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31 de dez. de 2021

EDUCAÇÃO


 Houve uma época da minha vida que eu dizia: Não posso liderar, não sei pra onde ir, como poderia conduzir? Era uma verdade, uma frase, um medo, uma realidade. Mais que retórica, sem nenhuma metáfora. A gente tende a acreditar no que dizem que a gente é.

Se vacilar, passamos a vida acreditando no que nos disseram que éramos. Pode acontecer de não aceitarmos desafios, de não irmos muito pra longe das nossas referências, pode ser que tenhamos um misto de amor não declarado e ódio não demonstrado por algum chegado e guardamos num canto porque não sabemos lidar. Pode acontecer de repetirmos um ditado, uma frase, uma palavra sem atentarmos o que aquilo significa pra quem ouve ou pra gente mesmo.

Cresci num lar humilde, à sombra de uma mulher incrível e jamais questionaria qualquer coisa que ela dissesse. Passei muito tempo pra entender que só quem pode saber de mim sou eu. Não adianta eu esconder as dores, fingir sorriso, mostrar vitórias, isso só vai funcionar quando eu souber valorizar cada feito e se eu não me valorizar junto, esses feitos rapidamente caducarão, perderão a validade e estarei vazia sem entender como.

Existe a hora de ler a cartilha e a hora de abandonar a cartilha. E algumas cartilhas devem ser substituídas por outras que só a gente não contemplada nas antigas, pode escrever.

Precisamos entender que não é o político que sabe o que a gente precisa, nem o modista que identifica o percentual de conforto do que a gente veste. Pagamos e escolhemos o que nos cabe. O estudo dessa gente é para nos atender, a educação é para favorecer o mundo. Ou pelo menos deveria ser. Não dá pra confiar em alguém que estudou só pra ter uma profissão que ganhasse mais. Educação não é isso. Ninguém se torna bem educado porque tem talento, ficou rico famoso ou porque foi teimoso e acertou na loteria, nem mesmo porque estudou. Educação é preparo para viver em sociedade. Ou pelo menos deveria ser.

Aqui, com texto totalmente desvirtuado e saído do roteiro, lembro do meu tio: Baixinho, magro, moreno pálido, cabelos muito pretos e lisos, olheiras tão escuras quanto os cabelos, grandes, profundas, características de família, chapéu na cabeça, roupa nitidamente vinda de outro corpo onde se ajustava bem porque nele nem caia bem. E tio Chiquinho numa atitude que me moía como se eu fosse vidro pra fazer cerol, tirava o chapéu da cabeça, trazia junto ao peito e dizia:

- Francisco. Mas pode me chamar de Chiquinho. Seu criado.

Essa foi a educação que ele recebeu, isso foi o que disseram que ele era e passei mais da metade da minha vida sem entender porque isso me incomodava tanto.

Mas agora eu entendi. 
2022 vai ser muito bom!

30 de dez. de 2021

Pra que dizer mais?
Pra querer mais?
Se eu nunca me vi
Tão perto de ser feliz
:
Tô levando uma fé filhadaputa em 2022
Devo estar meio doida, ou cansada de não acreditar em nada.
Somos treisvezdois a não dá pra parar
Tô levando muita fé filhadaputa pra 2022
Porque aí não tem como errar,
Não tem como não dar certo
Se td der errado tenho Iemanjá por perto
Não tem como errar
Se td der errado tô amparado por Obará.
To com fé no 22. Sou doida não posso negar
Até aqui é a fé que me traz
A gente preta que vem de longe
Sabe que só ela dá um tanto de paz
Pra quem chegou sequestrada, sem direito a nada.                                                                                Nunca fiquei calada, ás vez deixava pra depois.

Chega! Tô com tudo nesse 22!
Mesmo que eu não tenha nada
Você tem o chicote
Nós tem a estrada
Você tem carro, dinheiro e casa
Tenho vida, arte, entendimento e asa
Você compra, eu vendo
Você não paga, eu não me rendo
Você tem dinheiro e não tem valor
Eu tenho tudo porque sou da cor
Que não me deixa só, mais
Eu sou mil pelos vivos e ancestrais (…)
:
 

21 de dez. de 2021

RECOMEÇAR

 

Eu te entrego o que mais prezo o que sempre quis pra mim.
A liberdade de ser livre e escolher a liberdade.
A quem interessa um amor assim?
Minguado, pequeno, franzino, miúdo, sofrido, severino, talhado por maldade.
Quem compra na caixa sem querer ver assim?
A lealdade do amor verdadeiro, que se olha no espelho e se vê tal qual é.
Mal partiu, mal nasceu está perto do fim.
Desacreditado, inocente, sonhador, incompetente, versador, do jeito que é.
Aquele filho que a mãe esconde e o pai não diz sim.
Crédulo, brasileiro sem jeitinho,
crédulo, João bobo, zé mané
Com talento pra viver, com jeitinho pra sofrer,
Adoravelmente acidulce, péssimo aluno, disrítmico, folgado, confortável
zero à esquerda pra enriquecer.
no limite da preguiça, sobre a risca do desafio, tolo, tolo, indefensável.
Nordestino, carioca, baiano, crioulo, e tudo que se fala mal quando se vê
Não vai lhe contar nenhuma história que viu na TV
Não vai te entregar nada que não seja seu,.
Sem abuso

Mas você tá grande e pensa que me engana
quando engana a si mesmo, assim mesmo

A quem interessa a liberdade?
A qualquer prisioneiro que não tenha preguiça de viver.
Que entenda que amar é construir nova casa a cada dia,
É capinar, plantar, semear, regar catar pragas, arar
E no auge do cansaço, recomeçar.

31 de dez. de 2020

PARECE QUE FOI ONTEM

Não arrumei emprego, fiz uns poucos jobs, fiz muito escambo - que hoje chamam de parcerias. Atrasei todas as contas. Recebi ordem de despejo, contei com amigas para a composição de amigáveis calotes combinados.

Fiquei triste por todos que os não se importaram com essa e situação mas contente por tê-los conhecido e não precisar mais me importar com eles.
E a vida seguiu como se nada tivesse acontecido.
Tentei formar um grupo pra um edital e aprendi porque artistas precisam de produção e direção, nem todos tem o vírus do empreendedor ou a essência da engenharia cooperativa. É preciso chegar com o projeto amarrado, cachê fixado, data marcada. Ok. Entendi. Obrigada.
Apontei minha artilharia de trabalho pra mim mesma, investi meus esforços nas minhas competências, diferentemente dos anos passados. Mas nunca fiz tantas coisas coletivas
Estudei muito. Juntei 8 certificados de participação e um de conclusão.
Botei a cara no vídeo pela primeira vez e, ou o povo gostou ou mentiram pra mim 😁
Conheci muita gente nova, muitos artistas e pessoas que fazem girar as engrenagens do sistema em que os artistas se expõem. Que pena, não ser atriz nem cantora, instrumentista e perdi a chance de cair no mundo.
Voltar a frequentar a faculdade foi um revigoramento total, fiquei como quando era criança que curtia muito mais a escola do que a minha casa.
As crises de depressão foram mais espaçadas porém bem mais intensas no entanto, superadas com maior desenvoltura. Às vezes acho que estou curada e que uma atividade remunerada fixa seria a pá de cal nesse chatice!
Não tive períodos de mania, inclusive se tivesse remuneração regular, teria tirado férias. Até me dei direto a um recesso nesse finalzinho de ano.
Acho que me tornei mais paciente, acho que consegui ouvir mais as pessoas, acho que aceitei menos provocações.
O meu pecado capital, sempre foi a ira e estou a cada dia menos irada. Ainda que eternamente indignada, transformei a minha indignação em trabalho, conceituei 25 projetos culturais entre filmes, shows, eventos e de ações sociais - tudo pra 2020/2021
Às vezes a gente precisa olhar mais pro que pode acontecer ainda que não ignore o que está acontecendo e fazer e plantar sem pensar em quem vai colher, imaginar que esse plantio vai alimentar pessoas.
Somos todos celeiros e o que guardamos neles só nós podemos decidir.
Liberdade nem sempre é usar as coisas da hora e fazer viagens incríveis. Liberdade é poder abrir o peito, a boca, os ohos sem vergonha do que outros possam ver dentro da gente. Então, capriche! Não burile o que sai, trate do que está dentro de você.
Esse ano não pensei em me matar nenhuma vez, desde Recife entendi o quanto tenho e posso fazer, o quanto o produto dos meus processos de experiência e vida é bom e pode ser útil pra tanta gente.
VISUAL NOVO
Eu pensei que estava criando uma personagem mas era o contrário, eu estava me livrando de uma. Cabelos numa sociedade patriarcal é fetiche, embora eu curta cabeleira, a minha estava me incomodando por não tratá-la com o devido respeito e o meu grisalho tratado com o devido respeito estava incomodando as pessoas, a minha decisão de não tingir estava incomodando as pessoas.
Separada desde 2013, trilhei o caminho de me redescobrir. Sim, vivi mais tempo casada que solteira, minha vida sempre teve dono, primeiro os pais, depois casamentos e eu demorei muito a entender isso. Nesse sexto ano de redescoberta de mim, era hora de me ressignificar. Se meu pouco grisalho incomodava, melhor acabar com o "problema" ou criar um maior ainda.
Talvez eu não seja tão tímida como fui a vida toda, possivelmente, essa timidez seja fruto de muita repressão. Aquela repressão que meninas suburbanas vivem, aqueles valores que a família tatua na gente como salvo-conduto para frequentarmos o mundo com menos riscos pra ela (família).
- Não fale com estranhos
- Não frequente bares e botequins
- não beba desacompanhada
- não fume na rua
- não diga que é da umbanda ou do candomblé
- não use roupa justa, saia curta, short indecente
- não transe antes de casar, se transar, tem que casar
- mulher direita não gargalha, não fala palavrão, pede permissão.
- Mulher direita não é artista, não se exibe.
- criança educada pergunta o que pode aceitar.
Mulher decente é planta e a gente que cresceu com a ditadura foi adestrada pra ser invisível. Ponto.
Eu não cortei o cabelo, eu tirei 50 anos de peso da minha alma! Eu platinei tudo o que a minha mente aprendeu ao longo da minha vida!
RELACIONAMENTO
2019 não decepcionou mas eu não me apaixonei.
Eu gosto sorvete, livros, drinks, mar e flores; Pra casar eu ainda preciso amar.
Mas pra transar, andar junto, dar uma ficada, ah basta uma boa dose de respeito, sinceridade e torcer pra gracinha topar uma boa diversão. Eu ainda sei ser divertida, quiçá, seja agora mais do que sempre fui.
Ser empoderada é muito mais que calçar um salto e deixar o blécão subir. Ser feminista vai além de falar mal do poder repressor e patriarcal.
Eu aprendi (e nem foi da forma mais fácil e prazerosa porque nunca é) que ser empoderada é olhar pra tudo o que se tem por dentro e ter coragem de assumir e descobrir como se reformar e o que fazer com a mobília que em sua maior parte nem fui eu que botei ali.
A minha aparência não tem que seguir tendência, moda, regras. Ela tem que espelhar a minha aceitação e todas as reformas pelas quais passei e que ainda preciso promover. A arquiteta aqui, sou eu!
Quem não gostar que se construa conforme seu gosto, em mim só mora eu.

Esse textão foi de 2019 mas par ser de 2020 só faltou a menção direta à covid, todo o restante que esse vírus escancarou e presenteou a muitos, já era uma realidade vivida pela maioria da periferia.

30 de dez. de 2020

O mundo acabou os sofridos não perceberam e os exploradores seguem capitalizando culturas e dores

Sempre fui apaixonada por ano novo em proporção inversa ao natal. Natal para mim acabou no dia que descobri que não era só o papai noel que não existia, mas que era uma festa de aniversário e que todo mundo cagava pro aniversariante mesmo ele sendo uma figura importante. Não via ninguém preocupado em ofertar algum presente para aquele aniversariante incrível, que segundo diziam, deu sua vida por nós.

Quando vi uma imagem do Cristo negro, milhares dos meus dois neurônios fizeram conexões com várias visões, vivências, pensamentos e achismos que tive ao longo da minha vida, curtinha até então. Em fração de segundos entendi que Cristo era um genial porém pobre, não letrado, imigrante e sem teto sua história foi apropriada e recontada na versão dos dominadores que deram ênfase ao que ela não continha. Pessoas de denominações religiosas me atormentavam na infância pelo fato de eu usar crucifixo e imagens de santos, diziam que isso me aproximaria dos antigos pagãos politeístas que adoravam esculturas e a elas ofereciam sacrifícios. No entanto, na tentativa de me provarem o quanto eu estava no caminho errado, recitavam, passagens do antigo testamento, de uma época que Cristo era só uma profecia. Eu achava isso contraditório e quando tinha paciência respondia que uma nova lei substitui as anteriores e que na qualidade de “evangélicos”, achava adequado que eles se ativessem ao Evangelho e que fossem orar por mim, me deixando em paz, afinal em que poderia tanto incomodá-los tanto, se eu nem professava a mesma fé que eles?

Eu não podia imaginar que ali, naquela época, década de 80 tudo estava apenas começando.

Num enterro de um amigo querido, eu escalavrada, tive que passar por hordas neopentecostais, que desrespeitosamente, falavam nos meus ouvidos sem parar sobre uma necessidade que nem me lembro porque realmente não era o que eu precisava naquele momento.

Em outra ocasião, vi esses grosseiros de deus importunando, atrapalhando um ritual de umbanda num, cemitério. É comum, por ocasião de finados, alguns terreiros levarem oferendas aos cemitérios e acontece de algumas entidades associadas ao mistério da morte e da vida — transformação, “descerem” em seus “cavalos” dando “consulta” (gratuita) ou conselhos. Estarrecida fiquei me perguntando o que essas pessoas que seguem outras correntes religiosas vão fazer no cemitério nesse dia em vez de estarem nas suas igrejas orando.

Certo dia, observei perto da minha casa, um carrinho desse de venda de comida na rua, onde estava escrito: “acarajé abençoado.”
Abençoado por quem, segui meu caminho a me perguntar.

De modo que nesse ano que não tivemos natal naquele auge da histeria coletiva que toma o mundo nessa época, imaginei que o nosso aniversariante importante poderia se tornar protagonista. Imaginei errado. As pessoas preferiram maldizer as restrições dos comércios. Apesar de viver num ambiente classe baixa, não reparei muita gente reclamando dos preços dos produtos ditos natalinos.

E agora é a minha vez! Chegou a minha data preferida do ano. Não vai ter festa pública, a cidade não vai ser invadida por turistas. ou pelo menos não deveria ter… A recomendação é ficar em casa, evitar aglomeração, pois que estamos no auge da segunda onda da covid 19, onde as autoridades governamentais fazem ainda menos que na primeira. Temos no governo uma espécie de personagem novelesco, negacionista que a cada dia fala atrocidades impensáveis e inacreditáveis; orgulhoso da sua ignorância, vaidoso da sua arrogância e destemor de exibir toda a sua calhordice. Então, eu que sempre fiz questão de na virada estar em locais pelo menos bonitos, de preferência em praias a céu aberto a fim de olhar as estrelas e ter certeza de que poderia ser ouvida pelo Universo, dessa vez fico em casa muito tranquila e feliz pela vida que segue fluindo no meu corpo; por todas as competências descobertas no cenário de enclausuramento ao qual estou ainda muito fiel. Pela possibilidade de encontrar vida além daquela vida besta que sempre levava. Ainda que muito ciente que home office não é solução, muito pelo contrário, que “estamos completamente ferrados e mal pagos” por pertencermos a uma civilização(?) que não pegou o grande lance da história que é se reformular, se refazer , se modificar. A população precarizada não entendeu que essa é hora de parar de correr feito boba atrás dos produtos que a propaganda informa ser o melhor; as mulheres não perceberam que é hora de mandar às favas os padrões estéticos inatingíveis; que chegou o momento de incluirmos as culturas originárias e negras, seus ensinamentos porque as filosofias ocidentais hegemônicas nada fazem além de nos espremer feito processador que extrai suco das frutas.

Talvez se eu não tivesse esses pensamentos descolonizados, eu estaria bem triste, mas minha pele negra e antepassados indígenas me deram bem mais que um lombo pra apanhar. Enquanto isso, nas favelas ao meu redor, os fogos não param.

29 de dez. de 2020

A VIDA NÃO É SÓ BOLETOS

Essa foto é do dia 01/01/2020. Na minha blusa está escrito: “A vida não é só boletos”. Hoje, considero uma grande ironia da vida. Passei o ano compulsoriamente me preocupando só com boletos e contas, posto que, nenhuma diversão fora de casa me parecia viável e não tinha como. De certo modo, 2020 foi um ano só de boletos e seu tempero mais venenoso: desemprego.

Estudei muito online. Retornei aos livros impressos. Se eu quiser colocar nas paredes de casa, todos os certificados de cursos que fiz durante o pandêmico 2020, isso não seria possível de tantos que eles são e de tão pequenas as minhas paredes
Já tenho umas composições com linha melódica. Antes compunha só letra, era 100% dependente de parceria para a música, as melodias que criava no solfejo, achava muito ruim, agora toco uquelelê e é melhor que tapa na perna, batuque na mesa, caixa de fósforo ou caxixi. O banjo que me aguarde! 👅
Os outros cursos que fiz não seriam vistos por muitas pessoas como cursos, mas se segura, que se eu era anticolonialista. antirracista e anti-machista agora danô-se! Que tô uma preta muito feminista decolonial.
Não tenho nada a me queixar de 2020. Tenho muito pra agradecer. Perdi parentes chegados, perdi amigos mais chegados que os parentes.
Perdi. Perdemos.
O meu grande ganho de 2020 fui eu.
Ter acordado para o tanto de construção que ainda faltava e terminar percebendo o quanto ainda falta, porém com toda possibilidade de plenitude.
O grande ganho foi sobreviver, conseguir manter um teto sobre o crânio e cacarecos e perceber que há gente me amando, me percebendo. Gente que parecia que nem ligava pra mim e em dado momento me estendeu a mão.
Tô terminando o ano inteira, acabei de restaurar o dente quebrado, de criar coragem para cuidar de mim, além da preservação no modo fica em casa. Sem perceber, a gente que tem depressão, aproveita qualquer oportunidade para se abandonar a essa doença que mata a nossa alma. A gente morre sem saber ou até sabe mas não consegue voltar a viver.
Penso que termino 2020 melhor do que o comecei.
Voltei pra “análise” com uma das melhores profissionais da cidade. Tô aqui refazendo o cabelo ainda que tenha planejado passar o reveillon em casa com
Nina Ivone de Holanda Brasil
, eu que sempre me arrumei por obrigação, só por causa do outro. Que sempre me vesti "direitinha" só pra ninguém falar de mim. Aprendo finalmente que é eu por mim pra dar certo a conta do nós por nós.

26 de dez. de 2020

HABLANDO CON AMERICA

 

Eu tive uma vida muito marcada pelos aspectos de um Brasil colônia que foi normalizado, normatizado ao longo do tempo. São coisas desumanas, sempre sem sentido que atravessaram os séculos como coisas normais porque são aplicadas aqueles que justamente foram desumanizados, objetificados. Alguns desses aspectos eu só tomei conhecimento porque sempre li muito, sempre fui muito interessada em História e nunca confiei nas histórias narradas nos livros e mastigadas para nós professores, para que regurgitássemos pros filhotes das gerações seguintes.

Essas coisas fazem parte do cotidiano da gente e a gente nem percebe. A percepção quando acontece, é eventual e talvez por isso a gente tenha tanta dificuldade de se organizar para em bloco lutar pelas mudanças, fazer cobranças ao sistema e assim somos cobrados, criticados. Nós somos a terceira pessoa do plural, eles, ou do singular: “o povo” ou ainda, “o brasileiro”. “O povo que não gosta de ler”, “o brasileiro que não sabe votar”, o “povo malandro”, “o brasileiro vagabundo”. O brasileiro criado pelos sequestradores, saqueadores que nos encarceraram por seus crimes, nos tiram tudo e ainda falam mal de nós que contritos agradecemos afinal, eles tem a pele alva e a força bruta.

Por exemplo: Fui dada em adoção porque meus pais não tinham condições para me criar ou especificamente para me enterrar. Aos nove meses de idade eu não tinha registro, estava doente e fui desenganada pelo médico ou o equivalente a ele. Até ali não havia grana pra certidão de nascimento, também não para o atestado de óbito. Entre uma coisa e outra, não existia possibilidade de eu ter um tratamento ou alimentação. Normalmente a resposta que eu tinha para isso era que “quem não tem condição de ter filhos, não deve fazer filhos”. Simples, assim.

Meu pai era preto, minha mãe “enganava” como branca apesar dos traços indígenas. Ela era mais velha que ele. Parece que o padre não quis casar os dois. Eles foram morar juntos, uma prática condenável, aliás várias. Amasiamento inter-racial de uma mulher mais velha que o homem.

Meus pais se separaram logo assim que eu nasci, eu fiquei com a minha mãe que por não ter muita escolaridade e por ser o costume mesmo, trabalhava como doméstica e não conseguia emprego tendo nos braços uma criança doente que chorava o tempo todo. Isso era visto como um ponto fora da curva, era um problema dela. Cada patroa apenas dispensava uma empregada mas quantas mulheres temos até hoje na mesma condição?

Meu pai ficara com a minha irmã mais velha e a mandou para a casa de uma irmã dele e essa divisão teve menos a ver com a nossa idade do que com a cor da nossa pele. Minha irmã tinha pele escura, eu não, e isso bastava para que meu pai fizesse a célebre e usual declaração masculina da época: “Esse filho não é meu”.

Tudo isso me fez entender sem compreender muito bem, desde bem jovem que os filhos eram das mães. Que comunidade e família eram apenas palavras de boa sonoridade e rima fácil mas apenas palavras que não me explicavam para que os homens existiam e qual o papel deles no mundo. O que mais eles poderiam fazer além de criar problemas, situações difíceis sob as (ausência) luzes das inverdades. Eu precisei de muitos anos pra enxergar que eu pertencia a uma classe de excluídos pela própria exclusão e que não era minoria. Pessoas que são penalizadas por terem nascido num ambiente onde não se é humano, a gente é só força de trabalho, não importa como vivemos ou o problema que temos, a gente precisa funcionar dentro de um papel que nos impõem e ponto.

Nasci e fui criada num bairro que atualmente pertence à Zona Oeste do Rio de Janeiro e que tem a peculiaridade de ter sido Zona Rural, de ter demorado a se desenvolver e, antes, ter sido também Zona Industrial. Um bairro com dimensões municipais usado pelo Estado como área hospitalar para distúrbios mentais, tuberculose, hanseníase. Antes de tudo isso foi fazenda do Barão da Taquara, quintal de senhores de engenho como Marquês de Jacarepaguá, Baronesa, duquesa de Jacarepaguá. O que dizer de uma nobreza com esses nomes indígenas? Em Jacarepaguá ninguém é educado, todos são colonizados, quiçá, adestrados.

As minhas lembranças de infância, identificam a partir do vestuário e vocabulário um certo sotaque — pessoas urbanizadas e pessoas da roça. Meus tios avós que tinham as mãos calejadas, os rostos muito vincados — eu percebia mas não entendia — Eram trabalhadores rurais de dentro do perímetro urbano e eles tinham todo um código de ética e ótica diferentes da gente que morava ali pertinho, no mesmo bairro mas que não era da roça. Jacarepaguá era alguma coisa entre o Centro, a Zona Sul e o subúrbio, mesmo sendo longe disso tudo e não sendo nada disso. Mas tudo isso dava características muito especiais às pessoas dali. Minha família possuía uma diversidade inusitada, uma réplica em pequena escala de um país colonizado uma casa grande preta com senzala branca. Nunca compreendi muito bem porque só eu comecei, em casa mesmo, a entender, lidar e gostar de diversidade. Éramos criados para sermos invisíveis. Uma forma de não causarmos problemas e não sofrermos.

FORMAÇÃO:
Fui beneficiada pela Lei de Diretrizes e Bases, 5692 de 1972.  
E daí?

Daí que não precisei fazer concurso para estudar o “ginasial”; 

Daí que isso significa que na minha família inteira, ninguém nunca tinha feito o “ginasial”, de 5ª a 8ª série;

-O que significa que eu não pude ter nenhuma orientação sobre caminhos profissionais e continuidade dos estudos e talvez tenha feito tudo errado, mas orgulhosamente, fiz.

-E que eu precisava devolver logo a oportunidade de ter estudado. Contribuir com o orçamento familiar, da família que havia me acolhido mas não estava mais inteira, posto que meu pai de criação tinha desertado da tarefa de criar os 5 filhos que fez mais eu que aceitou cuidar. Questionar os conceitos “palavra de homem”, “homem de verdade”, “provedor da família” foi algo que sempre me fez bem, embora não tenha me privado das dores, incerteza e inseguranças.

A minha geração teve muitas “facilidades”, por exemplo, sou do tempo que a carteira profissional “de menor” foi abolida; Lugar de criança era na escola, mas a gente deixava de ser criança cedo também, o que fazia com que as coisas não mudassem muito.

Sempre estudei em escola pública e as escolas públicas de nível fundamental tinham uma coisa chamada “Caixa Escolar.” Era um envelopinho que a gente levava para casa e devolvia para a escola com uma quantia dentro. Ninguém ficava sabendo, mas todos que contribuíam também podiam se beneficiar, retirando material escolar ou comprando mais baratos, livros e até uniformes.

Se tinha discriminação?
Claro que tinha! Quanto mais benefícios se retirasse da Caixa Escolar, maior a discriminação, isso por parte das crianças que naquela idade, transportavam exatamente o que ouviam em casa. Se é que podem me entender quanto ao impacto que isso teve na formação dessas cabecinhas regadas pela ditadura e suas proibições. O aluno da caixa escolar até podia ser burro. Aliás, esperava-se dele exatamente isso: Dificuldade de aprendizagem e era sempre motivo de estranhamento um aluno branco usando os benefícios da caixa. Por outro lado, não era nada demais ser aluno da caixa escolar, mas o fato é que a grande maioria dos dependentes desse benefício, eram pretos e quanto mais pretos menos contribuíam e mais “retiradas” faziam. O estranho disso era o surpresa que causava um aluno beneficiado ser bom aluno, ter notas altas.

RELIGIOSIDADE:

Eu sou da época que todo mundo era católico mesmo quem tivesse outra religião. Ser católico era uma obrigação, mais ou menos como querem fazer hoje com a neopentecostal. Só que apesar de tudo, a igreja católica era mais Cristo e Novo Testamento. Tinha Dom Hélder, Irmã Dulce e Teoria da Libertação. Mentira sincera não deve ser pecado.

Minha mãe era da Umbanda mas colocava os filhos para fazer catecismo e Primeira Comunhão. Isso foi importante porque não tive o entrave de julgar as pessoas com réguas religiosas. A gente só não podia contar pra todo mundo porque ficava mal visto se fosse macumbeiro. Era normal levar as crianças para benzedeiras, rezadeiras, pretas-velhas. Toda criança tinha um pequeno alfinete com duas figuinhas, uma de arruda e outra de guiné preso na camisinha-de-pagão. Ao mesmo tempo era muito usual a oração diária da Ave-maria, às 18 horas, quando e se colocava um copo d’água com uma vela acesa para se rezar junto com o programa de rádio. Ali na Freguesia, o sino da igreja Nossa Senhora do Loreto tocava nas horas canônicas e a gente interrompia o que estivesse fazendo para tomar a “bênção”. Nos terreiros era comum encontrar muita gente, católica incluindo as madames. Ninguém era menos católico por causa disso, pelo contrário, no entanto, éramos muito mais católicos na hora preencher a ficha na escola. Os “evangélicos” da época eram poucos e chamados de “os bíblias” ou apenas “crentes”. Eram pessoas estranhas que implicavam com as imagens de santos que tinha lá em casa, as mulheres não cortavam cabelo, quando grandes demais o prendiam em coques, não pintavam as unhas e usavam vestidos ou saias compridas que a gente chamava de “maria-mijona”. Eu tinha medo tanto de entidades da umbanda quanto dos bíblias, as entidades sempre contavam o que eu fazia escondido, os crentes tinham um diabo só deles mas que afirmavam que era nosso.

Recentemente, com o comportamento neopentecostal e a opressão que consegue exercer por ter adentrado aos espaços de poder político, a régua religiosa começou a funcionar e confesso, tenho que em articular, me doutrinar para poder ouvir a pessoa depois que fico sabendo que ela é crente. Tenho um comportamento preconceituoso, tal qual “os outros”. Quando me dizem: — Sou evangélico. Pergunto qual a denominação. E aí de acordo com a resposta, eu relaxo ou me armo. Mesmo. Estou errada. Estou tentando mudar mas tenho duvida sobre o que devo mudar. Tudo o que vivi me dá a sensação de quem em algum momento vou bater num muro, mais ou menos como quando eu me afirmava sapatão e ouvia as coisas mais idiotas do mundo. Havia aquelas pessoas que diziam não ter o menor preconceito, mas que eu sabia que assim que virava as costas vinham discursos do tipo:

- Tão nova, bonita, estudada...
- Serpa que sofreu algum trauma?
- Anda não encontrou o homem certo

E isso me soa muito familiar com os discursos de quando eu me afirmava preta:
- Você não é preta! Você é morena!
- Que isso! Preta, não!

Ser preto é algo tão terrível que as pessoa que gostam da gente precisam nos salvar disso, nos retirar dessa lixeira. Até hoje pessoas tentam me ofender me chamando de sapatão ou de crioula. Por que, né?

Eu conto essas coisas porque tudo isso fez parte do meu entendimento de mundo. Um mundo que tive que entender sozinha. Empiricamente na base do erro e do acerto.

Um entendimento que só veio muitos anos depois quando tive espaço para errar e também acertar e foi essa compreensão que me tornou uma pessoa de lutas, mesmo eu não estando, nunca, em nenhum movimento organizado. Nunca consegui fazer parte de nenhum. Porque eu nunca me senti uma coisa só. Nos movimentos falta essa visão geral. Faltava a compreensão da diversidade. Eram guetos e acaba sempre rolando um “Fla X Flu” e de repente, surgem divisões conforme as interseccionalidades. As mulheres não se viam como mulheres que eram mas se tratavam a partir das diferenças que possuíam. Sempre entendi que o mundo não tinha muito como dar certo. E atualmente, cheguei a imaginar que o vírus nos tornaria mais próximas apesar da distância, dando a todas porções diferentes das mesmas desgraças.

Muitas vezes eu ouvi que não podia falar sobre determinados assuntos porque “não era preta o suficiente” ou não era retinta. Parece-me que faltam aos movimentos entregar o que cobram e a noção de que ser brasileira não pra amadora, nem pra mulher fraca. Politizam o que é humano, orgulham-se de conquistam que não passam do meio para baixo da pirâmide social. Quase sempre as lideranças viram celebridades e o foco vai para outros lados, individualizados, sim… Se tornam teóricos, autores, vendedores de livros e todo o tema se resume em texto de um potencial best-seller.

Eu penso que o movimento preto não tem que se preocupar com colorismo, movimento de gênero não tem que se preocupar com a cor de pele das mulheres, apenas abraçá-las, e buscar soluções para as dificuldades que as interseccionais têm e colocar uma carga maior de atenção e bater mais forte em favor daquelas que obviamente sofrem mais preconceitos.

Mulheres brancas têm privilégios? Têm. E tem que ter seu lugar de fala, sim!

— Desculpa, não tenho culpa mas tenho obrigação de ser antirracista e lutar contra o racismo. Simples assim.

Não se pode erradicar o lugar de fala das pessoas, isso é proibir. Os movimentos organizados tem a obrigação de conduzir, mediar e nao reproduzir o comportamento ditatorial que a sociedade como um todo, se achando branca, tem tido até aqui. Numa guerra não se escolhem os soldados por preciosismos e, estamos em guerra, todo braço pra lutar ao nosso lado, precisa ser benvindo ou estaremos criando uma guerra dentro da guerra, deixando o inimigo numa boa, na sua eterna e privilegiada zona de conforto

ONG: Eu sou voluntária desde muito novinha. Sempre dei aulas sociais

Comecei levando o conteúdo escolar para as crianças que ficavam internadas por muito tempo e acabavam perdendo o ano. A ideia era mantê-las conectadas com o mundo e atualizadas de modo que que quando voltassem à escola “não repetissem de ano”. Além disso, essa atividade as deixavam muito mais colaborativas com o tratamento.

Aí surge a aids. Era dilacerante ver as consequências do preconceito. As pessoas não se dispunham a colaborar com as ações para ajudar pessoas que tinham a doença. Era aquela visão que falei no início: “Problema dela.” No entanto, as pessoas se apiedavam e colaboravam para entidades que lidavam com questões do câncer. Então percebi que não era uma questão de poder aquisitivo, mas de julgamento

A Casa da Vida surgiu para ajudar aqueles que não contavam com muita ajuda por questões de preconceitos. Quem? Mulheres contaminadas pelos parceiros e imediatamente estigmatizadas. Crianças que perdiam os pais e ficavam a caro das avós, geralmente senhoras que viveram de trabalhos braçais a vida toda e devido a idade, em muita condição de trabalho

Feminista, eu?

Nunca foi uma questão para mim ser ou não feminista. Nem sabia do que se tratava. Não estava no meu radar. Até eu fazer o curta Procuram-se Mulheres e nos debates após as sessões ter essa pergunta para responder. Era um tal de:
-Você enquanto feminista….
-Você é feminista?
-Como feminista o que você acha de…

Em Recife respondi que de onde eu vinha toda mulher que não aceitava o lugar que lhe impunham, era feminista. Não era uma questão de escolha. Não dava tempo para estudar a teoria. Cheguei aos 50 anos militando por direitos e espaço, incluindo mulheres e drags em tudo o que eu fazia sem nunca ter lido um livro de teoria feminista. Pra falar a verdade, ainda não li nenhum inteiro até hoje.