais, como forma de interagir e não de patrulhar ou se exibir e até ousam em convidar pela rede os amigos para um chope presencial!

Não é crime ser gordo, não é afronta ser sarado, crime é ter um mundo tão grande, viver numa cidade tão linda, com gente tão gente-fina e manter-se escravo das aparências e do que os outros vão pensar. Isso acontece desde que o mundo é mundo, mas em tempo globalizado, manter a privacidade é um desafio, manter a individualidade  é outro, onde referências são muito mais importantes que modelos.

Que em 2014,  suas escolhas possam ser suas, se a imagem não estiver de acordo com aquele galã da novela das 21, ainda assim você pode e deve ser feliz.

O espelho não é aquilo que mostra sua aparência, o espelho é aquilo que você irradia e reflete. Se veja bem e será bem visto, muitos poderão não compreender, mas todos poderão gostar!

Dedicada a Juan Espanhol, compositor do GRES Portela, do  Arranco do Engenho de Dentro e dos concursos de sambas cariocas.

12 de dez. de 2013

O QUE NÃO CONHECEMOS, NÃO EXISTE




















Ela nunca teve uma mochila e jamais usou um par de tênis e naquela roda informal de conversas e brincadeiras  entre amigas isso fazia dela uma “legítima” heterossexual.  A brincadeira da ativa e passiva, um mistério para aqueles que  tentam  entender a sexualidade a partir do  modelo  onde necessariamente “tem que “ haver um homem e uma mulher ainda que numa relação entre duas mulheres,  a mim parece apenas um  rasgo de preconceito além de muito interesse dos heterossexuais  e  curiosidade “ voyer” daqueles   que necessitam  ver  ainda que com a imaginação por sob as tintas dos ensinamentos impostos, uma expressão sexual que afinal não lhe causa tanto horror assim. Horror  temos das cenas de filmes de terror, das fotos de  animais estropiados que postam  nas redes  sociais,  pois essas fotos,  sim, nos indignam e aquelas  cenas nos fazem tapar os olhos em vez de espichar o pescoço e aguçar nossa imaginação.

Não costumamos ter curiosidade a respeito do que não nos interessa, tenho uns poucos amigos heterossexuais tão desprovidos de preconceito que jamais me fizeram qualquer tipo de pergunta nesse sentido, os mesmos que vão sem medo às minhas  festas de comemorações pessoais sem perguntar se “aquele pessoal” estará lá. Para eles nunca fez diferença a minha atividade íntima, são esses que realmente lamentaram quando os meus casamentos se desfizeram, foram com esses que eu pude contar a cada contrato de trabalho vencido,  quando perdi meus familiares mais chegados  e sempre parte deles as idéias para os open house a cada casa nova.  São eles que me pedem exemplares dessa revista e tem orgulho de mostrar os “meus bons textos”, sem nenhum constrangimento pelo público alvo dela.  Convidam-me  para os seus eventos familiares e quando estou  com namorada apresentam-na   de forma simples e  objetiva como uma amiga ou mesmo companheira.  Comportamento que me remete à célebre frase enfadonhamente disseminada na internet onde “simplicidade é o que há de mais sofisticado”. No geral são pessoas bem resolvidas, que não se prevalecem da sua situação econômica nem aguardam uma  fragilidade  e emocional para tirarem proveito daquela pessoa que em “estado normal” jamais lhe cederia um momento romântico ou erótico. São pessoas que tratam bem os homossexuais, melhor do que muitos da classe tratam os seus iguais. São pessoas que entendem que um casamento gay não mudará o fluxo do seu universo, se nele não há  esse tipo de desejo.

Você pode me perguntar porque esse tema em pleno mês de natal, é que  sendo essa a data de aniversário de um Cara que amou e protegeu uma prostituta por ela ser uma pessoa, curou pobres e leprosos, andou com todo tipo de minoria da sua época, sem recusar a ela seus milagres, me levam a pensar na hipocrisia dos festejos das  confraternizações sociais e
exortações religiosas.
Quero fazer essa simples homenagem a essas grandes pessoas, minhas amigas, muitas sem religião, alguns ateus, bastante deles  afrorreligiosos e todos tão cristãos! Sei que certamente se angustiam com a equação o orçamento x presentes para tanta gente e o sapatinho na janela para as suas crianças, mas uma angústia que nunca será maior do que a simplicidade e sinceridade  do amor que tem  em seus corações. Nada representa mais o amor do que  o respeito diferentemente de todos os discursos que ecoam por aí. 
O amor verdadeiro não está predisposto ao uso ou abuso. Quem se ama não depende de ostentar seu dinheiro e artigos que ele compra, quem  se ama não se importa com a falsidade, porque simplesmente não se preocupa com o que não carrega em si, uma vez que partimos das nossas vivências para avaliar o outro e o que não conhecemos, não existe.
Eu não tenho esperança que a humanidade se torne melhor, assim, voltada para o consumo, vaidade e vantagem disseminados em massa, mas eu acredito nas pequenas luzes que nos salvam de grandes escuridões.  Que nesse natal possamos lembrar e estar com aqueles que contribuem para que sejamos vistos mais como pessoas que somos e não uma projeção e alvo daquilo que desconhecem e sem saber desejam. Feliz Natal!