Mostrando postagens com marcador MEMÓRIAS. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador MEMÓRIAS. Mostrar todas as postagens

31 de dez. de 2021

EDUCAÇÃO


 Houve uma época da minha vida que eu dizia: Não posso liderar, não sei pra onde ir, como poderia conduzir? Era uma verdade, uma frase, um medo, uma realidade. Mais que retórica, sem nenhuma metáfora. A gente tende a acreditar no que dizem que a gente é.

Se vacilar, passamos a vida acreditando no que nos disseram que éramos. Pode acontecer de não aceitarmos desafios, de não irmos muito pra longe das nossas referências, pode ser que tenhamos um misto de amor não declarado e ódio não demonstrado por algum chegado e guardamos num canto porque não sabemos lidar. Pode acontecer de repetirmos um ditado, uma frase, uma palavra sem atentarmos o que aquilo significa pra quem ouve ou pra gente mesmo.

Cresci num lar humilde, à sombra de uma mulher incrível e jamais questionaria qualquer coisa que ela dissesse. Passei muito tempo pra entender que só quem pode saber de mim sou eu. Não adianta eu esconder as dores, fingir sorriso, mostrar vitórias, isso só vai funcionar quando eu souber valorizar cada feito e se eu não me valorizar junto, esses feitos rapidamente caducarão, perderão a validade e estarei vazia sem entender como.

Existe a hora de ler a cartilha e a hora de abandonar a cartilha. E algumas cartilhas devem ser substituídas por outras que só a gente não contemplada nas antigas, pode escrever.

Precisamos entender que não é o político que sabe o que a gente precisa, nem o modista que identifica o percentual de conforto do que a gente veste. Pagamos e escolhemos o que nos cabe. O estudo dessa gente é para nos atender, a educação é para favorecer o mundo. Ou pelo menos deveria ser. Não dá pra confiar em alguém que estudou só pra ter uma profissão que ganhasse mais. Educação não é isso. Ninguém se torna bem educado porque tem talento, ficou rico famoso ou porque foi teimoso e acertou na loteria, nem mesmo porque estudou. Educação é preparo para viver em sociedade. Ou pelo menos deveria ser.

Aqui, com texto totalmente desvirtuado e saído do roteiro, lembro do meu tio: Baixinho, magro, moreno pálido, cabelos muito pretos e lisos, olheiras tão escuras quanto os cabelos, grandes, profundas, características de família, chapéu na cabeça, roupa nitidamente vinda de outro corpo onde se ajustava bem porque nele nem caia bem. E tio Chiquinho numa atitude que me moía como se eu fosse vidro pra fazer cerol, tirava o chapéu da cabeça, trazia junto ao peito e dizia:

- Francisco. Mas pode me chamar de Chiquinho. Seu criado.

Essa foi a educação que ele recebeu, isso foi o que disseram que ele era e passei mais da metade da minha vida sem entender porque isso me incomodava tanto.

Mas agora eu entendi. 
2022 vai ser muito bom!

2 de set. de 2021

A PROPOSTA


 Era um dos melhores restaurantes do bairro, a decoração era um tanto rústica, a comida excelente e servida em quantidades generosas, sempre bem cheio quase sempre com fila de espera na porta.

Eu namorava uma pessoa que adorava comer e se sentia feliz em me mostrar "o que era comer bem." Fazia dessas incursões gastronômicas um estandarte, é, ela ostentava mesmo. Quem pagava a conta era eu, se não no ato, depois, quando ela me avisava em desespero que o cheque não tinha fundos ou que só dava pra pagar o mínimo do cartão. Nunca me importei muito com isso, lá em casa comer fora era mais ou menos como viajar para o exterior, não cabia no orçamento, um desperdício, quase um pecado. Então eu pagava com prazer aqueles almoços e jantares mesmo porque foi assim que eu comecei a conhecer as coisas boas da vida e as ruins também. Foi o início da minha vida organizada no mundo. Não havia lugar que eu frequentasse que não saísse de lá com um bom amigo ou amiga de infância.
Tornei-me adepta do ritual de comer fora sem precisar de uma data especial para isso. Tornei-me assídua do tal restaurante que tinha um elenco de garçons do Nordeste que eram extremamente simpáticos, respeitadores e que já faziam valer a pena ir ali. Almoçava qualquer bobagem para jantar lá e como o Rio de Janeiro é um ovo, aconteceu que fui trabalhar num escritório de contabilidade que prestava serviço para esse restaurante e eu via o seu dono quase todos os dias.
Um dia, passei lá pra tomar uma caipirinha. Estava sozinha, queria mais pensar do que beber mas a bebida ajuda nos pensamentos. Era uma tarde bonita de um dia lindo desses que a gente imagina que não existe em outro lugar do mundo e meio que se culpa por não estar em condições de aproveitar. Ainda assim, eu precisava pensar. A vida estava estranha, eu não sabia para onde estava indo, percebia que estava sendo levada. Eu e minha caipivodka que poderia ser de rum, não lembro, de cachaça sei que não era, eu não podia beber cana, o santo proibiu. O dono do restaurante chegou sorrindo e perguntou se podia sentar-se pra conversar um pouco. Educadamente disse pra ele que eu estava de saída. Educadamente ele entendeu.
Eu precisava pensar e não queria conversar com um cara que eu conhecia pouco num momento em que me sentia frágil. Eu estava tentando entender porque do nada algumas pessoas da minha família tão radicalmente contra os meus relacionamentos deram pra estender tapete vermelho para a minha namorada. Esse era um assunto que não dava pra perguntar. Por erro meu, talvez, não rolava esse tipo de conversa lá em casa. Sempre fui uma pessoa de momentos e naquele, especificamente, queria conversar comigo mesma e com o meu copo de birita.
O dono da casa se retirou. Não teve a conversa. Ela aconteceu uns dias depois. Ele passou no escritório e me convidou para ir conversar, disse que tinha uma proposta. Eu que já havia conversado com o patrão sobre aumento de salário sem sucesso, certa que era uma pessoa de sorte, imaginei que seria uma proposta de trabalho. Fui pra ouvir ou, como dizia minha avó, "fui assuntar" estava um tanto apreensiva porque até então evitava analisar o que ele mesmo havia me contado, certa vez, que ia ao nordeste e trazia “umas dúzias de homens” para trabalhar no restaurante. Ensinava o serviço porque eram “xucros” e eles dormiam em algum lugar que eu nunca conheci ali, no restaurante mesmo. A situação em si não me chamou tanto a atenção quando foi exposta, só fiquei desconfortável com os termos que ele descrevia aqueles homens que eram da mesma cidade que ele...
Uns risinhos pra lá, uns cerca Lourenço pra cá, quando eu estava distraída e a proposta aconteceu, resumidamente, mais ou menos assim:
Ele era casado (e eu não lembro agora há quanto tempo), amava a mulher e viviam bem, me dizia, mas tinha anseios de pular a cerca e não podia fazer isso de qualquer maneira. O risco era alto, pela posição financeira dele, "perigava de rolar um barraco com uma periguete qualquer" que prejudicasse seu casamento, mas principalmente pelo grande apreço que ele tinha ao seu bilau que "não foi achado no lixo" e mais alguns blá-blá-blás.
Hoje eu tenho vontade de ver que cara eu fazia ouvindo essas coisas que me soavam como atrocidades. De toda a forma, a cara qualquer uma que eu tenha feito não o intimidou. Seguiu falando:
- Eu sei que você namora a fulana, então queria te propor o seguinte: Monto um apartamento pra você, pra gente se encontrar uma ou duas vezes por semana. Um apê bacana, você pode decorar ao seu gosto. Te dou um carro e uma mesada que a gente pode combinar e você não pode arrumar outro cara, tem que ser só eu na parada. Eu sei que você não é chegada mesmo, mas só pra ficar bem esclarecido e outra coisa: Não vou mexer com a sua menina. Se você quiser viajar eu dou um jeito. Conhece o Nordeste?
😮
- Então, rapaz, se você está dizendo que eu "não sou chegada" como me propõe uma coisa dessas?
- Porque eu sou um cara legal, carinhoso, diferente dos caras que você conheceu.
Eu matutava o que ele poderia saber sobre os caras que eu conheci, se é que tinha conhecido algum. Só consegui dizer:
- É?
- É. Não vou fazer nada que você não queira. Tem muito cara mané que não sabe tratar uma mulher. Acaba que você ficou assim.
Eu tentava imaginar o que ele entendia por saber tratar uma mulher, não me parecia um bom tratamento o que eu via ali, ele oferecer à mulher dele.
- Assim como?
- Ah, Roze... Pô, assim. Gostando de mulher. Embora que eu te entendo muito. Porque mulher é bom mesmo...
(Não vou escrever tudo aqui, vou guardar as piores partes pro meu livro).
Como cantava Cazuza, “eu queria ter uma bomba, um flit paralisante qualquer”. Não conseguia encontrar palavras pra responder à altura. Eu era uma garota romântica mesmo não assumindo isso, não acreditava em contos de fadas, mas aquilo era um pouco demais pra mim. Era meio bobona, tinha uma vida um tanto difícil porque me relacionava com uma pessoa complicada, como disse antes, a vida não estava nenhuma maravilha, mas eu ainda acreditava que tinha jeito, um jeito meu de arrumar as coisas. Não achei as palavras certas, até hoje, acho que não respondi direito.
- Vem cá, você já experimentou propor isso pra sua mãe?
Levantei, peguei minha bolsa e saí sem olhar para trás.

26 de ago. de 2021

QUE A TERRA LHE SEJA LEVE

 


Há muitos anos tive um chefe que era o dono da empresa, eu tinha 23 anos e ele, uns 42. Certa vez ele me deu uma cantada em grande estilo. Foi mais ou menos assim:

Voltei de férias, linda, pele preta-canela super em dia, viajada, cheia de roupa nova, cabelo com o corte da Simone que era a moda e tudo da Cigarra que eu podia ter...
Ele tinha o hábito de tomar champanhe à beira da piscina todos os dias às 18:15 horas e sempre me convidava. Eu ficava por ali, que ele tinha conversa ótima. Era um cara de outro estado, tinha muitas histórias diferentes. Amo histórias.
Nunca percebi que eu era sua companhia preferida pra isso, o horário ficou sendo esse porque o escritório fechava às 18 e quando ele me convidou pela primeira vez, tipo por acaso, eu recusei porque não bebia em hora canônica. Até hoje, não.
Ele me chamava RosEmarL, naquele sotaque do sul e brincávamos muito por conta dos nossos sotaques. Ele me corrigia:
- Não é um copo di leiti quenti! E: um copo dE LeitE QueNNtE
Eu respondia:
- Não é Rosemarl é Rozzimarrrr, Nem carlne, nem porlta
A gente ria.
Eram tempos de Figueiredo, gatilho salarial, Tancredo agonizante e ele falava mal do velhinho. Eu não era mais politizada, larguei a política junto com a faculdade, já tinha abandonado as reuniões do movimento negro mas não dava, como nunca deu pra deixar de ser de esquerda e era franco atiradora independente da causa, na época, chamada LGS.
Ele sabia da minha condição homo afetiva, aliás o mundo sabia. Eu adorava ver o espanto na cara das pessoas que me julgavam bonita demais, culta demais, inteligente demais e pasme - sexy demais para ser apenas sapatão. Sim, porque eu só conseguia emprego quando me munia de decote, saia, salto e muito charme no andar que ralei pra aprender a ter nas aula da Socila.
Nesse dia de volta das férias, no final do expediente ele me convidou pro champanhe costumeiro. - Vamos tomar um Chandon pra comemorar sua volta?
Eu gostava dele e tinha um pouco de dó. Era um cara solitário. Tratando do divórcio recente, a ex linda com jeito de miss, um filho pré-adolescente que era o capeta em forma de piá e uma filha louruda boazuda que sissi demais.
Quando a garrafa chegou abaixo da metade, ele vai ao escritório e volta com uns papéis. Conta que também viajou. Fora à Mauá, comprou um sítio lindo que tinha uma queda d'água e uma pequena piscina natural. Fiquei feliz por ele.
- É pra passar finais de semana?
- Pode ser. Se você me convidar.
- ??
- Eu queria te dizer, que RosEmarl que eu senti saudade de você.
- Ah, eu também. A gente passa mais tempo junto que...
- Não. Eu sinto saudade de você como mulher. Da sua companhia. Da sua conversa, mais da sua alegria. Você é tão menina, angelical com o diabo no corpo.
- Adorei o elogio. Sou bem isso mesmo mas não entendi o sítio.
- Comprei esse sítio pra você. Você ama cachoeira e mato. Diz que gostaria de viver no interior. O meu divórcio está concluído... É um presente de noivado.
Fiquei feliz, aquela felicidade triste de quando a gente não sabe o que dizer e lamenta por não poder atender. Não era uma uma tristeza alegre. Era um desconforto receoso. Mas dei conta. Com jeitinho.
Saí da empresa quando minha mãe faleceu e eu enlouqueci. Não conseguia trabalhar, nem comer, nem dormir de certa forma morri junto por ter de enterrar meus sonhos de filha que eu ainda não tinha conseguido ser direito.
Nos reencontramos depois, creio que só mais umas duas vezes. Minha marida na época era macha abusiva, me cerceava e eu, uma bobona que não percebia. Vivia à minha custa e tinha pavor de eu me encontrar com ele.
A essa altura, ele engrenou um relacionamento com a filha de um funcionário que vivia indo lá cercando, cercando e me odiando. Burlei as vigilâncias quando soube que o filho, já crescido, tinha sofrido um acidente grave. Ele me recebeu com a alegria de sempre, apesar de estar ainda mais triste e carregando uma solidão que dava pra pegar com a mão.
A noiva, me tratou com desprezo. Fodasse. Não fui visitá-la. Na visita seguinte, eles já estavam casados ou morando juntos numa casa bem bacana num sub bairro bem metido a chique aqui perto mesmo. A mona me espinafrou. Eu reagi com elegância pra ela ficar irritada e com a veemência de quem não abre mão de bons amigos. No entanto, nunca mais voltei. Não acho digno mexer com a insegurança de outra mulher por mais que ela mereça e ele embora tenha vindo falar comigo, do lado de fora, na praça, não me pareceu merecedor de insistência por essa amizade. Também não fui por gosto, mas aí já é outra história.
Isso tem quase uns trinta anos.
De terça pra quarta dormi um pouquinho pela manhã depois de concluir uns vídeos e gravações de áudio pro projeto que tem dado sentido aos meus dias pandêmicos. Foram cerca de duas horas de sono. Sonhei com ele. Um sonho muito estranho. Durante o dia esse sonho me perturbou. Queria entender o significado. Não conseguia.
Na época eu ouvia muito Belchior, aquele LP com a foto imensa em preto e branco tinha uma música que me lembrava muito ele. "Pequeno perfil de um cidadão comum." Até hoje lembro dele quando ouço. Lembrei muitas coisas. Não catei o significado do sonho.
Entre tantos afazeres, consegui um tempo pra sentar, fumar um cigarro e tomar uma cerveja, porque Chandon, sem chance. Catei Belchior no Spotfy. Fiz as contas, ele teria hoje uns sessenta e oito, sessenta e nove anos. Tentei imaginar como estariam seus olhos cor de oliva, se ainda usaria cabelos cacheados em volta daquele rosto imenso e se ainda teria aquele sotaque carregado. É estranho lembrar de tantos detalhes de quem saiu do nosso radar. Apreensiva se ele não teria virado um véio da havan.
Dei um google no nome dele.
Descobri que fazia sete anos que ele não morava mais nesse mundo. Morte acontece quando a gente sabe.
Minha roça está fechada ainda. Vou encomendar uma missa para aquele ateu gentil. Aquele gigante triste de riso espalhafatoso. Aquele homem, o único que pensou em me dar algo em vez de tirar.
E como dizia Belchior no final da música que é do Toquinho:
"Que a terra lhe seja leve"

26 de abr. de 2021

NINA IVONE BH BRASIL

 


Sete horas da manhã. A criatura miou, miou, miou, miou, miou e, ainda miou de novo. Eu cacei ela pela cama, fiz um carinho furreco de quem não quer despertar e tentava não sair do sono. Ela: miava, miava, miava e miava tudo de novo.
Tentei ignorar. Sabia que ela tinha ração e água. Enchi as vasilhas com uma quantidade que ela não daria conta ao longo da noite, sem contar que fomos dormir às três da madrugada.
Não, ela não comeu aquilo tudo. Não mesmo.
Virei de cara pra parede, cobri o ouvido com o travesseiro. Ela subiu nesse travesseiro e miou mais alto.
Sentei na cama, virei a cabeça na sua direção, olharia bem dentro dos seus olhos, se os meus se abrissem.
- O que é Nina?
Eu com a paciência de quem não quer ser despertada pela irritação
- ...
Não miou.
O que que é Nina Ivone Buarque de Holanda Brrrasil??
- ...
Silêncio
Levantei fui ao banheiro. Não adiantava mais tentar dormir de novo. O sol já estava explodindo, minha cabeça já repassava as atividades do dia. Fui fazer um café. Mas cadê Nina que sempre está atrás de mim na cozinha?
Sentei na cama tomando café puro - que não consigo comer tão cedo, só depois das dez.

Em cima do guarda-roupa, enroscada na caixa de papelão que guarda os enfeites de natal, onde sempre dormiu o sono pesado do dia, Nina dormia 🤬


4 de fev. de 2021

O LIVRO E A VÓ

 


Quando eu era guria e pegava num livro, só o largava quando terminava de ler. No reino dos livros não existia louça pra lavar, dever escolar pra fazer, sem culpa no mundo da literatura e tudo era muito bom.

Minha avó enlouquecia, reclama, se queixava para minha mãe (filha dela), achava absurdo. Minha avó não sabia ler nem escrever e era imensamente controladora e eu tive que viver muito pra começar a tentar entender o que ela sentia, pois era um conteúdo, uma experiência que ela não podia analisar, julgar para controlar, ao mesmo tempo, como entender o que tantos signos ininteligíveis, para ela, poderiam entreter uma criança por tanto tempo, ao ponto de ela preferir "aquilo" - o livro, do que a TV ou brincar na rua?

Era preciso que ela descobrisse o que havia ali, boa coisa não haveria de ser e como isso não lhe era possível, a sua estratégia passava a ser me impedir de ler, eliminando o meu prazer.

Nessa idade eu não tinha obrigações domésticas e era proibida de brincar na rua, lá em casa não tinha outras crianças. Um cachorro amarrado na casinha, uns gatos que mais desapareciam do que eram vistos, um abacateiro esguio, umas goiabeiras que limitava sua generosidade ao seus frutos e apenas isso. Não havia nenhum pé de laranja lima com galho onde eu pudesse sentar como se fosse sela de um cavalinho. Ainda bem. Certamente eu teria ido parar no hospício se me desse a esse desfrute.

Três coisas advindas dessa época me ocorrem:

O quanto eu entendia as pessoas que passavam horas na internet lendo coisas esquisitas;

Meus sobrinhos que não eram muito chegados aos livros mas amavam uma TV e eu não os incomodava;

e o quanto as pessoas inseguras, infelizes, seja por falta de oportunidade de vida melhor ou porque são ruins mesmo, podem tentar tirar de nós coisas simples que nos façam felizes.

O meu tio, filho da minha avó, vivia agarrado com pequenas brochuras de bolso, quase sempre histórias de far west, as quais ele me emprestava. Meu tio era um preto bonito, com voz linda que tinha 13 filhos e muito pouca paciência com criança. Gastava toda a sua paciência jogando cartas com os meus irmãos nos finais de semana. E como lá em casa não tivesse muita gente pra conversar era com ele que eu puxava assunto no seu horário de almoço, servido pela minha avó com farinha e pimenta, água, suco ou refresco e depois ele ia pra cama tirar uma soneca, precedida pela leitura do livro que acabava lhe cobrindo os olhos e vedando a luz para que tudo ficasse perfeito. Claro que ele preferia me emprestar um livro que me mantivesse calada! Foi assim que eu li o Homem Que Calculava, de Malba Tahan, O Egípcio e muitos livros enormes com mais de 300 páginas e nenhuma "figura". Foi assim que minha avó passou a enlouquecer de ciúmes dessa ligação e foi assim que eu entendi que se alguns tentam nos tirar o prazer que não conseguem compreender, há os que vão nos dar qualquer prazer para que possam se deleitar em paz.

E eu que cresci achando que tive uma infância estéril e sem graça.

6 de mai. de 2018

Uma experiência inigualável

A imagem pode conter: 6 pessoas, incluindo Rozzi Brasil e Vanderlei Santanna, pessoas sorrindo, pessoas em pé


Uma experiência inigualável! Olho pra mim e me vejo satisfeita por ter tido a oportunidade de participar de mais esse trecho de tudo o que compõe o samba do Rio de Janeiro. Vai ter textão, esse é só o primeiro. No momento só posso dizer algumas das muitas coisas que aprendi recentemente:
- Não existe escola pequena.
- Nossa Cultura é grande, grande, muito maior que qualquer competição. Inclusive, ela só une. Se alguém se divide, precisa aprender um pouco mais sobre a cultura do samba carioca
- Um enredo bem escolhido chama, aglutina, dá volume ao trabalho da agremiação. Jeronymo Patrocinioo foi uma excelente escolha, sua trajetória rendeu sambas inspirados e lindos. Botou o GRES Arame de Ricardo diante de muitos que o tinha esquecido ou não o conheciam.
- Uma boa sinopse é fundamental para dar brilho à trajetória do homenageado, colorir a história que se vai contar e transmitir o conhecimento "pra geral".  Parabéns, Samir Trindade você fez isso muitíssimo bem!
- Participamos desse concurso levados pelo respeito às cores azul e branca, pelo reconhecimento ao tema do enredo - Jeronymo Patrocinio, para quem fama e sucesso não são equivalentes e cabem em Madureira, sem precisar de AP nos bairros badalados.
- Nossa parceria é nova em trabalho junto, mas certamente vem de uma amizade de outras vidas, tal a sintonia que desenvolvemos. Não somos os mais ricos e por isso mesmo tentamos preencher com talento, carinho e experiência de vida, amizade, respeito e sentimento de equipe todas as lacunas que a falta de grana produz. Agradeço sinceramente a quem vem com a gente!
- Seja qual for o resultado de hoje, só ter aprendido esses itens acima, já nos faz campeões apaixonados pelo samba e pela vida. Claro que eu quero muito cantar esse samba na final, em Oswaldo Cruz, na Portelinha! Mas os fatos da vida não ensinam só pra mim e felizmente tem gente e coisa boas correndo atrás, como nós. Por isso o coração bate na boca mas ele tá tranquilo porque fizemos com alma e nos dedicamos com todo amor que temos!
SEGURA POVO, QUE O ARAME VAI PASSAR!
O MENINO SONHADOR VAI BRILHAR NA PASSARELA!
E ele sintetiza o sonho e a luta de todos nós!
Salve Jeronymo! Dodô! Patrocínio!
Salve o azul e branco do Arame e da Portela!

3 de mai. de 2018

DE CÃES E GATOS

Resultado de imagem para cão e gato



Desde menina me dá uns trimiliques assim de ficar de "saco cheio" de um monte de coisas e aí dou uma isolada. Tive a fase ir para o cinema meio que compulsivamente, me enfiar em museus às vezes vários num dia, enfiar a cara num livro daqueles bem volumosos tipo romances da literatura russa. Tive a fase de me matar de trabalhar, produzir, criar, inventar e fazer faxina daquelas que a gente limpa o que está limpo e reordena o que já está arrumado.

Quando eu era bem criança dava de conversar com os cachorros da casa que ficavam lá meio isolados com a tarefa de cuidar da casa latindo para os que se aproximassem do portão.
Naquela época achava os cães mais compreensivos que os gatos, pois esses viviam passeando, soberbos esfregando sua liberdade na cara da gente. Chegavam em casa pra dormir, comer e às vezes pedir um carinho que a gente tinha que dar mas que quando eu queria fazer nunca aceitavam. Tinha que ser tudo na hora que eles queriam Mas nunca consegui ignorá-los. A beleza e o charme felino sempre me atraíram irresistivelmente. Aturava então as manhas e manias, mas sabia que quando a barra pesava era o cachorro que ia me ouvir. Sentava-se ereto, atento. Diante de alguns assuntos dobrava uma orelha, balançava a cabeça e as vezes até "falava".

Muito melhor ser compreendida pelos bichos do que incompreendida pelas pessoas. O cão amarrado tinha tempo pra mim, nem por isso cresci achando que deveria prender as pessoas para ter companhia, até porque, tenho uma natureza muito felina pra prender alguém.

30 de abr. de 2018

A NOSSA HISTÓRIA NÃO VAI COM A GENTE














Breve.
Meu PC ta ferrado,
Todo desmontado
Em cima do armário.
Tenho planos de vendê-lo.
Sei lá como fazê-lo
Minha mãe sempre dizia:
A pior coisa do mundo
É fazer freguesia.
Mas nunca atendia
Vendedor de porta-em-porta
Mensagem decorada
Hoje não sei vender nada.

Estou indo morar na minha antiga casa.
Lá não tem telefone e nem TV.
Imprimi nas coisas, coisas nada a ver.
São quase 3 anos fora de casa
Batendo asa
Tentando fazer o coração dar certo.
Sem família por perto
Tentando ficar ereta,
Tentando a coisa certa,
Tentando fincar o pé,
Catando onde deixei minha fé
Caçando algum chão depois da ventania.
Mania de insistir no que nem se queria
Teimosia
Acabar o que comecei

Não tenho pena de mim,
até acho que é bem feito, sim
Quem mandou eu ser intensa?
No amor tem gente que sente
E tem gente que só pensa.
Só vai na boa:
Dinheiro, carro e um bom endereço
Gente assim que no amor bota preço
Que se amarra numa sedução
E amar de verdade? Ama. não.

Sou diferente,
Sou igual a quem é igual a mim
Mas na vida a gente
Não encontra só gente assim
A gente que ama,
quase sempre se engana
A vida é muito sacana

Quem mandou não ter segredo?
Se jogar num sentimento sem medo?
O amor  que pra uns é fogo
Pra outros é só mais um jogo.

Um dia e a gente se sente perdida.
A genteentende que perdeu
A gente percebe que se perdeu.
Tentou mas não deu.

Já me senti fracassada,
errada,
culpada,
feliz,
irada,
E isso não tem nada de mal
mas estar perdido é perda total.
Não tem seguro que pague
Não tem borracha que apague.

Tenho medo de me achar,
O que preciso fazer não quero,
Queria mesmo era ficar
Preciso ser bem ser sincero:
Não tenho coragem.
Devo ser meio masoquista:
Estou sofrendo e acho que vai passar
Não consigo ir, porque quero ficar
Tenho medo de me arrepender
Fazendo o que não quero fazer
Nunca tenha me arrependi das minhas partidas.
Mas vamos combinar? Odeio despedidas
Fico assim nesse vai, não vai
Tenho alma de criança pobre,
qualquer coisinha me distrai.

É uma ferida que me abriu na cabeça
E dói rasgando o coração.
A boca sorri, de tristeza sou avessa
Minha alma pateta diz não, não, não

Há muitos anos fiz um poema de rimas doídas:
A noite chicoteia e o sol trata com sal as feridas.
De lá pra cá nada mudou. Tudo continua sendo
O sal é sal, o sol continua queimando, tudo segue ardendo

Passamos a vida inteira nos deparando
com os mesmos fatos
Aprendendo a ir com eles lidando
Até que consigamos mudar nossos atos
Se não muda, não "rola"
Nãos saímos da escola

Já comprovei, provei.
A vida é repleta de rituais,
(Tem manual, nada demais)
mesmo para os descrentes,
(principalmente para os valentes)

Preciso criar o meu ritual de dar no pé sem despedida
Porque é assim que é na vida
Não tem olá quando se chegamos
Não tem tchau quando nos vamos

Rituais que marcam de forma solene as trajetórias
de modo que nos lembremos depois, com orgulho ou não,
Sem saber uma vírgula, temos que escrever nossas histórias
Nossa história  não vai com a gente,
Ela fica com quem nos guarda na mente.

E a história só é sua porque você a viveu
Mas e o argumento? Quem foi que te deu?

16/11/2007

20 de abr. de 2018

POR DE SOL

Um por-de-sol acima das nuvens 💙💙

17 de abr. de 2018

Obrigada por ter dado à minha vida sem graça, tanta graça de melodia

                                                         
       Eu era bem jovem e os meus sobrinhos não eram muito mais novos que eu, como ainda não são. Eu sempre curti levá-los ao cinema porque tinha para com crianças uma paciência para as coisas que ninguém lá em casa tinha. Lembro que fomos assistir Bernardo e Bianca dos Estúdios Disney, num tempo que desenho animado não era chamdo de  "Animação", não tinha volume, não existia 3D, era só desenho animado mesmo.
De toda a história do Bernardo e Bianca, foi a cena final que nunca me saiu da cabeça. Bernardo abraçado à bianca, depois de duas horas de peripécias, olhavam o céu azul noturno onde luzia uma linda estrela e surgia a frase inesquecível:
"Está vendo aquela estrela? Ela a fé. A fé é como um pássaro azul,muitas vezes não o vemos mas sabemos que está lá fazendo as coisas ficarem certas".
Daí, que há pessoas que são como essa estrela, como esse canto desse pássaro, a gente precisa saber que estão lá para que tudo esteja certo.
O consolo não é apenas aconchego contra o desespero, mas também um alívio pra dor porque saudade dói, o vazio das noites em nuvens assusta, ainda que as coisas estejam certas. Que nos console a melodia da voz doce desse pássaro negro, lindo de canto verde e alma alva.
Tiê, tiê, olha lá oxá!
Tiê, tiê, olha nós que ficamos cá.
Eu sei da bênção nossa e dela por sua vida plena, sua melodia vasta, seu sorriso lindo, seu querer demais além do concedido no seu tempo. A realização dos seus sonhos, a transformação das pedras nos caminhos em relva doce, fresca, macia. Sua alegria e seu carinho. Eu sei, mas meus olhos não secam nem adoçam, estão inundados de mar. Vai passar e o bom é que o melhor vai ficar.
Eu era muito criança e ainda não tinha sobrinho, meu tio às vezes fazia seresta, samba e chorinho na varanda ao contrário lá de casa. Eu era tão criança que não conseguia ainda entender Candeia, mas gostei de música, fui feliz por entender tudo no dia que alguém cantou: 
"Sonho, meu! Sonho meu
Vai buscar quem mora longe, sonho meu...
Vai mostrar essa saudade, sonho meu". 

Não foi a família portelense que me deixava em casa porque eu era criança demais, o que me levou pro Império assim que eu pude fugir para algum lugar... Foi esse tanto de melodia que eu entendia e aplainou meus caminhos com seus lara-laiás. E no final de tudo a gente cresce perto do que nos traz a alegria e a paz. 
Dona Ivone Lara, foi sempre colo e alegria e a ave se faz estrela de verdade para que tudo fique certo. 
Obrigada, rainha imperiana. Obrigada!
Essa porção de mar a inundar os olhos e sonhos meus, vai passar. Mas por enquanto deixa ficar. 
Obrigada por ter dado à minha vida sem graça, tanta graça de melodia. Dá um beijo no Seu Délcio, tenho saudade dele também.
Obrigada!

14 de abr. de 2018

MEU PRIMEIRO SAMBA ENREDO

Quando se está num estúdio de gravação o mundo para. É melhor que seja assim.
Ali, o compositor, a sua música tomando a forma que no no seu sonho irá encantar muita gente.
É ali, um certo pedacinho do céu.
Não se pensa em fama, mas na qualidade que por si só é sucesso.
É ali que sem muita teoria a gente sente que faz arte, é ali que o sonho toma forma em comunidade e acontecem atos comunitários, transmissão de conhecimentos, respeito ao saber alheio e se tiver uma figura incensada ou admirada mas acima de tudo competente pra "botar a voz" esse encantamento se multidimensiona e a admiração cresce com o fermento da certeza de que se está com um artista de verdade. 

Obrigada, Bruno Ribas Samba por ter entrado em cena hoje com a gente!
Hoje, eu - praticamente um rato de estúdio pelas minha multitarefas, principalmente a de registrar o registro, tive uma experiência inédita e como toda estreia, foi emocionante. Pela primeira vez meu nome estará "escrito" num "som". É demais para quem vive de palavras, ouvi-las em melodia! Que as boas energias iluminem esse caminho. Isso me basta.
Obrigada Vanderlei SantannaCatia Guimarães, gente cheia de estrada, por essa oportunidade de compartilhar o talento de vocês!

8 de abr. de 2018

AQUELES QUE DESEQUILIBRAM O UNIVERSO


Sexta-feira, 06 de abril de 2018, eu vinha de Madureira a bordo de um 99POP, tendo 4 latões mais meia garrafa de 600ml de cerveja correndo pela corrente sanguínea.

Pedi para o motorista dar uma paradinha no posto de gasolina, aquele ali perto da Leroy Merlin porque eu sentia que ia precisar de uma barra de chocolate.

Entro na loja de conveniência, dirijo-me ao caixa no balcão onde já tinha uma pessoa à minha frente.

Tenho a atenção despertada por um grito ao estilo bêbado conversando com o mundo sem megafone vindo da outra extremidade do ambiente:

- Por mim, tudo que é sapatão, tinha que morrer! Viado também! MORRER QUEIMADO! Me dá o fogo que eu queimo esses FDP!!!
Como eu, todos olharam.
Como eu, imediatamente após o final da frase, todos "desolhamos".
Todos que olharam no mesmo momento que eu, voltaram os olhares para o que estavam fazendo antes.

Uma concretização do desprezo absoluto.
Imediatamente pensei que se ele em vez de gritar na asséptica lojinha, postasse no Facebook, receberia curtidas, comentários e quem sabe, com um tanto de sorte, encontraria até quem brigasse com ele com posts tão agressivos quanto a sua fala. Mas era apenas mais um ignorante, sem condições de usar um smart phone.
Peguei, paguei, esqueci.
Lembrei  desse ocorrido agora, domingo, dia 08, dia que Lula foi para a república de Curitiba. Quando li uma postagem que dizia:

-  "um acidente aéreo seria a glória".

Deletei, bloqueei, esqueci. Taí um boçal em condições de usar smart phone.
Não quero que pensem como eu, mas certos pensamentos (como o desejo de morte e pra piorar, sofrida e dolorida para alguém ou ainda que fosse um animal) faço questão de ignorar que possam existir, são miasmas que desequilibram o Universo.



2 de abr. de 2018

ME DEIXE CHORAR EM PAZ


As pessoas compram discursos conforme suas tendências. Há anos o extermínio da população jovem-negra-pobre-das-e-nas-comunidades vem sendo denunciado e quem apoia ou se comove?
Agora se a denúncia ou reclamação envolver gente preta é "mimimi", como a luta dos LGBTs para terem os mesmos direitos (porque pagavam e pagam impostos) foi chamada de "ditadura gay" por uma rede de imbecis que lucram muito espalhando boatos e inventando teorias que distorcem a realidade com um único objetivo: Manter a Casa Grande e Senzala.
Se você, após 15 dias da morte de Marielle e tantos debates, não foi capaz de perceber as diferenças entre crime violento e atentado político e quer que eu me comova mais pela morte do policial ou da moça-loira-heterossexual-mãe-de-família, isso me faz pensar que você está incomodado com o "sucesso póstumo" de uma negra.
No fundo você acha que ela não é merecedora das homenagens e comoção porque você não está ou não se acha incluído nos grupos que Marielle lutava para defender da morte, do desrespeito, da indigência, essa mesma indigência que você quer impor à ela (sua memória e seu legado) ao trocar a foto de Marielle por outra qualquer mais ao seu gosto, ignorando as milhares de vidas perdidas anteriormente, principalmente as negras por serem em maior número.
Me faz um favor, me convide pra suas campanhas e me deixa chorar em paz.

31 de mar. de 2018

JESUS NÃO ESTAVA NAS LOJAS AMERICANAS

Sexta-feira santa caminhando pela Estrada do Portela, reparei a Lojas Americanas aberta e já passavam das 18 horas. Acreditam que fiquei chateada?

Lembrei de um professor de OSPB que tive na sexta série. Moreno, alto forte, barbudo, de cabelos cacheados, lindo, lindo, encantador feito um cigano, Professor Pedro. Foi dele que ouvi pela primeira vez os conceitos de capitalismo e direita mas foi só uma lembrança rápida e vaga. Depois pensei que é assim que se soterra uma tradição, que se "descredibiliza" 😲    | uma fé.


Vi aos montes nas minhas redes sociais, pessoas mencionando memórias de uma Sexta-Feira Santa que era muito mais que um mero feriado. Nos relatos havia vivência em família, costumes respeitosos às coisas que de verdade ninguém sabia direito, como as consequências de se falar um palavrão, fazer bagunça, brigar com o irmão, mas como quase toda sexta da Paixão chovia, a gente não insistia...

A gente ia à missa pra pegar o raminho do Domingo de Ramos, minha avó colocava na porta e quando tinha tempestade ela queimava um tantinho das folhas. Meus irmãos passavam a madrugada de sexta pra sábado montando judas com roupas velhas do pai e escrevendo os nomes dos cornos, dos fofoqueiros, dos políticos; até lembro que o Negrão de Lima sempre entrava no pasquim do judas. Nessas sextas, o café era preto, sem leite e o pão só com um pouquinho de manteiga. O som não podia ser alto, minha mãe colocava chorinho, um LP do Waldyr Azevedo que era a música erudita lá de casa. Até meio dia tentávamos ser calmos, discretos, silenciosos, contemplativos. Eu gostava da parte de não precisar varrer a casa e o quintal pela manhã. Minha avó contava histórias de crianças que responderam mal aos mais velhos e o chão se abriu engolindo elas e suas falta de modos. A ansiedade pelos ovos de Páscoa, a gente disfarçava na sexta-feira santa e esquecia no sábado de aleluia mediante a euforia da malhação de judas e a expectativa da reação das pessoas que tinham os nomes citados no boneco. 

Uma vez, minha mãe que teve uma infância difícil contou-me que já trabalhava aos nove anos de idade e na casa dos patrões, "esqueceram" dos ovinhos de páscoa para ela, vendo como ela ficou triste ao ver os filhos dos patrões recebendo seus ovos, alguém lá da casa (grande) cozinhou uns ovos de galinha, tingiu-os com anilina, escondeu no quintal e mandou que ela procurasse. Ela sempre falava da alegria de ganhar esses ovos coloridos, eu ouvia como mais uma das histórias, mas hoje choro quando a lembrança me traz sua voz e seu rosto contando essa barbaridade.


O Cristo que andou com "galera", mudou água em vinho, perdoou as prostitutas e delas foi amigo, expulsou os vendilhões do templo, deixou um único mandamento de amor, não estava na Lojas Americanas de Madureira, ontem sexta-feira, dia 30 de março de 2018 e dificilmente estará nas nossas vidas dessa forma amiga e de paz. Não haverá alguém sensível o suficiente para consolar uma criança com ovos de galinha tintos de anilina.

O patrão e provavelmente na história de minha mãe, a patroa - como no filme "Que horas ela volta" transmigrou pro atacado e varejo e anuncia com orgulho que no feriado destinado à reflexão e quem sabe oração, funcionará em horário normal, afastando tantas pessoas da família, da possibilidade de reflexão, oração....

O judas que não se malha mais, se alojou numa sombra de alma arrependido com o que fez de nós e os patrões nos põem a trair a nós mesmos em troca de umas moedas prateadas e poucas notas azuis, que mal confortam o estômago muito menos o coração.

É, Professor Pedro esse capitalismo vai acabar com a nossa humanidade, sim.

F E L I Z   P Á S C O A, queridos amigos!

QUANDO CAMINHAMOS POR MONTANHAS














Fiz silêncio, muito silêncio. 
Jejuei, pensei. Fui à missa.
"Essa é sua casa Senhor,
Nela viveremos com alegria".

Tomei banho de ervas.
Manjericão, louro, alecrim, macaçá
Fazem a tristeza passar
Tudo verde bem quinado
um banho bem gelado.

Conversei com Vovó Cambinda, 
queria saber onde ela estava no tempo que Cristo vivia, ainda
Defumei a casa depois de meio-dia, porque aí, podia.

Rezei um terço inteiro.
Fazia silêncio dentro de mim.
Ouvi Kitaro todo tempo, 
ele me deixa assim.

Lembrei da infância e descobri que não foi feliz, mas nela havia pessoas boas, então não foi de todo ruim.
As pessoas boas nem sempre têm tempo para bondades.
Olhei para trás e só vi montanhas. 
Em algum lugar, lá muito longe, 
distante com certeza, 
tinha uma janela.
Passei foi por ela,
Eu, e a minha coroa de princesa
A menina que corria pela casa, andava aos saltos rindo de nada e para tudo e se achava feroz, jamais teve uma porta por onde passar ou se teve as ignorou, porque ouvia música. Trazia sempre o dedão do pé, sem a pele, esfolado de topadas.
Tinha sempre um bicho pra conversar e nenhum adulto pra ouvi-la. Era um tempo que os adultos comandavam, ordenavam, ditavam o que nem sempre era fácil entender ou fazer.
O quadro de São Jorge, de gesso, esculpido em alto relevo, lá alto, muito alto, quase chegando ao teto da sala,
de frente pra porta, como deve ser, com a lampadinha vermelha eternamente acesa jogando no fio de contas brancas e verdes sua cor de sangue... 

Pedra de raio, pedra de rio, pedra de mar.
São João e seu carneirinho olhando pra baixo a me vigiar.

O cheiro de defumador atravessou minha mente,
defumou minha infância inteira, esclareceu meu coração, me elevou. Assim, percorri todas as montanhas que eu nunca percebi que eram os meus caminhos.
Não se sobe uma montanha sem descer de outra. 

Altos e baixos como a água que um dia 
mora na poça, no rio, no mar;
No outro, é nuvem pra anjo brincar;
Mais tarde é louca, é vida é chuva 
e em cima de nós vai se jogar. 

Tudo o que fazemos, recebemos.

Mirra, alecrim, assafete, arruda, patuá
Quando Cristo andava pelo mundo
Vovó já estava por lá.

Foi um dia intenso, não tenho mais sono
No entanto tenho muito, muito, muito sonho.
A menina ainda tem um andar estranho
Sorri pra tudo e todos de qualquer maneira
Mas traz no pé a cabeça do seu dedão inteira.

E quando Cristo morreu, por onde andava, Vovó?
Ela era jovem não tinha toco, 
não tinha tronco, me olhava, não me deixava só.


2 de nov. de 2017

AOS NOSSOS MORTOS, A VIDA!

Chorei as perdas, sofri pelas ausências. Um dia a ficha caiu: 
O que vamos visitar no túmulo é uma parte de nós porque nos sentimos sós.
Quantas visitas posso ter recebido dos meus finados amados e não os percebi?

E assim sendo, será que eles ficariam por lá pra me receber?
Não sei se os meus mortos gostariam de me ver chorosa, triste, mastigada pela saudade que eles deixaram pelo abandono involuntário.
Lá em casa, sempre, todos os encontros eram muito barulhentos com música alta, dança desengonçada, muita birita e algum bullying, farra de família.

Não, não vejo muito o sentido em fazer essas visitas silenciosas e tristes de morte ao morto quando deveríamos fazer uma festa, tocando a música que nosso morto gostava, vestindo suas cores prediletas, sacudindo a bandeira do seu time, cantando pra ele o samba de enredo da escola dele para o carnaval que virá ou aproveitar a chance e cantar o da nossa escola dizendo que ela vai ganhar pra devolver o bullying só um pouquinho pra senti-lo sorrindo. Qualquer coisa que pudesse dar um pouco de alegria pra eles e pra mim também.

Não foi um bom negócio essa exploração portuguesa, pegou tanto da nossa riqueza e deixou essa herança de tristeza, tudo tão triste, choroso e roupa preta que eu nem tenho, que fico feliz por saber que, na minha filosofia, os que dissemos mortos, apenas partiram livres, de pesos de ossos, carne, nervos, cabelos, sangue, dores, levando seus amores e humores, enquanto eu aqui, levando flores, mortinha, com a minha vida soterrada nos pesos que carrego e tudo o mais que só serve pra impedir a minha alma de voar em vida.


30 de set. de 2017

LEMBRANÇAS LÁ DE CASA

Quando eu era menina me atracava com um livro e só conseguia deixá-lo quando chegava ao final. Alguns livros ainda me tomavam algum tempo após a leitura porque eu ficava parada de olhos no ar lembrando de algumas passagens e com saudades das personagens. Louco, não? Mas era como se aquelas "pessoas" me tivessem feito companhia e sentia alguma tristeza por não poder conhecê-las ou "reencontrá-las". De certa forma era um luto.

Do outro lado da casa minha avó resmungava, arrastava os chinelos, fazia reclamações, xingava. Não entendia como eu tinha a "cachimônia de passar tantas horas sem fazer nada". Sim, ela entendia que a leitura era todo o nada que eu, alma geneticamente preguiçosa fazia.  Minha avó não sabia ler, embora fosse boa nas contas e, jamais errava ou deixava que errassem num troco. Ela queria que minha mãe arrancasse-me o livro das mãos, me desse uma boa bronca, quem sabe uma surra e me obrigasse a fazer aquilo, que na concepção dela, era a minha obrigação.

Minha mãe depois que passou a trabalhar fora, viciou-se em palavras cruzadas e caça-palavras depois, passou a ler aquelas publicações em brochuras que tinham nomes de mulher. Era Karina, Sabrina, Júlia e coisas assim. Eram romances que muitos diziam não ter valor literário algum. Jamais abandonou as revistinhas de palavras cruzadas e ainda trazia pra mim as de nível fácil e uma direcionada às crianças que tinha o nome de "Picolé". Eu procurava  sempre ficar por perto fazendo a minha palavra cruzada enquanto ela fazia a sua. Com o tempo dividíamos as brochuras e trocávamos impressões sobre essas publicações. Mesmo quando eu crescida já sabia da reputação da ausência de valor literário (ora, bolas!)

Acho que minha mãe sempre teve gosto pela leitura mas a vida dura não lhe dava tempo, tempo para ler e tempo para conhecer o que gostaria de ler. Trabalhando fora, tinha na ocasião, pelo menos duas  horas de condução, intervalo na hora do almoço e claro, passava pelas bancas onde pôde conhecer algo pra ler e fazer isso nas folgas.

Meu tio era filho da minha avó, irmão da minha mãe. Ele sempre tinha um livro no bolso traseiro da calça jeans. Trabalhava próximo da nossa casa onde ia almoçar e tirar um cochilo de sesta. Nunca soube se ele se deitava para ler e cochilava ou se cochilava porque se deitava para ler depois da primeira parte  do seu expediente num trabalho cansativo para o qual acordava muito, muito cedo. Ele era gari e naquela época a carrocinha de lixo, de madeira e pesada, trazia a sigla DLU - Departamento de Limpeza Urbana. Mesmo quando as carrocinhas se tornaram mais leves e ele deixou de empurrá-las porque fora promovido a inspetor, ainda quando a sigla da carrocinha mudou para Comlurb, ele continuava indo almoçar lá em casa e fazendo sua sesta sem jamais abandonar seus livrinhos. Eram pequenos almanaques, 1/4 de uma folha A 4 quase sempre com histórias de faroeste.

Minha avó não implicava com a leitura do meu tio, nem com a sua deitadinha para ler. Muito pelo contrário, esquentava-lhe a comida, colocava no prato e ia servi-lo onde ele estivesse - porque ele às vezes lia na poltrona da sala e ali mesmo, livro sobre o rosto para quebrar a luminosidade, roncava um pouco.

Hoje, uma tarde chuvosinha e preguiçosa dei de lembrar isso e pela primeira vez "atinei" que diferentemente do que pensei a vida toda,  não era por não saber ler que minha avó implicava com a minha leitura. Com a leitura da minha mãe, eu sei, ela não implicava porque era ela a provedora da casa. Trabalhava numa escala pesada de 12 x 36, às vezes 24 x 48, longe, muito longe da nossa casa num serviço muito cansativo. Talvez implicasse comigo porque eu era criança e não podia me defender, pois estávamos no tempo "cala a boca".  Talvez repreendesse meu hábito de ler pelos mesmos motivos que pessoas letradas criticam obras  e desprezam a leitura alheia. Talvez ela tentasse me dar a educação que recebeu e nela não estava incluído ler e escrever. Minha avó era do tempo que se aprendeu a andar e falar já tinha que trabalhar. O povo lá de casa vinha das lavouras e criações. Pra comer tinha que plantar e criar porque as opções de comércio eram raras e caras. Os críticos da leitura dos de poucas posses não sabem o que é isso, se soubessem louvariam todo tipo de leitor e não se oporiam à brochuras dos jornaleiros.

Mesmo quando a minha mãe ainda não havia desenvolvido o hábito da leitura, comprava-me revistas em quadrinhos e eu tinha preferência por aquelas publicações com apelidos de meninas. Eram Bolota, Brotoeja, Tininha. Gostava também do Riquinho, Horácio, Turma da Mônica. Menos do Chico Bento. Implicava com o sotaque caipira, achava feio e às vezes não entendia. Achava chato o Chico Bento pela forma de ele falar e não apreendia as mensagens que seu gibi passava.


Acho que a gente tenta pegar o que não entende e aprisionar na rigidez dos limites  da nossa ignorância.