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26 de ago. de 2021

QUE A TERRA LHE SEJA LEVE

 


Há muitos anos tive um chefe que era o dono da empresa, eu tinha 23 anos e ele, uns 42. Certa vez ele me deu uma cantada em grande estilo. Foi mais ou menos assim:

Voltei de férias, linda, pele preta-canela super em dia, viajada, cheia de roupa nova, cabelo com o corte da Simone que era a moda e tudo da Cigarra que eu podia ter...
Ele tinha o hábito de tomar champanhe à beira da piscina todos os dias às 18:15 horas e sempre me convidava. Eu ficava por ali, que ele tinha conversa ótima. Era um cara de outro estado, tinha muitas histórias diferentes. Amo histórias.
Nunca percebi que eu era sua companhia preferida pra isso, o horário ficou sendo esse porque o escritório fechava às 18 e quando ele me convidou pela primeira vez, tipo por acaso, eu recusei porque não bebia em hora canônica. Até hoje, não.
Ele me chamava RosEmarL, naquele sotaque do sul e brincávamos muito por conta dos nossos sotaques. Ele me corrigia:
- Não é um copo di leiti quenti! E: um copo dE LeitE QueNNtE
Eu respondia:
- Não é Rosemarl é Rozzimarrrr, Nem carlne, nem porlta
A gente ria.
Eram tempos de Figueiredo, gatilho salarial, Tancredo agonizante e ele falava mal do velhinho. Eu não era mais politizada, larguei a política junto com a faculdade, já tinha abandonado as reuniões do movimento negro mas não dava, como nunca deu pra deixar de ser de esquerda e era franco atiradora independente da causa, na época, chamada LGS.
Ele sabia da minha condição homo afetiva, aliás o mundo sabia. Eu adorava ver o espanto na cara das pessoas que me julgavam bonita demais, culta demais, inteligente demais e pasme - sexy demais para ser apenas sapatão. Sim, porque eu só conseguia emprego quando me munia de decote, saia, salto e muito charme no andar que ralei pra aprender a ter nas aula da Socila.
Nesse dia de volta das férias, no final do expediente ele me convidou pro champanhe costumeiro. - Vamos tomar um Chandon pra comemorar sua volta?
Eu gostava dele e tinha um pouco de dó. Era um cara solitário. Tratando do divórcio recente, a ex linda com jeito de miss, um filho pré-adolescente que era o capeta em forma de piá e uma filha louruda boazuda que sissi demais.
Quando a garrafa chegou abaixo da metade, ele vai ao escritório e volta com uns papéis. Conta que também viajou. Fora à Mauá, comprou um sítio lindo que tinha uma queda d'água e uma pequena piscina natural. Fiquei feliz por ele.
- É pra passar finais de semana?
- Pode ser. Se você me convidar.
- ??
- Eu queria te dizer, que RosEmarl que eu senti saudade de você.
- Ah, eu também. A gente passa mais tempo junto que...
- Não. Eu sinto saudade de você como mulher. Da sua companhia. Da sua conversa, mais da sua alegria. Você é tão menina, angelical com o diabo no corpo.
- Adorei o elogio. Sou bem isso mesmo mas não entendi o sítio.
- Comprei esse sítio pra você. Você ama cachoeira e mato. Diz que gostaria de viver no interior. O meu divórcio está concluído... É um presente de noivado.
Fiquei feliz, aquela felicidade triste de quando a gente não sabe o que dizer e lamenta por não poder atender. Não era uma uma tristeza alegre. Era um desconforto receoso. Mas dei conta. Com jeitinho.
Saí da empresa quando minha mãe faleceu e eu enlouqueci. Não conseguia trabalhar, nem comer, nem dormir de certa forma morri junto por ter de enterrar meus sonhos de filha que eu ainda não tinha conseguido ser direito.
Nos reencontramos depois, creio que só mais umas duas vezes. Minha marida na época era macha abusiva, me cerceava e eu, uma bobona que não percebia. Vivia à minha custa e tinha pavor de eu me encontrar com ele.
A essa altura, ele engrenou um relacionamento com a filha de um funcionário que vivia indo lá cercando, cercando e me odiando. Burlei as vigilâncias quando soube que o filho, já crescido, tinha sofrido um acidente grave. Ele me recebeu com a alegria de sempre, apesar de estar ainda mais triste e carregando uma solidão que dava pra pegar com a mão.
A noiva, me tratou com desprezo. Fodasse. Não fui visitá-la. Na visita seguinte, eles já estavam casados ou morando juntos numa casa bem bacana num sub bairro bem metido a chique aqui perto mesmo. A mona me espinafrou. Eu reagi com elegância pra ela ficar irritada e com a veemência de quem não abre mão de bons amigos. No entanto, nunca mais voltei. Não acho digno mexer com a insegurança de outra mulher por mais que ela mereça e ele embora tenha vindo falar comigo, do lado de fora, na praça, não me pareceu merecedor de insistência por essa amizade. Também não fui por gosto, mas aí já é outra história.
Isso tem quase uns trinta anos.
De terça pra quarta dormi um pouquinho pela manhã depois de concluir uns vídeos e gravações de áudio pro projeto que tem dado sentido aos meus dias pandêmicos. Foram cerca de duas horas de sono. Sonhei com ele. Um sonho muito estranho. Durante o dia esse sonho me perturbou. Queria entender o significado. Não conseguia.
Na época eu ouvia muito Belchior, aquele LP com a foto imensa em preto e branco tinha uma música que me lembrava muito ele. "Pequeno perfil de um cidadão comum." Até hoje lembro dele quando ouço. Lembrei muitas coisas. Não catei o significado do sonho.
Entre tantos afazeres, consegui um tempo pra sentar, fumar um cigarro e tomar uma cerveja, porque Chandon, sem chance. Catei Belchior no Spotfy. Fiz as contas, ele teria hoje uns sessenta e oito, sessenta e nove anos. Tentei imaginar como estariam seus olhos cor de oliva, se ainda usaria cabelos cacheados em volta daquele rosto imenso e se ainda teria aquele sotaque carregado. É estranho lembrar de tantos detalhes de quem saiu do nosso radar. Apreensiva se ele não teria virado um véio da havan.
Dei um google no nome dele.
Descobri que fazia sete anos que ele não morava mais nesse mundo. Morte acontece quando a gente sabe.
Minha roça está fechada ainda. Vou encomendar uma missa para aquele ateu gentil. Aquele gigante triste de riso espalhafatoso. Aquele homem, o único que pensou em me dar algo em vez de tirar.
E como dizia Belchior no final da música que é do Toquinho:
"Que a terra lhe seja leve"

12 de ago. de 2021

A PRESSA

 

Como se não bastasse, enquanto civilização, não termos uma postura decente em relação à morte; Sermos hipócritas ao ponto de tentarmos viver por aqui como se fôssemos merecedores do paraíso e juízes do merecimento ou não do outro a ter de uma vida digna.

Não satisfeitos em não avaliar que a cerimonia de cremação é de uma frieza e cafonice que tira a oportunidade de exaltar o único patrimônio que levamos, única riqueza que deixamos no mundo: o jeito como seremos lembrados, as histórias que nos substituirão na vida.
O ritual que precede a cremação deixa muito a desejar se comparado aos velórios suburbanos e gurufins dos sambistas.
Cada vez mais parece que o mundo tem pressa de se livrar de nós de modo que não reste muitas lembranças e isso é uma afronta tão grande à nossa ancestralidade no que diz respeito à oralidade que deve ser mantida e transmitida.
Deve ser muito ruim não ter um túmulo onde se possa fazer as pazes com quem partiu apressadamente ou que só se fez notar o quanto amado era ao se ir assim sem agenda para o acerto afetivo de contas... Algumas vezes fui ao túmulo da Odetinha pedir graças e saí com milagres e agora nem podemos chegar no céu com essa reivindicação.
Toda vez que morre alguém querido fico pensando na morte e nos paliativos que me tornem menos triste e dolorida. Ter uma referência do que sobrou da vida é muito apaziguador quando não temos certeza de outros níveis de existências. E a sociedade me soa como uma coisa ruim impondo costumes que não são para o nosso bem mas para o progresso dela.

De modo que quero deixar dito que se me cremarem, vão ter os pés puxados e corações acelerados de susto todos os dias, pois eu virei a cada noite, assombrar quem mandou me cremar, quem cremou e quem não impediu.
Quero velório com muita música do samba à Madonna e Michael Jackson, bastante samba mesmo, muito rock BR, sem sofrência e nenhum arrocha que isso tenho tido mais do que mereço em vida. Muita birita e fartura nos belisquetes. Quero todo mundo contando histórias minhas sejam boas ou más, de preferência divertidas e, eu sei que essas são poucas.
Quero bandeiras sobre o meu caixão porque acho lindo quem sabe recolhê-las já dobrando (Império, Portela Botafogo) E aí sim, deixarei todo mundo em paz, porque, sem herdeiros, vou ficar matutando, concentrando energia num jeito de fazer florescer um pé de pimenta no meu último cafofo. É que roseira é coisa de santa, né? Cada um conforme sua vida e merecimento.
- - - - -
Na foto: Abelardo e Heloisa. Que continuariam separados se tivessem sido cremados

21 de ago. de 2020

ENCONTROS E DESPEDIDA

 

Dinho Santiago - crédito: Foto Rozzi Brasil

Uma das minhas primeira amizades na Portela, só que feita fora da quadra mas muito debaixo das asas da águia. Primeiro foi no Orkut, depois na Feijoada da Tia Surica no Rival. Onde eu ia o encontrava. MAM, MAR,Museu do Amanhã, Lapa, Barra, Cachambi... A gente ria porque depois de nos conhecermos nos encontrávamos o tempo todo. Éramos "ratos de samba", mais que isso: Éramos trabalhadores do samba, eu adm , ele, músico e a gente corria muito atrás, a gente trabalhava demais e trabalhava rindo. Rindo e zoando.

 Quando Eliane Faria convidou Filhos da Águia pra participar do seu show comemorativo dos seus 25 anos de carreira que eu produzi, lá no Municipal de Niterói, quem estava lá fortalecendo a galerinha? Quem? Quem?

Ele. Menino bonito, homem bom, sorriso encantador.

 Antes de embarcar pro festival de Recife, fiz aquele workshop pra aprender a falar em público. Aula feita, a professora, Ledjane Motta ia fazer uma apresentação e quem estava lá para acompanhá-la na percussa??? Quem? Quem? Ele, Dinho Santiago!

 Contava comigo na torcida dos Crias e quando entrei pro Samba das Guerreiras Presente não se fazia de rogado, continuava contando e dizia:

- Se o meu samba cair primeiro vou pras Guerreiras, se o teu cair, vem pros Crias.

E a gente ria. Gargalhava. Bebia. Samba Dos Crias era uma grande paixão dele.

 Certa vez, na disputa de samba enredo, a gente ficou sem tubadora pro alusivo no palco da Portela. Ele tocou com a parceria dele, trocou a camisa e veio ajudar a gente. Tanto tempo no samba e foi a primeira vez que vi uma história de solidariedade e amizade do jeitinho que os antigos me contavam.

 Ele era: Tamujunto, xácomigo, queêsso? Pode desanimar, não! Bóra fazer.

Um coração gigante.

O cara que me fez aprender a gostar de caixa.

O cara que ficava possuído quando tocava.

O cara que parecia criança no meio dos seus brinquedos, ali com aquele monte de tambor à sua frente e nunca, nunca deixava de fazer uma pose e dar um sorriso pras minhas lentes.

- Ô Rozzi me marca nessa foto, hein!

 O bebê da Velha Guarda Show, foi tocar lá no azul mais puro, mais bonito onde tudo é infinito.

Obrigada, Dinho Santiago por tudo! Aprendi muito com você, com sua generosidade, com a sua alegria. A vida é assim, quando a gente aprende, parte, muda de tempo, passa de ano, troca de mundo.

Vai na paz. Vai tocando. Que meu pai te guie como sempre. Ver menos


4 de ago. de 2020

1 ANO

 

Há 1 ano meu mundo se movia, se alegrava e se alargava. Eu que nunca fui de provar nada pra ninguém mas que sempre fui muito provada, provava pra uma parcela do mundo o que eu nunca soube de mim. Eu era tenaz e capaz. Eu consigo romper com o fluxo da minha natural indisciplina pra lutar pelo que eu acredito. Zona de conforto nunca foi minha praia

Eu consigo detonar toda a minha natural timidez e demolir a constituição da repressão que me impuseram por uma vida inteira.
Finalmente eu podia me orgulhar de mim sem arrogância, sem imodéstias só com justiça e verdade. 
Eu me descobria e me achava e gostava do que via e encontrava. Fui uma descoberta feliz! 
Não estava mais aqui a menina assustada e insegura. Ela passou, cresceu ou encolheu até sumir. Deixou sua doçura, agora que eu cresci e fiquei forte não mais é preciso afrontar, não preciso de força contra ninguém. 
O mundo, pode não parecer, é muito mais jeito do que força.

Vou me impondo naturalmente para quem assim quiser e saindo tranquilamente de onde não me encaixo ou não sou necessária.

27 de abr. de 2020

Forum M e Pandemônicas na Pandemia

E de repente um vírus miudinho, com cara de mamona parou o mundo desencadeando uma guerra entre o álcool gel e o perdigoto .mas acima de tudo convidando a raça humana a refletir, a se redescobrir, a se reinventar.

No momento do isolamento social, ficou nítido o quanto é necessários se estar junto, mesmo que separados.
Aquela tecnologia que afastava de repente passou a aproximar.

Talvez a maior reflexão possa ser das mãos que não se estenderam, das peles que por cor se separaram, dos corpos que por gênero se racharam no momento de não se tocarem, percebem o quanto precisam estar juntas, sôfregas pelo mesmo medo, sedentas da mesma necessidade de sobreviver para poder atingir um viver melhor.

Pandemônicas na Pandemia é uma série de entrevistas e conversas que o Fórum M traz pra você. AO VIVO pra você poder participar!

Venha conversar com algumas das mulheres que lutam (sempre) pelos que ficam em casa, pelos que não podem parar, pelos que não têm casa pra ficar.

Saiba como a população está agindo contra o novo corona vírus
QUINTA-FEIRA - 30/04
14HORAS
Ao Vivo no Youtube:
http://youtube.com/c/forummdasquebradas

20 de abr. de 2020

DIA 389.496

Quarentena - Dia: 389.496. Já consigo manter distância de mim mesma pra não me contaminar e me especializei em selfie sem mãos.

#covid19 #quarentena #fiqueemcasacovid19 #fotografia #selfie #enlouquecendo #bolsonarovaisefude 

22 de ago. de 2019

COMEMORAÇÃO PRÊMIO CINE PE PROCURAM-SE MULHERES


 E aí, o #procuramsemulheres beliscou um prêmio num festival que está dentre os 3 mais importantes do país e as nossas personagens e equipe técnica correram pro abraço, pra confraternizar, comemorar, papear, cantar. A vida é a arte do encontro, o cinema também é!

17 de ago. de 2019

AMIZADE


 Amizade não é o tempo, é o como. 

É chegar como se nunca tivéssemos ido. 

É ir como quem sempre esteve.

30 de abr. de 2018

Amores chegam quando estamos a fim


Às vezes as pessoas entram na sua vida e você não sabe o que dizer. 
Desejam ocupar um espaço que você não tem e não sabe o que fazer.
Acho que passamos por coisas que nos ferem o coração deixando-o inchado, o peito fica apertado, não dá para acomodar emoções novas.
É questão de tempo, mas vai saber quanto será necessário...
Pra ajeitar gavetas, arrumar o armário de tudo que guardamos?
Quem chega fresco na nossa vida, não tem noção do nosso tempo.
Nem adivinha que o talento para sorrir pode ser proporcional
ao tamanho da necessidade de sorrir como se tudo fosse normal,
à tristeza da dureza dos espinhos que se tem a enfrentar.
Existem pessoas que chegam como amores e ficam como primavera
Mas tem gente que é sol ardente sem espaço para chuvas,
Como dizer a elas que estamos no inverno?
E quando o sol se abre e arde, 
já é tarde.
Do meu outono, recolho as folhas
Nas minhas mãos, ficaram as bolhas
de um trabalho árduo, pesado
de um coração que se tornou calejado.
Coração mais velho que o corpo de uma alma mais velha do que tudo.
Não me iludo,
Amores chegam quando estamos a fim,
não sendo assim, é somente fim.

28 de abr. de 2018

NATAL

Fico lendo as coisas, ouvindo as pessoas e penso umas coisas meio doidas.
Natal não era professor mas fez do Jeronymo Patrocinio o primeiro bailarino do carnaval. Não era maestro mas fez da Tia Surica a primeira intérprete de samba de enredo campeã na avenida. Acho que não era compositor, tenho certeza que não era musa inspiradora mas proporcionou que Paulinho da Viola compusesse uma das suas pérolas mais lindas. 

27 de abr. de 2018

FELIZ PORQUE NÃO TEM OUTRO JEITO














Hoje amanheci feliz.
Apesar de não ter o que quis.
Apesar de não chegar onde precisava.
Uma parte de mim me acalentava.

Amanheci feliz apesar da violência,
da tendência,
sofrência,
negligência.
Sorri pra tolice,
burrice,
breguice...
Resignada disse amém,
Tudo isso, quem sabe,
esteja em mim também.
Hoje amanheci feliz,
Tão-somente,
sem motivo.
Sem felicidade não vivo.
Ela não é de verdade
( Talvez ansiedade )
Mas não é mentira.
Só um artifício -
sem sacrfício.
Sem isso a cabeça pira.
A tal da resiliência
que a mente fabrica
no auge da carência.
Tem que ser assim,
Pegar esse monte de bosta,
tentar fabricar estrume pra'quele jardim,
que sei resiste, dentro de mim.

21 de abr. de 2018

QUANDO SE ESTÁ POR CIMA


SE A GENTE ESTÁ ACIMA DAS NUVENS, NÃO CONSEGUE VER O MUNDO. Ainda assim, é uma bela visão, esse tapete de leveza. Mas como é que Deus ve a gente? 
😲😒

É tanto tiro no pé...


É de se lamentar que o inicio deste sepultamento venha justamente por intermédio da escola que se diz de Resistência e apontada como "a escola dos enredos bonitos". A cada compositor imperiano, dos baluartes aos que sonham, minha solidariedade.
Lá vem as escolas mais uma vez se descaracterizando, mudando no carnaval o que por ser sua gênese e pilar não deveria ser mudado.
É tanto tiro no pé...

20 de abr. de 2018

POR DE SOL

Um por-de-sol acima das nuvens 💙💙

17 de abr. de 2018

Obrigada por ter dado à minha vida sem graça, tanta graça de melodia

                                                         
       Eu era bem jovem e os meus sobrinhos não eram muito mais novos que eu, como ainda não são. Eu sempre curti levá-los ao cinema porque tinha para com crianças uma paciência para as coisas que ninguém lá em casa tinha. Lembro que fomos assistir Bernardo e Bianca dos Estúdios Disney, num tempo que desenho animado não era chamdo de  "Animação", não tinha volume, não existia 3D, era só desenho animado mesmo.
De toda a história do Bernardo e Bianca, foi a cena final que nunca me saiu da cabeça. Bernardo abraçado à bianca, depois de duas horas de peripécias, olhavam o céu azul noturno onde luzia uma linda estrela e surgia a frase inesquecível:
"Está vendo aquela estrela? Ela a fé. A fé é como um pássaro azul,muitas vezes não o vemos mas sabemos que está lá fazendo as coisas ficarem certas".
Daí, que há pessoas que são como essa estrela, como esse canto desse pássaro, a gente precisa saber que estão lá para que tudo esteja certo.
O consolo não é apenas aconchego contra o desespero, mas também um alívio pra dor porque saudade dói, o vazio das noites em nuvens assusta, ainda que as coisas estejam certas. Que nos console a melodia da voz doce desse pássaro negro, lindo de canto verde e alma alva.
Tiê, tiê, olha lá oxá!
Tiê, tiê, olha nós que ficamos cá.
Eu sei da bênção nossa e dela por sua vida plena, sua melodia vasta, seu sorriso lindo, seu querer demais além do concedido no seu tempo. A realização dos seus sonhos, a transformação das pedras nos caminhos em relva doce, fresca, macia. Sua alegria e seu carinho. Eu sei, mas meus olhos não secam nem adoçam, estão inundados de mar. Vai passar e o bom é que o melhor vai ficar.
Eu era muito criança e ainda não tinha sobrinho, meu tio às vezes fazia seresta, samba e chorinho na varanda ao contrário lá de casa. Eu era tão criança que não conseguia ainda entender Candeia, mas gostei de música, fui feliz por entender tudo no dia que alguém cantou: 
"Sonho, meu! Sonho meu
Vai buscar quem mora longe, sonho meu...
Vai mostrar essa saudade, sonho meu". 

Não foi a família portelense que me deixava em casa porque eu era criança demais, o que me levou pro Império assim que eu pude fugir para algum lugar... Foi esse tanto de melodia que eu entendia e aplainou meus caminhos com seus lara-laiás. E no final de tudo a gente cresce perto do que nos traz a alegria e a paz. 
Dona Ivone Lara, foi sempre colo e alegria e a ave se faz estrela de verdade para que tudo fique certo. 
Obrigada, rainha imperiana. Obrigada!
Essa porção de mar a inundar os olhos e sonhos meus, vai passar. Mas por enquanto deixa ficar. 
Obrigada por ter dado à minha vida sem graça, tanta graça de melodia. Dá um beijo no Seu Délcio, tenho saudade dele também.
Obrigada!

15 de abr. de 2018

ELA PENSAVA

Acho que ela pensava que eu fosse mais rica.
Acho que eu pensava que ela gostasse
mais de conversar
Ela gosta de birita
De papo no bar
Eu também gosto
Mas aposto,
Não é comigo
Que ela quer ficar
Ela não sonha e gosta de se preocupar.
A gente se rima
mas não se combina
E a gente se afastou
Mas a gente não acabou
É só um traço-de-união
Que junta separando
o coração...

14 de abr. de 2018

MEU PRIMEIRO SAMBA ENREDO

Quando se está num estúdio de gravação o mundo para. É melhor que seja assim.
Ali, o compositor, a sua música tomando a forma que no no seu sonho irá encantar muita gente.
É ali, um certo pedacinho do céu.
Não se pensa em fama, mas na qualidade que por si só é sucesso.
É ali que sem muita teoria a gente sente que faz arte, é ali que o sonho toma forma em comunidade e acontecem atos comunitários, transmissão de conhecimentos, respeito ao saber alheio e se tiver uma figura incensada ou admirada mas acima de tudo competente pra "botar a voz" esse encantamento se multidimensiona e a admiração cresce com o fermento da certeza de que se está com um artista de verdade. 

Obrigada, Bruno Ribas Samba por ter entrado em cena hoje com a gente!
Hoje, eu - praticamente um rato de estúdio pelas minha multitarefas, principalmente a de registrar o registro, tive uma experiência inédita e como toda estreia, foi emocionante. Pela primeira vez meu nome estará "escrito" num "som". É demais para quem vive de palavras, ouvi-las em melodia! Que as boas energias iluminem esse caminho. Isso me basta.
Obrigada Vanderlei SantannaCatia Guimarães, gente cheia de estrada, por essa oportunidade de compartilhar o talento de vocês!

12 de abr. de 2018

MEUS AMIGOS CARIOCAS











Meus amigos cariocas tem cheiro de poesia,
vozes de rima, olhar de samba-canção.
Riem com os lábios,
Choram com o coração
São poetas natos
De versos insensatos
Alegria sem fim
no meio desse mundo chinfrim
Não me dão nada
Mas se doam quase inteiros pra mim
Eles não sabem do que eu preciso
Eu os engano com o meu sorriso
Eles dão seus sorrisos sinceros pra mim
A gente fica bem assim
A gente se faz feliz desse jeito
Carregando cada um
Sua inspiração no peito.
Tem gente de olá
Tem gente de como vai
Tem gente de mas... Mas?
Tudo o que a gente busca
É um tanto qualquer de alguma paz.

9 de abr. de 2018

CONCURSO PÚBLICO PARA SER POLÍTICO


1) Existe uma lei de obrigatoriedade do cinto de segurança, mas as vans estarão liberadas para transportar passageiros em pé.
2) As vans substituirão as linhas extintas o que significa que a população vai continuar sem ter condução, pois sem fiscalização os motoristas só andam com carro cheio, no horário que eles querem trabalhar, param a cada meio metro, atravancam os pontos de ônibus e se não tem passageiro, trocam o itinerário na maior cara de pau.
Já tô achando que político tinha que fazer concurso como os funcionários públicos, evitaria esses tontos que não sabem nada, não conhecem nada e só fazem coisas que não adiantam nada! E ainda tem o Crivella com essa cara de morto-vivo, fantasma sem ópera..
Não merecemos!
3) Cadê as merdas dos ônibus? Foram pra sucata?

TODO MUNDO TEM DIREITO ÀS VITÓRIAS, À FELICIDADE E AO PÃO QUE SÓ MATA A FOME

O cara posta a vitória do Fogão, aí outro aparece desqualificando o campeonato, o time e a torcida. O campeonato só é válido pro time dele. Uma dificuldade de saber perder. Uma incapacidade de ver comemoração alheia. "Igualzin" na política...
Aí me dá um orgulho de ser o que sou, de crer no que creio, de vir da onde venho. Esse comportamento que não sei como classificar - nem tento, só desaprovo para minha conduta e que não me venham muito pra perto com ele - dá um efeito contrário em mim. Sentia-me, como muitos contemporâneos meus, traída pelo PT, tinha deixado de votar (já contei aqui essa história), estava de mal com o Lula. Ardia num arrependimento umbralino por nunca ter sido brizolista, já que pelas minhas condições e história de vida, pertencer à direita - mesmo direita, é pra mim tão impossível quanto torcer para outro time. De modo que, tudo como está acontecendo, torto, para um lado só, claramente sombreando a democracia que eu ja achava que era franzina e meio fingida, me faz fazer as pazes com Lula, sim.
Então, eu que não sou evangélica, apenas procuro viver de acordo com o Evangelho porque sou muito fã de Cristo, tenho o costume, hábito ou mania de abrir esse livro (já muito roto porque vem de outras gerações) aleatoriamente para tentar ao longo do dia praticar o ensinamento que "cair".
Hoje foi aquela passagem que Cristo triste com a condenação e morte de João Batista (que ele dizia, era maior profeta que ele) foi "dar um tempo" num local deserto.
Só que aí, a multidão foi atras dele e ele curou quem estava doente ali. Então, os amigos falaram que era pra ele mandar o povo vazar porque estava tarde, o local era deserto e não tinha comida pra galera, só 5 pães e uns peixinhos merreca.
Jesus falou tipo:
- traz aí essa mixaria.

E multiplicou de um jeito que umas 5000 pessoas comeram de boa.

Não satisfeito, Cristo mandou os amigos entrarem no barco e dar uma volta, só que ele não foi (lembram que ele se retirou pra um lugar ermo a fim de ficar sossegado? Pois é) . Despediu a multidão já de pança cheia e finalmente ficou sozinho pra rezar, meditar, agradecer, enfim, entrar num chat com Deus, o pai dele.
Tempão depois, o barco com os amigos estava lá no meio da água e ele vai, a pé, encontrar com a turma. Todo mundo amigo mas quando viram o Cara andando sobre as águas, se borraram todos achando que era fantasma😲😂😂
- Calmaí, gente! Sou eu!
Aí, Pedro metidinho que só, já quis também surfar sem prancha... Affff
- Vem, Pedro!
Pedro foi. Quando sacou a parada, sentiu que estava mó ventania e ele em cima da água, amarelou e começou a afundar 😩 Jesus deu a mão a ele e claro, um esporro:
- Homem de pouca fé, duvidou por que?
Ah, gente, como eu queria ver a cara do Pedro nessa hora! 😆😅
É muito ensinamento em 10 versículos e sempre que leio surge uma coisa nova.
... Confiar na vida, correr atrás (povo que seguiu ele pelos cafundós);
... Ter fé e ser paciente (Ele precisando de sossego por causa da morte do JB e ainda mais do jeito que foi) atendendo aquela multidão necessitada e, olhe bem que não era só pobre que procurava Cristo porque desde aqueles tempos "a gente não quer só comida" e as outras tantas necessidades, como saúde por exemplo, nos igualam ou inferiorizam por mais grana que agente pode ter, felizmente tem muita coisa que o dinheiro não pode comprar;
... A generosidade de multiplicar e repartir o pão (porque os" apóstolos iam "segurar" o que tinham e ainda Cristo que deveria mandar o povo ir embora);
... Compartilhar o prazer, a diversão (andar sobre as águas deve ser bom pra caramba e ele compartilhou essa onda com Pedro e nem precisaria se não fosse pra ensinar algo);
Tudo isso ⬆️⬆️⬆️⬆️⬆️ eu já tinha percebido em outras leituras porque essa passagem sempre "cai" pra mim. Hoje meditei que:
Cristo andou sobre as águas e isso pode ser uma dica pra gente entender que tem que andar sobre a água pura ou sobre a lama e sem dúvida dessa capacidade de flutuar sob pena de afundar nela;
A gente tem que passar pelas perdas doloridas e graves sem perder a paciência com os egoístas, insanos e toscos porque talvez eles não saibam ser diferentes disso ou quem sabe, o nosso momento difícil pode ser o único em que ele vai ter oportunidade pra se livrar de algo que o aflija. Sim eu sei, a gente não faz milagre, mas tem que ter paciência, viu? E fé, muita fé.
Então, sejamos generosos e pacientes e não percamos a fé, se entendemos que devemos repartir o pão e a Vida, o Saber e a Alegria, estamos muito mais próximos do Bem do que imaginamos
É isso.
#botafogocampeão
#Lulalivre