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31 de dez. de 2021

EDUCAÇÃO


 Houve uma época da minha vida que eu dizia: Não posso liderar, não sei pra onde ir, como poderia conduzir? Era uma verdade, uma frase, um medo, uma realidade. Mais que retórica, sem nenhuma metáfora. A gente tende a acreditar no que dizem que a gente é.

Se vacilar, passamos a vida acreditando no que nos disseram que éramos. Pode acontecer de não aceitarmos desafios, de não irmos muito pra longe das nossas referências, pode ser que tenhamos um misto de amor não declarado e ódio não demonstrado por algum chegado e guardamos num canto porque não sabemos lidar. Pode acontecer de repetirmos um ditado, uma frase, uma palavra sem atentarmos o que aquilo significa pra quem ouve ou pra gente mesmo.

Cresci num lar humilde, à sombra de uma mulher incrível e jamais questionaria qualquer coisa que ela dissesse. Passei muito tempo pra entender que só quem pode saber de mim sou eu. Não adianta eu esconder as dores, fingir sorriso, mostrar vitórias, isso só vai funcionar quando eu souber valorizar cada feito e se eu não me valorizar junto, esses feitos rapidamente caducarão, perderão a validade e estarei vazia sem entender como.

Existe a hora de ler a cartilha e a hora de abandonar a cartilha. E algumas cartilhas devem ser substituídas por outras que só a gente não contemplada nas antigas, pode escrever.

Precisamos entender que não é o político que sabe o que a gente precisa, nem o modista que identifica o percentual de conforto do que a gente veste. Pagamos e escolhemos o que nos cabe. O estudo dessa gente é para nos atender, a educação é para favorecer o mundo. Ou pelo menos deveria ser. Não dá pra confiar em alguém que estudou só pra ter uma profissão que ganhasse mais. Educação não é isso. Ninguém se torna bem educado porque tem talento, ficou rico famoso ou porque foi teimoso e acertou na loteria, nem mesmo porque estudou. Educação é preparo para viver em sociedade. Ou pelo menos deveria ser.

Aqui, com texto totalmente desvirtuado e saído do roteiro, lembro do meu tio: Baixinho, magro, moreno pálido, cabelos muito pretos e lisos, olheiras tão escuras quanto os cabelos, grandes, profundas, características de família, chapéu na cabeça, roupa nitidamente vinda de outro corpo onde se ajustava bem porque nele nem caia bem. E tio Chiquinho numa atitude que me moía como se eu fosse vidro pra fazer cerol, tirava o chapéu da cabeça, trazia junto ao peito e dizia:

- Francisco. Mas pode me chamar de Chiquinho. Seu criado.

Essa foi a educação que ele recebeu, isso foi o que disseram que ele era e passei mais da metade da minha vida sem entender porque isso me incomodava tanto.

Mas agora eu entendi. 
2022 vai ser muito bom!

30 de dez. de 2021

Pra que dizer mais?
Pra querer mais?
Se eu nunca me vi
Tão perto de ser feliz
:
Tô levando uma fé filhadaputa em 2022
Devo estar meio doida, ou cansada de não acreditar em nada.
Somos treisvezdois a não dá pra parar
Tô levando muita fé filhadaputa pra 2022
Porque aí não tem como errar,
Não tem como não dar certo
Se td der errado tenho Iemanjá por perto
Não tem como errar
Se td der errado tô amparado por Obará.
To com fé no 22. Sou doida não posso negar
Até aqui é a fé que me traz
A gente preta que vem de longe
Sabe que só ela dá um tanto de paz
Pra quem chegou sequestrada, sem direito a nada.                                                                                Nunca fiquei calada, ás vez deixava pra depois.

Chega! Tô com tudo nesse 22!
Mesmo que eu não tenha nada
Você tem o chicote
Nós tem a estrada
Você tem carro, dinheiro e casa
Tenho vida, arte, entendimento e asa
Você compra, eu vendo
Você não paga, eu não me rendo
Você tem dinheiro e não tem valor
Eu tenho tudo porque sou da cor
Que não me deixa só, mais
Eu sou mil pelos vivos e ancestrais (…)
:
 

21 de dez. de 2021

RECOMEÇAR

 

Eu te entrego o que mais prezo o que sempre quis pra mim.
A liberdade de ser livre e escolher a liberdade.
A quem interessa um amor assim?
Minguado, pequeno, franzino, miúdo, sofrido, severino, talhado por maldade.
Quem compra na caixa sem querer ver assim?
A lealdade do amor verdadeiro, que se olha no espelho e se vê tal qual é.
Mal partiu, mal nasceu está perto do fim.
Desacreditado, inocente, sonhador, incompetente, versador, do jeito que é.
Aquele filho que a mãe esconde e o pai não diz sim.
Crédulo, brasileiro sem jeitinho,
crédulo, João bobo, zé mané
Com talento pra viver, com jeitinho pra sofrer,
Adoravelmente acidulce, péssimo aluno, disrítmico, folgado, confortável
zero à esquerda pra enriquecer.
no limite da preguiça, sobre a risca do desafio, tolo, tolo, indefensável.
Nordestino, carioca, baiano, crioulo, e tudo que se fala mal quando se vê
Não vai lhe contar nenhuma história que viu na TV
Não vai te entregar nada que não seja seu,.
Sem abuso

Mas você tá grande e pensa que me engana
quando engana a si mesmo, assim mesmo

A quem interessa a liberdade?
A qualquer prisioneiro que não tenha preguiça de viver.
Que entenda que amar é construir nova casa a cada dia,
É capinar, plantar, semear, regar catar pragas, arar
E no auge do cansaço, recomeçar.

2 de set. de 2021

A PROPOSTA


 Era um dos melhores restaurantes do bairro, a decoração era um tanto rústica, a comida excelente e servida em quantidades generosas, sempre bem cheio quase sempre com fila de espera na porta.

Eu namorava uma pessoa que adorava comer e se sentia feliz em me mostrar "o que era comer bem." Fazia dessas incursões gastronômicas um estandarte, é, ela ostentava mesmo. Quem pagava a conta era eu, se não no ato, depois, quando ela me avisava em desespero que o cheque não tinha fundos ou que só dava pra pagar o mínimo do cartão. Nunca me importei muito com isso, lá em casa comer fora era mais ou menos como viajar para o exterior, não cabia no orçamento, um desperdício, quase um pecado. Então eu pagava com prazer aqueles almoços e jantares mesmo porque foi assim que eu comecei a conhecer as coisas boas da vida e as ruins também. Foi o início da minha vida organizada no mundo. Não havia lugar que eu frequentasse que não saísse de lá com um bom amigo ou amiga de infância.
Tornei-me adepta do ritual de comer fora sem precisar de uma data especial para isso. Tornei-me assídua do tal restaurante que tinha um elenco de garçons do Nordeste que eram extremamente simpáticos, respeitadores e que já faziam valer a pena ir ali. Almoçava qualquer bobagem para jantar lá e como o Rio de Janeiro é um ovo, aconteceu que fui trabalhar num escritório de contabilidade que prestava serviço para esse restaurante e eu via o seu dono quase todos os dias.
Um dia, passei lá pra tomar uma caipirinha. Estava sozinha, queria mais pensar do que beber mas a bebida ajuda nos pensamentos. Era uma tarde bonita de um dia lindo desses que a gente imagina que não existe em outro lugar do mundo e meio que se culpa por não estar em condições de aproveitar. Ainda assim, eu precisava pensar. A vida estava estranha, eu não sabia para onde estava indo, percebia que estava sendo levada. Eu e minha caipivodka que poderia ser de rum, não lembro, de cachaça sei que não era, eu não podia beber cana, o santo proibiu. O dono do restaurante chegou sorrindo e perguntou se podia sentar-se pra conversar um pouco. Educadamente disse pra ele que eu estava de saída. Educadamente ele entendeu.
Eu precisava pensar e não queria conversar com um cara que eu conhecia pouco num momento em que me sentia frágil. Eu estava tentando entender porque do nada algumas pessoas da minha família tão radicalmente contra os meus relacionamentos deram pra estender tapete vermelho para a minha namorada. Esse era um assunto que não dava pra perguntar. Por erro meu, talvez, não rolava esse tipo de conversa lá em casa. Sempre fui uma pessoa de momentos e naquele, especificamente, queria conversar comigo mesma e com o meu copo de birita.
O dono da casa se retirou. Não teve a conversa. Ela aconteceu uns dias depois. Ele passou no escritório e me convidou para ir conversar, disse que tinha uma proposta. Eu que já havia conversado com o patrão sobre aumento de salário sem sucesso, certa que era uma pessoa de sorte, imaginei que seria uma proposta de trabalho. Fui pra ouvir ou, como dizia minha avó, "fui assuntar" estava um tanto apreensiva porque até então evitava analisar o que ele mesmo havia me contado, certa vez, que ia ao nordeste e trazia “umas dúzias de homens” para trabalhar no restaurante. Ensinava o serviço porque eram “xucros” e eles dormiam em algum lugar que eu nunca conheci ali, no restaurante mesmo. A situação em si não me chamou tanto a atenção quando foi exposta, só fiquei desconfortável com os termos que ele descrevia aqueles homens que eram da mesma cidade que ele...
Uns risinhos pra lá, uns cerca Lourenço pra cá, quando eu estava distraída e a proposta aconteceu, resumidamente, mais ou menos assim:
Ele era casado (e eu não lembro agora há quanto tempo), amava a mulher e viviam bem, me dizia, mas tinha anseios de pular a cerca e não podia fazer isso de qualquer maneira. O risco era alto, pela posição financeira dele, "perigava de rolar um barraco com uma periguete qualquer" que prejudicasse seu casamento, mas principalmente pelo grande apreço que ele tinha ao seu bilau que "não foi achado no lixo" e mais alguns blá-blá-blás.
Hoje eu tenho vontade de ver que cara eu fazia ouvindo essas coisas que me soavam como atrocidades. De toda a forma, a cara qualquer uma que eu tenha feito não o intimidou. Seguiu falando:
- Eu sei que você namora a fulana, então queria te propor o seguinte: Monto um apartamento pra você, pra gente se encontrar uma ou duas vezes por semana. Um apê bacana, você pode decorar ao seu gosto. Te dou um carro e uma mesada que a gente pode combinar e você não pode arrumar outro cara, tem que ser só eu na parada. Eu sei que você não é chegada mesmo, mas só pra ficar bem esclarecido e outra coisa: Não vou mexer com a sua menina. Se você quiser viajar eu dou um jeito. Conhece o Nordeste?
😮
- Então, rapaz, se você está dizendo que eu "não sou chegada" como me propõe uma coisa dessas?
- Porque eu sou um cara legal, carinhoso, diferente dos caras que você conheceu.
Eu matutava o que ele poderia saber sobre os caras que eu conheci, se é que tinha conhecido algum. Só consegui dizer:
- É?
- É. Não vou fazer nada que você não queira. Tem muito cara mané que não sabe tratar uma mulher. Acaba que você ficou assim.
Eu tentava imaginar o que ele entendia por saber tratar uma mulher, não me parecia um bom tratamento o que eu via ali, ele oferecer à mulher dele.
- Assim como?
- Ah, Roze... Pô, assim. Gostando de mulher. Embora que eu te entendo muito. Porque mulher é bom mesmo...
(Não vou escrever tudo aqui, vou guardar as piores partes pro meu livro).
Como cantava Cazuza, “eu queria ter uma bomba, um flit paralisante qualquer”. Não conseguia encontrar palavras pra responder à altura. Eu era uma garota romântica mesmo não assumindo isso, não acreditava em contos de fadas, mas aquilo era um pouco demais pra mim. Era meio bobona, tinha uma vida um tanto difícil porque me relacionava com uma pessoa complicada, como disse antes, a vida não estava nenhuma maravilha, mas eu ainda acreditava que tinha jeito, um jeito meu de arrumar as coisas. Não achei as palavras certas, até hoje, acho que não respondi direito.
- Vem cá, você já experimentou propor isso pra sua mãe?
Levantei, peguei minha bolsa e saí sem olhar para trás.

26 de ago. de 2021

QUE A TERRA LHE SEJA LEVE

 


Há muitos anos tive um chefe que era o dono da empresa, eu tinha 23 anos e ele, uns 42. Certa vez ele me deu uma cantada em grande estilo. Foi mais ou menos assim:

Voltei de férias, linda, pele preta-canela super em dia, viajada, cheia de roupa nova, cabelo com o corte da Simone que era a moda e tudo da Cigarra que eu podia ter...
Ele tinha o hábito de tomar champanhe à beira da piscina todos os dias às 18:15 horas e sempre me convidava. Eu ficava por ali, que ele tinha conversa ótima. Era um cara de outro estado, tinha muitas histórias diferentes. Amo histórias.
Nunca percebi que eu era sua companhia preferida pra isso, o horário ficou sendo esse porque o escritório fechava às 18 e quando ele me convidou pela primeira vez, tipo por acaso, eu recusei porque não bebia em hora canônica. Até hoje, não.
Ele me chamava RosEmarL, naquele sotaque do sul e brincávamos muito por conta dos nossos sotaques. Ele me corrigia:
- Não é um copo di leiti quenti! E: um copo dE LeitE QueNNtE
Eu respondia:
- Não é Rosemarl é Rozzimarrrr, Nem carlne, nem porlta
A gente ria.
Eram tempos de Figueiredo, gatilho salarial, Tancredo agonizante e ele falava mal do velhinho. Eu não era mais politizada, larguei a política junto com a faculdade, já tinha abandonado as reuniões do movimento negro mas não dava, como nunca deu pra deixar de ser de esquerda e era franco atiradora independente da causa, na época, chamada LGS.
Ele sabia da minha condição homo afetiva, aliás o mundo sabia. Eu adorava ver o espanto na cara das pessoas que me julgavam bonita demais, culta demais, inteligente demais e pasme - sexy demais para ser apenas sapatão. Sim, porque eu só conseguia emprego quando me munia de decote, saia, salto e muito charme no andar que ralei pra aprender a ter nas aula da Socila.
Nesse dia de volta das férias, no final do expediente ele me convidou pro champanhe costumeiro. - Vamos tomar um Chandon pra comemorar sua volta?
Eu gostava dele e tinha um pouco de dó. Era um cara solitário. Tratando do divórcio recente, a ex linda com jeito de miss, um filho pré-adolescente que era o capeta em forma de piá e uma filha louruda boazuda que sissi demais.
Quando a garrafa chegou abaixo da metade, ele vai ao escritório e volta com uns papéis. Conta que também viajou. Fora à Mauá, comprou um sítio lindo que tinha uma queda d'água e uma pequena piscina natural. Fiquei feliz por ele.
- É pra passar finais de semana?
- Pode ser. Se você me convidar.
- ??
- Eu queria te dizer, que RosEmarl que eu senti saudade de você.
- Ah, eu também. A gente passa mais tempo junto que...
- Não. Eu sinto saudade de você como mulher. Da sua companhia. Da sua conversa, mais da sua alegria. Você é tão menina, angelical com o diabo no corpo.
- Adorei o elogio. Sou bem isso mesmo mas não entendi o sítio.
- Comprei esse sítio pra você. Você ama cachoeira e mato. Diz que gostaria de viver no interior. O meu divórcio está concluído... É um presente de noivado.
Fiquei feliz, aquela felicidade triste de quando a gente não sabe o que dizer e lamenta por não poder atender. Não era uma uma tristeza alegre. Era um desconforto receoso. Mas dei conta. Com jeitinho.
Saí da empresa quando minha mãe faleceu e eu enlouqueci. Não conseguia trabalhar, nem comer, nem dormir de certa forma morri junto por ter de enterrar meus sonhos de filha que eu ainda não tinha conseguido ser direito.
Nos reencontramos depois, creio que só mais umas duas vezes. Minha marida na época era macha abusiva, me cerceava e eu, uma bobona que não percebia. Vivia à minha custa e tinha pavor de eu me encontrar com ele.
A essa altura, ele engrenou um relacionamento com a filha de um funcionário que vivia indo lá cercando, cercando e me odiando. Burlei as vigilâncias quando soube que o filho, já crescido, tinha sofrido um acidente grave. Ele me recebeu com a alegria de sempre, apesar de estar ainda mais triste e carregando uma solidão que dava pra pegar com a mão.
A noiva, me tratou com desprezo. Fodasse. Não fui visitá-la. Na visita seguinte, eles já estavam casados ou morando juntos numa casa bem bacana num sub bairro bem metido a chique aqui perto mesmo. A mona me espinafrou. Eu reagi com elegância pra ela ficar irritada e com a veemência de quem não abre mão de bons amigos. No entanto, nunca mais voltei. Não acho digno mexer com a insegurança de outra mulher por mais que ela mereça e ele embora tenha vindo falar comigo, do lado de fora, na praça, não me pareceu merecedor de insistência por essa amizade. Também não fui por gosto, mas aí já é outra história.
Isso tem quase uns trinta anos.
De terça pra quarta dormi um pouquinho pela manhã depois de concluir uns vídeos e gravações de áudio pro projeto que tem dado sentido aos meus dias pandêmicos. Foram cerca de duas horas de sono. Sonhei com ele. Um sonho muito estranho. Durante o dia esse sonho me perturbou. Queria entender o significado. Não conseguia.
Na época eu ouvia muito Belchior, aquele LP com a foto imensa em preto e branco tinha uma música que me lembrava muito ele. "Pequeno perfil de um cidadão comum." Até hoje lembro dele quando ouço. Lembrei muitas coisas. Não catei o significado do sonho.
Entre tantos afazeres, consegui um tempo pra sentar, fumar um cigarro e tomar uma cerveja, porque Chandon, sem chance. Catei Belchior no Spotfy. Fiz as contas, ele teria hoje uns sessenta e oito, sessenta e nove anos. Tentei imaginar como estariam seus olhos cor de oliva, se ainda usaria cabelos cacheados em volta daquele rosto imenso e se ainda teria aquele sotaque carregado. É estranho lembrar de tantos detalhes de quem saiu do nosso radar. Apreensiva se ele não teria virado um véio da havan.
Dei um google no nome dele.
Descobri que fazia sete anos que ele não morava mais nesse mundo. Morte acontece quando a gente sabe.
Minha roça está fechada ainda. Vou encomendar uma missa para aquele ateu gentil. Aquele gigante triste de riso espalhafatoso. Aquele homem, o único que pensou em me dar algo em vez de tirar.
E como dizia Belchior no final da música que é do Toquinho:
"Que a terra lhe seja leve"

28 de mai. de 2021

SAMBA E PANDEMIA

 


Na boa? A gente tem um governo que não auxiliou em nada os trabalhadores. Num momento de pandemia, exigir projeto para poder remunerar? A gente precisa de ajuda humanitária.

Preciso dizer que temos um imenso contigente de trabalhadores nas artes que não são artistas?
Que temos artistas que não fazem a menor ideia do que seja elaborar um projeto?
Que a essas alturas temos gente que não tem mais internet, casa, familia, juízo, paciência, raciocínio, saúde mental ou vida? Ponto.
De maneira, que essa decisão de liberar roda de samba é mais cruel que as aglomerações promovidas pelo bolsonaro..
Parece mais uma etapa do projeto de eugenia contra a população do samba.
Quem não entendeu pergunta, porque eu tenho certeza sobre o que estou falando.
Tô deprimida de ver a postura de tantos amigos e amigas do meio do samba ou que aproveitaram a pandemia pra pendurar crachá de sambista no peito...
Percebendo o quanto são sambistas de carreira, de ocasião. Muitos estarão de 88 a 60% protegidos, sem querer saber do resto.
Eu só pergunto se os espaços que vão fazer samba, (muitos deles não forneciam nem o papel higiênico e água na pia do banheiro) vão bancar o teste rápido de todos que vão participar e se em caso, testando positivo, vão dispensar a criatura.
Hipocrisia do caráleo. Tem que botar pressa na vacinação em nada mais. Vacinar todos e rápido essa é a prioridade, tudo mais é média eleitoreira, disfarçando a indiferença pela vida do povo.

22 de mai. de 2021

SE TENS UM DOM, SEJA!

 

Infelizmente temos um governo pífio, desarticulado, despreparado que não tentou agilizar procedimentos para que conseguíssemos fazer o lançamento da forma devida, não valoriza a vida, não gosta do povo e a pandemia continua matando, desempregando, endurecendo, empobrecendo🥲.
O outro lado da política é: sobrevivemos, produzimos, demos o nosso jeito, resistimos e já já chega a nossa coletânea “Se Tens Um Dom, Seja!”.
Curadoria do queridíssimo e talentoso intelectual orgânico suburbano, multi artista, Bruno Black.
Por essa e outras esse livro é por demais importante! Principalmente pra mim, sendo o meu primeiro registro literário, de fato, em livro.
Que alegria estar nele com a minha escrita de mulher periférica pretíndia em busca de um país decente e digno!


8 de mai. de 2021

O FILHO do PAI






Muita chuva ontem,

forte e persistente.

Chuva pra lavar,

chuva pra limpar,

chuva pra refrescar

Forte e persistente.

Continuaremos a resistir

Temos olhos suficientes

Para mantermos colados

acompanhando a CPI

Tá pensando o que otário?

Sabemos dos esqueletos no seu armário.

Sabemos que essa tragédia foi encomendada

Estratégia pra CPI do seu paizinho dar em nada

A gente sabe pela sua cara de deboche

Que e você que tá governando

Usando esse ex-vice como fantoche

7 de mai. de 2021

FRUTO INESPERADO

 


Quando vim pra cá, tinha dois vasos de árvore da felicidade. Julguei que eram iguais e dei um pra uma amiga. O cachorro dela comeu. O que mantive comigo, minha gata de tanto dormir e brincar matou.

Eu amo pimenta e não sei o quanto ela tem a ver com felicidade, fato é que, peguei umas 3 dedo de moça gigantes, abri e espalhei, sem muita esperança, as sementes nas terras da outrora felicidade. Faz tempo.

Quando morei na Lapa passei o tempo todo lutando por uma pimenteira e a gata da época comendo todas as minhas tentativas. Matando meu sonho na unha.

Esse canteiro resseca mais rapidamente, fica na costa do sol do quintal. A arvorezinha cresceu desajeitada e franzina sempre amarelada de sol. Mas me entregou seu fruto.

Num momento tão difícil o sonho abandonado respira, o desejo esquecido nasce. Meu mostruário de natureza me sorri. A vida é insistente e existirá sempre mesmo que a gente tenha desistido da esperança.

6 de mai. de 2021

Como Apagar Uma Estrela [1]





Estou lendo um livro que tem 49 anos. Exemplar 1061, da editora Sabiá, que virou Jose Olympio, que a Record encampou. Eu leio esse livro porque me identificava com a autora. Eu tinha menos de 8 anos e entendia que escrevia muito parecido com ela ou queria ser ela quando crescesse. Lia sua coluna no jornal às quartas-feiras e enquanto existiu. Alfabetização e letramento literário. Além disso, achava ela linda. E quando ela desapareceu, menos de 10 anos depois, sem morrer, não entendi nada. Por esses dias lendo teorias feministas, reportagens mulheristas, entendi tudo. Mas queria ter certeza...
No mês de março decidi me dar um presente: Todos os seus livros, 9 no total. Até que não fui infeliz na empreitada. Chegaram 7, o oitavo está a caminho e o nono não vai chegar. O único exemplar que encontrei disponível está custando mais de 400 reais naquele transe absurdo do Estante Virtual.
Existe uma grande diferença entre 8 livros entre 4 e 10 reais e um único livro do mesmo gênero a preço extorsivo. Sou capaz de trocar almoço e janta por um livro e um sanduba de pão com ovo, mas alimentar essa perversidade de um mercado de raridades fabricadas levianamente, não rola.
Ela era uma grande cronista, tremenda escritora, vendia livros aos montes. Belíssima. Eu penso que sua carreira declinou a partir de um episódio pessoal e depois disso, nenhuma reedição, nenhum relançamento, nenhuma atenção para o que ela fez depois e total apagamento para o que já estava feito, antes. Ela foi resumida à sua própria tragédia que em verdade era um direito. Direito que nenhuma mulher tinha. Naqueles tempos as mulheres não tinham o direito de falhar, mesmo que brancas, ricas, bem nascidas. O que é lamentável. Somos cruéis com os vencedores e crudelíssimos se forem vencedoras
Se eu não estivesse tão triste falaria mais sobre ela, mas se falo, certamente cairia em prantos. Deixa pra outro dia. 

5 de mai. de 2021

HUMILHAÇÃO

 

Não tenho mais pranto. Não me cabo de revolta que me instiga mais e mais dores.

Nessa pandemia passei o constrangimento de pedir dinheiro para amigos. Quase fiquei sem teto, fiquei sem luz algumas vezes e internet também. Hoje meu coração dispara cada vez que vejo um carro utilitário com escada. Cada laive que entrou no ar com a minha participação foi fruto de uma certa prostituição psicológica que negociei comigo mesma, pedindo aos amigos a chance de não me deixarem desaparecer numa espécie morte social. Dizendo pra mim que eram pessoas de confiança que não me dariam migalhas e ainda sairiam falando como é o normal e vejo muito acontecer na Casa da Vida - Voluntariado Quem menos contribui é quem mais valoriza a contribuição parca e inferioriza nosso trabalho. Foi experimentar um pouco de alguns lugares como o malabares "dos dimenor" nos sinais de trânsito;
a mãe com criança no colo pelas calçadas e ruas da Lapa;
a vendedora de bala na noite pirada.

Tudo isso porque trabalho com Arte e Cultura.

Então quando o Paulo Gustavo caiu com convid19, não tinha como imaginar que sua juventude (que eu não tenho mais), sua possiblidade econômica de tratamento (que eu nunca tive) não pudessem salvá-lo.
Eu rezei, sim e com a certeza que tudo daria certo porque ele tinha o melhor tratamento, a juventude e muitos motivos para lutar como uma garota, como uma mãe, como um pai de verdade.

Alguns dirão: desígnios de deus.
Desculpa, mas deus jamais designaria um político antivacina como desígnio. O desígnio de Deus é a Vida e não a morte que está no nosso encalço com alvará e incentivo do genocida que lidera país.

Amorte do Paulo Gustavo me fez cair a ficha dos tantos que perdi e não deu pra chorar porque tive que fazer lista pro enterro, porque tive que me manter fora do alcance de ter que ser enterrada também. E agora é por todos os meus e todos os nossos, pelos muito mais de 4mil e por esses mortos em vida que vivem hierarquizando os que podem ou não viver.

Eu vou me manter em casa o tempo necessário após a segunda dose. E não importa se tiver que ficar no escuro e sem internet. Não importa nem se ficar sem casa pra ficar.
Não há como prever o que nos acontece ao pegar essa doença e eu não tenho estrutura pra sobreviver a ela e não posso morrer logo agora que descobri o que é viver

O Menino Filho Que Era Mãe e Foi Pai também

 

“Quando uma mãe perde um filho, todas as mães perdem também”,
dizia Dona Hermínia, mãe do Paulo Gustavo que era filha dele também. Num único homem perdemos toda uma família. Perdemos o filho que descobrimos que somos, a mãe que todo mundo deveria ser e que de certa forma, somos.

Esse menino que era um homem e também mãe de si, dos seus filhos e pai porque precisa ser muito homem pra ser pai; pra fazer filho só precisa ser macho e isso só os escrotos são, aqueles que confundem orientação sexual com caráter, religião com deus.

E eu que sempre detestei comédias aprendi a gostar de "Minha Mãe é Uma Peça" tão diferente da mãe que eu tive mas tão igual em todas as coisas que ela dizia

Que no céu do deus branco e vingativo haja um espaço, que você o perdoe e que Dona Hermínia seja voz guia de suas crianças como foi minha.